São Paulo – Dentro da fábrica da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo, o engenheiro Gilberto Leal e sua equipe trabalham para colocar na estrada caminhões aptos para usar percentuais cada vez maiores de biodiesel. Enquanto isso, no Vale do Mucuri, em Minas Gerais, o caminhoneiro Marco Antônio Teixeira fica atento às informações que os postos de combustíveis dão a respeito de como diminuir as emissões de poluentes do caminhão e faz questão de ter o biodiesel no tanque dos seus veículos. Além de Mercedes-Benz e Volkswagen, Teixeira tem também caminhões da Scania, empresa que já treinou 10 mil motoristas sobre como reduzir o consumo de diesel e, assim, as emissões.
O trabalho de brasileiros como Leal e Teixeira alimenta o setor responsável por levar ao seu destino 65% das cargas no país. Os caminhões e as rodovias compõem a principal matriz brasileira do transporte de mercadorias e são considerados também um dos grandes vilões da poluição ambiental. Só na região metropolitana de São Paulo, o diesel, combustível usado nos caminhões, deixou no seu rastro, no ano passado, 398,8 mil toneladas de monóxido de carbono, 61,4 mil toneladas de hidrocarbonetos, 291,2 mil toneladas de nitrogênio, 4,1 mil toneladas de enxofre e 14,3 mil toneladas de material particulado, segundo levantamento da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).
O setor de transportes como um todo é o segundo emissor de gás carbônico no Brasil, atrás apenas das queimadas de florestas, de acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente. Por isso mesmo, entre os que de alguma forma dependem da estrada para viver começa a haver um movimento para tornar mais pacífica a convivência entre meio ambiente e caminhão rodando. “Os veículos tiveram melhorias significativa em emissões, o que pode ser considerado um avanço”, afirma o técnico especialista do Ministério do Meio Ambiente, Marcelo Castro Pereira, a respeito das iniciativas das indústrias de caminhões em produzir veículos com menor consumo de combustíveis.
A adição de biodiesel ao diesel já se mostrou uma das alternativas para poluir menos. Nas bombas dos postos de combustível do Brasil já está misturado ao diesel 4% de biodiesel. O uso dos 4% é obrigatório desde julho deste ano. E as montadoras de caminhões vêm tentando correr na frente no assunto. A Mercedes-Benz, por exemplo, já disse ao mercado, em março, que seus caminhões estão testados e aptos para usar uma adição de até 5%. De acordo com informações de Gilberto Leal, gerente de Desenvolvimento de Motores da Mercedes-Benz, a companhia já fez testes também do B20, diesel com 20% de biodiesel. E vem trabalhando em cima do B100, uso de biodiesel puro.
Os testes da Mercedes indicam que a adição de 5% causa redução de 10% na emissão de material particulado (MP), que são partículas escuras que ficam sobre as superfícies e quando muito finas podem ser inaladas e fazer mal à saúde humana e de animais. O B20 diminui em 22% as suas emissões, de acordo com a Mercedes-Benz, o B50 em 36% e o B100 em 39%. Leal acredita que o ideal é a adição de biodiesel ao diesel na faixa de 30%, já que não se verifica redução expressiva das emissões do B50 para o B100.
O uso do biodiesel, no Brasil, porém, não anda tão rápido como as montadoras e caminha junto com a disponibilidade do produto, já que a formação da cadeia de produção é recente. De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), foram produzidos entre janeiro e julho deste ano, 808,9 mil metros cúbicos de biodiesel. A soja é base para 81% do biodiesel produzido no país. O consumo, no primeiro semestre do ano, alcançou 621 mil metros cúbicos. Houve um aumento de 42,7% sobre o mesmo período de 2008. Já o consumo de diesel caiu 4,8%, de 21,7 milhões de metros cúbicos para 20,7 milhões de metros cúbicos.
As ações casando diesel e conservação ambiental são estratégicas para o país, já que a totalidade dos caminhões produzidos no Brasil, segundo dados levantados pelo Ministério do Meio Ambiente referentes a 2007, são movidos a diesel. No final da década de 50, os caminhões à gasolina eram quase o dobro dos a diesel, o que mudou com o decorrer dos anos. Entre o final da década de 70 e de 80, o país chegou a fabricar caminhões a álcool, mas a iniciativa não prevaleceu. Hoje, existem no Brasil, segundo dados da União Brasileira de Caminhoneiros, cerca de 3,2 milhões de caminhoneiros. E 1,3 milhão de caminhões, segundo a Confederação Nacional dos Transportes (CNT).
No volante
E no universo de parte destes homens da estrada também passou a estar a preocupação ambiental. Alguns, como Marcos Antônio Teixeira, levantam a bandeira verde para salvar a natureza. “Por causa do aquecimento global”, diz Teixeira, justificando porque acha importante o uso do biodiesel e relatando que começou a se preocupar com a redução da poluição dos seus caminhões de uns dois anos para cá. O caminhoneiro conta que na sua região, o Sindicato dos Caminhoneiros de Minas Gerais desenvolve uma ação de orientação ambiental junto aos motoristas nos postos de combustíveis. Teixeira tem dez caminhões e trabalha na região do Vale do Mucuri transportando desde madeira e cimento até açúcar.
O caminhoneiro José Natan Emídio Neto, que também atua no transporte de mercadorias no estado de Minas Gerais e é presidente da União Brasileira de Caminhoneiros, acredita que a redução da emissão dos poluentes pode favorecer a saúde dos caminhoneiros. Ele relata que em enterros de colegas é normal ouvir a família falar que “o fulano morreu de tanto respirar fumaça”. E conta ainda que convive diariamente, na rodovia, com motoristas de carros leves torcendo a cara ao chegarem perto do caminhão, por causa das emissões.
Neto, como Teixeira, também se diz preocupado com o meio ambiente, mas faz uma crítica ao biodiesel. “Entope os filtros”, afirma. O problema é explicado por especialistas no tema. Isso acontece, segundo o gerente de Desenvolvimento de Motores da Mercedes-Benz, quando o combustível tem origem duvidosa. Há também o fato, esclarece ele, de que o biodiesel tem “efeito detergente”, de limpeza. Nesse caso, quando o veículo não tem uma manutenção adequada, o combustível pode carregar sujeira para os filtros do caminhão, causando problemas. Neto tem cinco caminhões, das marcas Scania e Mercedes-Benz.
Apoio para a estrada
Motoristas como Neto e Teixeira têm ao seu redor uma série de iniciativas nas quais podem se apoiar para reduzir a poluição gerada pelo seu trabalho. A CNT lançou há cerca de dois anos um programa de preservação ambiental para o setor que tem como um dos focos os caminhoneiros. Entre as ações estão a verificação das emissões dos veículos, o incentivo aos combustíveis mais limpos, o fomento à gestão ambiental dentro as empresas de transporte e ao engajamento de profissionais do setor, como os caminhoneiros, na defesa do meio ambiente.
As montadoras também têm ações neste sentido. A Scania possui um programa chamado Master Driver que orienta o motorista a conduzir otimizando o veículo e assim gastando menos diesel. Um curso para treinar os caminhoneiros foi criado em 1998 e já atingiu 10 mil pessoas desde lá. Empresas que dependem muito do transporte de cargas também têm seus programas próprios. É o caso da Tetra Pak, indústria de embalagens cartonadas que trabalha para reduzir o uso de combustível. Em sua fábrica, em Ponta Grossa, no Paraná, as matérias-primas chegam via férrea para reduzir a emissão de poluentes do transporte.
Estrada para apoio
A conservação das rodovias também influencia muito no consumo de combustível e, por conseqüência, na quantidade de poluentes emitidos pelos caminhões. “Quanto piores as condições da rodovia, mais combustível se consome”, afirma Pereira, do Ministério do Meio Ambiente. O movimento de reduzir a marcha, voltar a acelerar, por exemplo, para passar em buracos ou desviar de entraves da rodovia, fazem o consumo do combustível do caminhão aumentar bastante. O mesmo ocorre com o congestionamento. Também faz o veículo gastar mais combustível do que o necessário.
O técnico especialista do Ministério do Meio Ambiente afirma que uma das alternativas, para a redução da poluição no Brasil, é o investimento em outros meios de transporte de carga, como o ferroviário e o hidroviário, que são até mais baratos. O transporte ferroviário responde por cerca de 20% da movimentação de cargas no país e o aquaviário por 13,6%, segundo dados da CNT. O investimento em rodovias, lembra ele, foi a maneira que o Brasil encontrou para se desenvolver e gerar empregos, com a abertura de montadoras. Recentemente o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, defendeu que seja repensada a matriz de transportes no Brasil para redução da poluição ambiental.

