Isaura Daniel
São Paulo – Uma tecnologia brasileira de saneamento vai começar a ser utilizada no segundo semestre deste ano em Ajman, nos Emirados Árabes Unidos. O esgoto da cidade será tratado em um sistema criado no Brasil a partir de pesquisas lideradas pelo engenheiro civil e sanitarista capixaba Ricardo Franci Gonçalves. O grande diferencial da estação de tratamento é que ela é compacta, o que a torna adequada para regiões montanhosas com pouco espaço plano e de clima quente, como é o caso de Ajman.
A tecnologia começou a ser desenvolvida em 1995 em função de um pedido feito pela Fundação Nacional de Saúde para a Universidade Federal do Espírito Santo, onde trabalha Gonçalves. A Fundação queria um modelo de tratamento de esgoto adequado para o estado, que é montanhoso. O sistema, porém, acabou sendo usado em outras regiões. O resultado das pesquisas feitas na época é hoje de domínio público. Gonçalves também criou um sistema similar, cuja patente é de sua propriedade.
O engenheiro Gonçalves atuou como consultor no projeto de tratamento de esgoto de Ajman, mas a tecnologia usada foi a pública. A oportunidade surgiu a partir de contatos do pesquisador com uma empresa inglesa, a Paterson Candy, responsável por implementar um sistema de saneamento na cidade árabe. As primeiras conversas ocorreram há cerca de três anos e a estação foi construída há um ano. A entrada em operação está prevista para os próximos meses. "A tecnologia é mais barata e compatível ao clima dos Emirados, que é parecido com o nosso", explica Gonçalves.
As pesquisas levaram à criação de uma estação na qual foi possível agrupar uma grande população de bactérias em um pequeno espaço físico. São as bactérias as responsáveis por tratar o esgoto. "Conseguimos reduzir o volume de tanques necessário", diz Gonçalves. Alguns pontos da estação são desodorizados para não causar mau cheiro e, portanto, pouco impacto no ambiente urbano. A estação é adequada justamente para cidades. Ela é própria também para o clima quente em função do tipo de bactérias utilizadas, que não gostam do frio.
Mais barata
De acordo com Gonçalves, a construção da estação é 30% mais barata do que a convencional. Para mantê-la funcionando os custos são 40% menores, segundo o engenheiro. Ela pode ser feita com materiais como aço, fibra, PVC e concreto e colocada dentro do solo ou sobre ele. A possibilidade de reuso da água, que normalmente é destinada para indústria, agricultura ou lavagem de vias, é outro ponto forte da estação. Nos Emirados, a água tratada será reutilizada. "Lá a água doce vale muito", diz o Gonçalves.
A primeira utilização da tecnologia foi feita pela cidade brasileira de Linhares, no Espírito Santo. Hoje, porém, está espalhada por várias cidades do país. Só a empresa na qual Gonçalves é sócio atualmente, a Fluir Engenharia Ambiental, de Vila Velha, já desenvolveu 220 projetos baseados na tecnologia. A Fluir foi criada há cerca de quatro anos e seu carro-chefe é a estação de tratamento de esgoto compacta.
A empresa adaptou a tecnologia também para estações de tratamento das chamadas águas cinzas, que são águas de pias e lavatórios, e torná-las reutilizáveis. A Fluir fez um projeto para um hotel de Macaé, no Rio de Janeiro, no qual a água cinza é reutilizada em vasos sanitários. "O hotel já nasceu com uma estação de tratamento", conta o engenheiro. Gonçalves afirma que tem interesse de levar este tipo de projeto para o mundo árabe. O pesquisador é doutor em Engenharia de Tratamento de Águas pelo Instituto Nacional de Ciências Aplicadas (INSA), da França.
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Fluir Engenharia Ambiental
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