São Paulo – Uma iniciativa gaúcha está tentando transformar a produção de trigo do Sul do Brasil e fazer com que a região produza apenas o cereal do tipo pão, usado na panificação e considerado de maior qualidade do que o brando, para a fabricação de pizzas e biscoitos. A ação é da unidade Trigo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que fica no município de Passo Fundo, interior do Rio Grande do Sul, e que organizou, em agosto, encontros com representantes da agricultura local para discutir e disseminar a idéia.
O mentor do projeto, o chefe geral da Embrapa Trigo, Sérgio Dotto, acredita que a produção unificada pode beneficiar os agricultores na comercialização e facilitar a exportação. "É difícil de separar nos armazéns", afirma Dotto, sobre o atual cenário de cultivo dos dois tipos de trigo. Ele acredita que o trigo pão terá mais facilidade de exportação, principalmente para Oriente Médio e África, mercados atualmente abastecidos deste produto pela Europa. A idéia é que seja produzido trigo de classificação 220 a 300, com alta força de glúten.
Segundo Dotto, em função do clima, o trigo é a única cultura de grande porte economicamente viável para o Sul do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul de abril a setembro. De acordo com ele, há nesta região área potencial de três milhões de hectares para o trigo. Levando em conta produtividade de duas toneladas por hectare, o potencial de produção de trigo pão, calcula o engenheiro agrônomo, é de seis milhões de toneladas por ano. Com consumo de dois milhões de toneladas na região, sobrariam quatro milhões de toneladas para exportar.
A venda para os grandes centros consumidores do Brasil, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, ou mesmo o Norte, Nordeste e Centro-Oeste do País, tem custo muito alto, afirma Dotto, em função de despesas de frete, ICMS, que incide na comercialização de produtos entre estados, entre outros. É mais vantajoso, segundo o chefe da Embrapa Trigo, colocar o cereal nos portos do Sul do Brasil mesmo e exportar.
Dotto lembra que, atualmente, do total de trigo brando produzido na região Sul do Brasil, apenas 8% é absorvido internamente. Antigamente, este trigo, que hoje sobra no mercado e também chega a ser exportado, servia para ser misturado ao cereal importado da Argentina, de maior qualidade. Hoje, porém, a Argentina já envia ao Brasil o seu trigo pronto. O chefe da unidade da Embrapa afirma que indústrias que precisam do trigo brando para fabricação de bolachas podem fazer encomendas específicas para a sua produção às cooperativas. Os produtores costumam atuar por meio delas na região.
De acordo com o engenheiro, a idéia de produzir o trigo pão em toda a região foi bem recebida por participantes das reuniões promovidas pela Embrapa sobre o tema, que inclui discussões com cooperativas e sindicatos rurais. A última delas ocorreu há cerca de dez dias com representantes do Sindicato Rural de Passo Fundo. Segundo Dotto, agora a idéia será discutida com as diretorias das cooperativas.
Na atual safra, o Sul do Brasil (incluindo todo Paraná) plantou 1,9 milhão de hectares com trigo, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No total, a produção dos três estados deve alcançar 4,9 milhões de toneladas este ano, com queda de 10% sobre a colheita anterior, que foi de 5,5 milhões de toneladas. O Brasil como um todo produziu 5,8 milhões de toneladas de trigo na última safra e deve produzir 5,2 milhões de toneladas na atual. No ano passado, o Brasil exportou 2,3 milhões de toneladas de trigo, a maior parte da região Sul.

