Cartum – Os brasileiros estão acostumados a ouvir que o Brasil tem vocação para ser o celeiro do mundo, mas tem mais gente almejando esse papel. A expressão "bread basket" em inglês foi utilizada à exaustão para designar Sudão durante a 41ª Conferência das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes, realizada nesta terça-feira (29), em Cartum, capital do país africano. O tema do encontro foi justamente a segurança alimentar no Oriente Médio e Norte da África.
Nessa seara sudaneses e demais árabes podem fazer um casamento perfeito. De um lado, boa parte dos países da região, principalmente os do Golfo – áridos, porém, líquidos com as receitas do petróleo -, buscam alternativas para abastecer suas populações. De acordo com estimativas apresentadas na reunião, as nações árabes precisam investir US$ 37 bilhões na produção de alimentos nos próximos cinco anos para garantir sua segurança alimentar.
De outro lado, o Sudão, após a separação do Sudão do Sul, na metade do ano, perdeu a maior parte de suas receitas petrolíferas e aposta no desenvolvimento agropecuário como compensação. O principal problema é a falta de dinheiro, o que os outros têm. O que os sudaneses oferecem são vastas extensões de terras férteis, água, mão de obra e uma tradicional vocação para a agricultura.
"Nossa principal estratégia para substituir o petróleo é a agricultura, com processamento de alimentos e exportação", disse à ANBA o ministro da Agricultura do país, Abdelhalim Almutafie. "O principal problema é o financiamento", acrescentou.
O CEO da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Michel Alaby, informou, com base em dados apresentados na conferência, que o custo de vida no mundo árabe subiu muito depois da crise financeira internacional de 2008 e que os participantes destacaram a necessidade de políticas de produção de alimentos para a região. A entidade participa como observadora da reunião da União Geral das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes.
O diretor gerente da Kenana Sugar Company, conglomerado sudanês do ramo sucroalcooleiro, Mohamed El Mardi El Tegani, ressaltou que todos os países árabes, com exceção de Sudão e Egito, estão abaixo do nível considerado seguro no que diz respeito à disponibilidade de água, sendo que o Egito logo deve seguir o mesmo caminho dos demais.
O secretário-geral do Conselho de Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura da Arábia Saudita, Fahad Al-Sultan, acrescentou que a produtividade agrícola dos países árabes está abaixo da média mundial e que o comércio de alimentos entre as nações da região é "insuficiente e fraco", apesar da existência de uma área de livre comércio entre elas.
"O preço dos alimentos vai aumentar ainda mais, teremos falta de alimentos e precisamos de estratégias", alertou Sultan. "Os privilégios [naturais e humanos] do Sudão devem ser explorados", destacou.
Para colocar essa política em prática o tempo urge, pois a economia sudanesa já sofre com os efeitos da separação. A inflação está na casa dos 20% ao ano, a libra sudanesa perde valor frente ao dólar – a cotação oficial não reflete a realidade do câmbio paralelo – e as reservas internacionais estão em baixa, colocando em risco o financiamento de importações. Isso aliado a disputas fronteiriças ainda não resolvidas entre o Norte e o Sul.
Brasil
Os sudaneses esperam contar com o dinheiro dos países do Golfo e de outros, como Turquia, China e até do Japão e da União Europeia, para financiar sua produção, mas precisam de parcerias também na área técnica. É nessa seara que entra o Brasil. De posse de know-how avançado na área, empresas brasileiras já promovem projetos pilotos de plantações de commodities e irrigação na nação africana.
Os sudaneses estão em contato com outras instituições do Brasil, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com o objetivo de obter financiamento para a compra de implementos e serviços, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e até o governo do Distrito Federal.
Há outras opções na mesa. De acordo com o embaixador brasileiro em Cartum, Antonio Carlos do Nascimento Pedro, existem conversas sobre um projeto agrícola no Sudão com financiamento saudita e tecnologia brasileira. Ele acrescentou que o Brasil goza de grande simpatia entre os sudaneses.
"Os brasileiros não pegam só o projeto, ele está acoplado ao terreno social. O Brasil chega e se envolve com os locais, sem excluir o grande projeto. É um dos poucos países que fazem isso", destacou o diplomata, acrescentando que nas conversas entre instituições brasileiras e sudanesas há, por exemplo, a ideia de se criar três escolas de ensino técnico agrícola no país africano.
Com cerca de 80% de sua área agriculturável ainda não explorada, o Sudão quer desenvolver diversos tipos de culturas, como soja, trigo, sorgo, girassol, algodão, horticultura, aquicultura, pecuária, criação de ovinos e frangos, além da indústria associada a esses setores. "Por isso queremos trazer tecnologia brasileira", disse o ministro da Agricultura. A área mais avançada por enquanto é a do açúcar, capitaneada pela Kenana.
O Sudão já recebe investimentos estrangeiros na agropecuária e vende a produção ao exterior. O etanol da Kenana é exportado para a Europa e a própria empresa é um exemplo. Ela tem como acionistas os governos do Sudão, Arábia Saudita, Kuwait, órgãos árabes de fomento, bancos comerciais e a japonesa Sojitz. O presidente da Federação de Empresários e Empregadores Sudaneses, Saudi Al Breir, citou outro exemplo: a venda recente de dois milhões de cabeças de ovinos para a Arábia Saudita. Falta transformar tudo isso em uma estratégia regional de longo prazo.

