São Paulo – Aos 57 anos, Mohamed Mestiri assumiu pela primeira vez o posto de embaixador. Desde outubro, ele é o chefe da representação diplomática da Tunísia em Brasília. Nesta terça-feira (13), ele conversou com a reportagem da ANBA, durante visita à Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em São Paulo, e falou sobre a situação política em seu país e também sobre seu trabalho para aumentar o comércio e as relações culturais entre a Tunísia e o Brasil.
Antes de assumir o posto na capital brasileira, Mestiri atuou por seis anos na área econômica na embaixada da Tunísia em Washington, depois voltou ao seu país e ocupou os cargos de chefe da Divisão de Cooperação com o Fundo Monetário Internacional (FMI), subdiretor da Cooperação com Órgãos Financeiros e de ministro plenipotenciário no Ministério das Relações Exteriores.
Com uma fala tranquila, ele afirma que não há como prever como ficará o mundo árabe após as revoluções que atingiram a região, mas se mostra esperançoso com o rumo que seu país está tomando. “A mudança que teremos na Tunísia será a maior do mundo árabe, porque estamos reescrevendo nossa constituição”, destaca. “Elegemos uma assembleia que já está fazendo este trabalho”, aponta. Ele ressalta que a Tunísia é um país pacífico e que, apesar das mortes indesejáveis, a revolução tunisiana causou menos vítimas que as realizadas nos países vizinhos.
Mestiri considera importante que a Tunísia possa aprender lições com outros países que também passaram por períodos ditatoriais, como o Brasil. “O Brasil também teve ditadores e não foi há tanto tempo. Nós podemos aprender com a experiência do Brasil e de outros países da América Latina. A democracia também é nova para estas nações e elas podem nos mostrar os erros que cometeram para que nós possamos evitá-los.” Sobre o que espera desta nova fase em seu país, ele se mostra ponderado. “Vamos tentar responder aos problemas que a Tunísia vem enfrentando, como o desemprego entre os jovens, por exemplo.”
Em relação à área econômica, ele destaca que cerca de 80% das relações comerciais de seu país são com a Europa, o que o torna muito vulnerável às crises naquele continente. Assim, Mestiri quer trabalhar para aumentar o intercâmbio comercial com o Brasil. “Hoje, a maior parte do nosso comércio com o Brasil se baseia em produtos agrícolas, de mineração, produtos muito básicos, e tanto a economia tunisiana quanto a do Brasil são mais industrializadas. Queremos desenvolver o comercio de produtos com maior valor agregado”, afirma.
Desde segunda-feira (12), Mestiri tem se encontrado com representantes de empresas brasileiras, com quem tem conversado sobre os interesses em importação. “Quero ver quais as oportunidades que temos para colocar produtos aqui no Brasil. Há espaço para azeite de oliva, tâmaras, frutas secas, mas a Tunísia também tem outros produtos. Queremos desenvolver um comércio com itens como produtos elétricos, eletrônicos, autopeças, etc.”, diz.
Outro aspecto considerado importante pelo embaixador na relação entre Brasil e Tunísia é o intercâmbio entre estudantes. “É uma das maneiras de aproximar os povos. Os jovens compreendem melhor a mentalidade de seu povo. Se um jovem da Tunísia passa alguns anos aqui, leva para lá as expectativas do Brasil em relação ao nosso país. Acho que é um bom caminho para aumentar as relações entre dois países”, completa.
A Tunísia foi governada por mais de duas décadas pelo ditador Zine El Abdine Ben Ali, derrubado no início deste em meio aos protestos que deram início à chamada Primavera Árabe. No mês passado, o país elegeu os integrantes da assembleia que vai redigir sua nova constituição.
Com a mudança do regime, as exportações do Brasil para a Tunísia até aumentaram. Os embarques renderam US$ 370,7 milhões de janeiro a novembro, um crescimento de 103% sobre o mesmo período de 2010, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).
As importações brasileiras de produtos tunisianos, por sua vez, somaram US$ 98,8 milhões, uma queda de 19,4% em relação ao período de janeiro a novembro do ano passado.

