São Paulo – Os principais países desenvolvidos enfrentam uma crise econômica e diversos mercados no mundo todo estão em retração. Mas não o turismo. O setor tem crescido nos últimos anos e, segundo a Organização Mundial do Turismo (UNWTO), chegou este ano a um bilhão de turistas. O movimento cresce desde 2010. Quem atua no setor diz que o aumento não deverá ser maior do que 4% nos próximos anos, mas acrescenta que viajar, hoje, é tão comum quanto comprar uma casa ou um carro.
Diretora de comunicação da UNWTO, que é uma agência das Nações Unidas, a portuguesa Sandra Carvão afirma que viajar se tornou uma necessidade. “Em períodos de crise, as pessoas podem até reduzir o número de viagens ou a distância delas. No entanto, viajar se tornou um modo de vida das pessoas, algo que pertence à sua natureza, à sua realidade. O aumento das viagens também tem sido impulsionado pelas economias emergentes. Viajar é cada vez menos um luxo e cada vez mais uma necessidade”, afirma.
Um levantamento realizado em 2011 sobre as previsões da UNWTO indicam que em 2030 1,8 bilhão de pessoas irão cruzar fronteiras e que a participação dos turistas da Europa e da América do Norte deverá cair até lá. Em 2010, a Europa era responsável por 51% do fluxo mundial de turistas e as Américas por 16%. No mesmo ano, a participação da Ásia e do Pacífico correspondia a 22% do total, o Oriente Médio era responsável por 6% e a África, por 5%. A previsão da UNWTO é que em 2030, 41% do fluxo turístico seja gerado pela Europa, 30% pela Ásia e Pacífico, 14% pelas Américas, 8% pelo Oriente Médio e 7% pela África.
Carvão afirma que o crescimento ou redução da participação de um continente no fluxo turístico internacional está relacionado, entre outros fatores, à força da economia da região. “O aumento ou redução da quantidade de turistas tem relação com a importância desta região na economia mundial”, afirma a diretora da UNWTO.
Coordenadora da graduação em Turismo da Universidade Anhembi Morumbi, Andrea Nakane também afirma que viajar deixou de ser um sonho distante para se tornar realidade na vida das pessoas e observa que o fluxo de turistas no mundo está crescendo porque cidadãos de países que antes não tinham condições de viajar agora têm.
Nakane diz que a redução de preços de passagens aéreas e condições mais atraentes de pagamento também aumentaram as chances de comprar um pacote turístico. O levantamento da UNWTO mostra que 51% dos turistas de 2012 viajaram a lazer, 27% foram visitar parentes ou por motivos de saúde e 15% viajaram a negócios.
"As empresas aéreas ‘low-cost’ e a maior disponibilidade de passagens são facilitadores (para quem deseja comprar uma viagem), assim como a facilidade de pagamentos. Com mais demanda se começa a encontrar valores mais interessantes. No Brasil, por exemplo, uma classe social que não viajava agora está dentro deste circuito. Hoje cada vez mais é possível trabalhar para aumentar a quantidade de turistas, há instrumentos tecnológicos que permitem ao turista encontrar tarifas diferenciadas. Viajar, hoje, é quase uma necessidade na busca pelo bem-estar”, diz Nakane.
Hábito regional
A coordenadora da Anhembi Morumbi lembra, contudo, que mesmo com o aumento de pessoas viajando, esse hábito ainda é regional. Há um fluxo muito grande de pessoas que viajam dentro de seus próprios países ou em seu continente. Na China, diz Nakane, a quantidade de pessoas que viaja cresce muito a cada ano. No entanto, os chineses ainda ficam dentro do seu país. O mesmo acontece na Europa, onde, segundo a UNWTO, 80% dos turistas vêm de países da região.
O mesmo ocorre com o Brasil e outros países latinos. Segundo o diretor do Departamento de Estudos e Pesquisas do Ministério do Turismo, José Francisco Salles Lopes, 60 milhões de brasileiros terão viajado em 2012 e realizado 197 milhões de deslocamentos dentro do País. A quantidade de brasileiros que deverá deixar o País em 2012 ficará estável em 6,2 milhões. Já entre os turistas que vêm para cá, a maior parte é da América do Sul e 30% deles são argentinos. “O turismo tem características regionais e viajar a curtas distâncias ou por meios terrestres é bem mais barato do que de avião”, diz.
Assim como Carvão e Nakane, Lopes observa que o crescimento do turismo mundial está relacionado ao desenvolvimento de países que antes não eram grandes emissores de turistas, e cita como exemplos Brasil, Rússia, Índia e China. Ele também diz que a facilidade de pagar uma viagem em até 12 prestações, algo que não existia, incentiva as pessoas a conhecer outros lugares.
Além do crescimento da quantidade de turistas de países emergentes e dos deslocamentos mais acessíveis de que os europeus dispõem, turistas de outras regiões também são responsáveis pelo crescimento no fluxo internacional. É o caso, por exemplo, dos países do Oriente Médio. Sua participação na movimentação mundial deve crescer de 6% em 2010 para 8% em 2030 e Carvão afirma que este aumento deve ser “respeitado”. “Pode parecer pouco, mas esse salto representa um aumento de 61 milhões de pessoas que vão para a região por ano atualmente para 150 milhões em 2030.”
No mundo, houve 940 milhões de turistas em 2010, um crescimento de 6, 4% em relação a 2009. Em 2011,o crescimento foi de 4,6% e o fluxo chegou a 983 milhões de turistas. Em 2012, as chegadas internacionais deverão registrar aumento de 4% em relação a 2011. Assim deverá ser nos próximos anos. Carvão afirma que em 2013, o crescimento do fluxo de turistas deverá ficar entre 2% e 4% em relação a 2012.
As previsões da UNWTO indicam que entre 2010 e 2030 as chegadas de turistas deverão crescer a uma taxa média de 3,3% ao ano. Entre 1980 e 2020, deverão ter crescido a 4,2% ao ano. De acordo com a UNWTO, o menor crescimento da quantidade de turistas deverá ser atribuído ao crescimento menor do Produto Interno Bruto (PIB) dos países e aumento nos custos de transporte.

