Alexandre Rocha
São Paulo – O Instituto Butantan, órgão vinculado à Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, vai fabricar vacina contra a gripe aviária utilizando tecnologia brasileira que garante mais eficácia ao produto, maior capacidade de produção e a redução de custos em comparação com outros países. De acordo com o professor Isaías Raw, presidente da Fundação Butantan, a vacina deve estar pronta para aplicação em larga escala em humanos em no máximo 180 dias.
O que garante este diferencial ao produto brasileiro é o uso de um adjuvante, desenvolvido pelo Butantan durante três anos de pesquisa, que aumenta sua eficácia e reduz a quantidade necessária para uma imunização segura. No caso, trata-se de um componente chamado Monosfosforilipídeo A (MPLA), derivado do desenvolvimento da vacina contra a coqueluche.
Segundo Raw, as vacinas contra gripe aviária desenvolvidas até agora demonstraram pouca eficácia, sendo necessárias até 10 doses para imunizar uma pessoa. "Mas a adição deste adjuvante aumenta a atividade da vacina em quatro vezes, o que permite a ampliação da capacidade de produção e redução do preço", disse. Ou seja, torna-se necessário o uso de apenas um quarto da quantidade de vacina para atingir o mesmo efeito imunizador.
O Butantan tem em mão duas cepas do vírus da gripe aviária, uma originária do Vietnã, fornecida pelo laboratório britânico National Institute for Biological Standards and Technology, e outra da Indonésia, enviada pelo Center of Deseases Control (CDC), de Atlanta, nos Estados Unidos. Esta última se mostrou mais eficaz. O Butantan é um dos cinco centros produtores de vacinas no mundo que faz parte da força-tarefa da Organização Mundial da Saúde (OMS) para combater a doença.
Raw destacou que, fora as cepas, o instituto não vai precisar de mais nenhum insumo importado para fabricar as vacinas, pois além do adjuvante ter sido desenvolvido no Brasil, são utilizados ovos de galinha na produção e o país é grande produtor de ovos. "Estamos em uma situação extraordinária no que diz respeito à capacidade de produção de vacinas", disse o professor.
Além disso, o Butantan está terminando de construir uma fábrica de vacinas contra gripe, não só a aviária, com capacidade de produzir cerca de 40 milhões de doses por ano, que deverá estar pronta no final de abril. Por enquanto, o desenvolvimento da vacina contra a gripe aviária será feito em uma pequena fábrica-piloto. A idéia é que em 90 dias ela poderá ser testada em camundongos e depois em humanos.
De acordo com Raw, deverão ser produzidas até 100 mil doses para estocagem. "A intenção é estocar e utilizar em pessoas que tenham entrado em contato com gente contaminada", disse. Ou seja, as vacinas não serão utilizadas para vacinar a população em geral, mas para fazer frente à ameaça de uma pandemia.
Ameaça de pandemia
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), são necessárias três condições para o surgimento de uma pandemia: o aparecimento de uma nova subespécie de vírus de gripe; o fato dele afetar humanos e causar enfermidade severa; e o fato dele se espalhar facilmente entre humanos.
Os dois primeiros requisitos já existem, segundo ao OMS, pois o vírus H5N1, que causa a doença, é novo no que diz respeito à infecção de humanos e causa um alto índice de mortalidade. Só para dar uma idéia, a organização informa que dos 277 casos registrados desde 2003 no mundo, 167 resultaram em morte. Os países atingidos até agora são Azerbaijão, Camboja, China, Dijibuti, Egito, Indonésia, Iraque, Laos, Nigéria, Turquia e Vietnã. Dijibuti, Egito e Iraque são países árabes.
A única condição que falta é a transmissão entre humanos, já que até agora o vírus só foi transmitido de aves para humanos. Mas o risco disso ocorrer é sério, uma vez que cada caso de infecção de pessoas por aves, de acordo com a OMS, aumenta a oportunidade para o vírus ampliar sua transmissibilidade entre humanos.
As conseqüências econômicas também são graves. No Egito, por exemplo, onde já ocorreram 23 casos, resultando em 13 mortes, o governo decidiu proibir a criação de frangos e abriu o mercado para importação.
Produção estratégica
Neste sentido, Raw disse que o fato do Brasil ter capacidade de produzir vacinas não só contra a influenza aviária, mas para outros tipos de gripe, é extremamente importante, uma vez que a fabricação hoje está concentrada em países do Hemisfério Norte. "Ter a competência para fazer a vacina é de importância estratégica", afirmou. De acordo com ele, a vacina brasileira poderá ser utilizada pelo Brasil, por outros países latino-americanos e por "quem mais precisar".
Segundo o professor, a vacina estocada nos EUA, por exemplo, por seu alto preço acaba servindo somente para países ricos. "Já a nossa intenção é fazer uma vacina que os governos em geral possam pagar", declarou. "O ideal seria que o mundo tivesse mais juízo, que escolhesse, por exemplo, 10 lugares para estocar e não ficasse esperando a pandemia bater na porta", concluiu.
Fundado em 1901, o Instituto Butantan é um centro de pesquisa biomédica responsável por mais de 80% da produção de soros e vacinas no Brasil, segundo informações da própria entidade. Ele é bastante conhecido por suas pesquisas sobre animais peçonhentos e pela fabricação de soros contra picadas destes animais. Sua coleção de serpentes, que pode ser visitada, conta com 54 mil exemplares.

