Isaura Daniel
São Paulo – O Brasil está testando um tipo de alimentação originária de países árabes para caprinos e ovinos que vivem em zonas semi-áridas. São os blocos multinutricionais, uma mistura de alimentos como forragem, grãos e melaço que é preparada em forma de bloco, com ajuda de cimento, e distribuída nas zonas semi-áridas para consumo dos animais. O cimento, usado em pequena quantidade para unir ingredientes, não é prejudicial aos animais.
De acordo com a pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Ana Clara Cavalcante, as pesquisas para uso dos blocos no Brasil começaram há cerca de dois anos e já foram feitos alguns experimentos em Pernambuco. "Estamos começando a usar os blocos", diz a pesquisadora.
As tecnologias voltadas para a conservação da vegetação e a criação de animais no semi-árido foram discutidas na segunda-feira (12) e terça-feira (13) em um workshop internacional em Fortaleza, no Ceará. Participaram do encontro cerca de 30 pesquisadores e estudantes da América Latina e países como Indonésia, Escócia e Síria.
O Instituto Internacional para Pesquisa Agrícola em Áreas Áridas e Semi-áridas (Icarda), que fica em Aleppo, na Síria, enviou para o encontro o boliviano Luiz Inigues, coordenador dos programas do instituto para Brasil, Venezuela e México.
A troca de experiências que permitam manter o ecossistema do semi-árido entre os países que têm zonas semi-áridas foi o grande objetivo do encontro. A degradação das regiões áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas leva à desertificação, fenômeno ambiental que é tema de preocupação no mundo inteiro, inclusive no Brasil (leia mais sobre o assunto no link abaixo).
De acordo com Ana Clara, os ovinos e os caprinos são os animais que têm maior criação nas zonas semi-áridas, justamente por se adaptarem facilmente a elas e ao tipo de vegetação que apresentam.
Atualmente, esses animais são muito utilizados para consumo próprio pelas famílias que os criam. O objetivo da Embrapa e dos pesquisadores mundiais da área, porém, é fazer com que eles sejam também uma fonte de renda para essas populações. Para isso, no entanto, é preciso que sejam aplicadas novas tecnologias de produção, como a complementação alimentar.
Entre as opções apresentadas no seminário no Ceará estiveram os blocos multinutricionais usados em países árabes como Síria e Tunísia. Também foi falado sobre a alimentação usada no Brasil para caprinos e ovinos, que é a silagem e o feno.
De acordo com Ana Clara, no Brasil o maior uso dos ovinos e caprinos é para corte. Já nos países árabes, principalmente na Síria, eles são mais utilizados para a produção de leite. Ontem, os pesquisadores internacionais que participaram do seminário foram conhecer as zonas semi-áridas no Nordeste do Brasil e as tecnologias que são aplicadas pela Embrapa na região, como uso de adubação e novas espécies de plantas.
O seminário foi uma promoção do Icarda e da Embrapa, com apoio do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA), sediado na Argentina, e teve financiamento do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA). Amanhã a ANBA publica mais uma matéria sobre a desertificação.

