São Paulo – Até metade do ano que vem deve estar pronto o centro do bairro de Pedra Branca, na cidade catarinense de Palhoça. Essa seria apenas a conclusão de um projeto urbanístico se não fosse o diferencial carregado pelas vinte quadras principais do bairro. O local está sendo construído baseado em princípios de sustentabilidade e é um dos oito empreendimentos do mundo que participam do Programa de Desenvolvimento do Clima Positivo, da Fundação Clinton. Ele reúne iniciativas que poderão servir de referência em sustentabilidade para o planeta. A Pedra Branca é a única participante da América do Sul.
Mas o que a Pedra Branca tem de especial? Centenas de detalhes que fazem a diferença, a começar pelas ruas, que priorizam o pedestre e o ciclista. As calçadas têm entre quatro e oito metros de largura, com piso de textura adequada para caminhadas e as ciclovias ficam ao lado das calçadas para que o ciclista fique protegido. O bairro foi planejado com um mix de moradias e estabelecimentos comerciais, para que os moradores não andem mais que quinhentos metros para chegar até o trabalho e tenham ali também lazer e estudo.
A sustentabilidade foi levada em conta na hora de projetar uso de energia, água, tecnologia da informação, transporte, além de gestão de resíduos sólidos. Tanto que há uso de painéis solares nas construções, para aquecimento de água, utilização de cabos de fibra óptica, reuso de água, entre outras medidas. A incorporadora que cuida do projeto e que o criou, a Pedra Branca S.A., teve autorização para que o próprio bairro administrasse o seu sistema de água e esgoto e com isso reduziu o desperdício de água, entre a captação e o consumo, para 11%, que é o nível europeu. Essa taxa, no restante do Brasil, é de 50%.
Mas as iniciativas ali não são apenas em prol do meio ambiente e sim em benefício das pessoas, conta o presidente da incorporadora Pedra Branca, Valério Gomes. "Nossa missão é melhorar as cidades para as pessoas", afirma ele. Nessa linha estão medidas como a ausência de muros nos prédios do centro, como forma de aproximar os espaços públicos das residências e incentivar o uso de áreas comuns. E a segurança? Essa movimentação de pessoas, que em vez de ficarem atrás de muros poderão ser vistas umas pelas outras, deve inibir a violência, acredita ele.
O bairro também foi pensado dentro do conceito do novo urbanismo, que defende que o futuro está nas cidades densas e compactas. A proximidade dos locais deve incentivar, por exemplo, o uso menor do automóvel. Tanto que a incorporadora tem autorização para erguer prédios de até 12 andares. O bairro da Pedra Branca tem também uma universidade, a Unisul, com mais de 30 cursos, e receberá um hospital suíço, o Clinique des Grangettes, que atuará com medicina de alta complexidade.
A participação no Programa de Desenvolvimento do Clima Positivo começou em 2009. Desde lá, representantes do projeto Pedra Branca vão a reuniões anuais, de dois a três dias, que os colocam em contato com outros empreendimentos sustentáveis e também com fornecedores de materiais fabricados de forma sustentável e pensados para gerar sustentabilidade. O programa mede a Pegada de Carbono dos projetos que acompanha, conseguindo detectar assim quanto cada um emite de poluentes, com o objetivo de levar esse carbono para o nível zero. O carbono já começou a ser medido na Pedra Branca, mas ainda não há, conta Gomes, um prazo para zerá-lo.
A execução
A incorporadora Pedra Branca trabalha com várias construtoras e também tem uma série de escritórios, arquitetos e urbanistas atuando com ela, entre eles Jaime Lerner e Silvia Lezi. Quem está à frente de tudo, no entanto, na área de arquitetura, é a DPZ Latin America, original dos Estados Unidos, e em engenharia, é a Arup, uma das maiores empresas da área do mundo. Estão em construção, no centro do bairro, 15 edifícios, que devem ser entregues entre o final deste ano e a metade do ano que vem. Nos arredores do centro há casas e prédios, anteriores ao projeto do centro, e que não seguem, portanto, os princípios de sustentabilidade.
A ideia do bairro surgiu de Gomes e de sua família, proprietários de uma fazenda que ficava no local e era usada em finais de semana. Eles resolveram urbanizar a área. Primeiramente começaram a vender lotes para a formação de um condomínio fechado (que originaram algumas das casas e prédios que estão atualmente por ali), mas Gomes foi se interessando pelo tema da arquitetura e passou a ler livros e frequentar congressos sobre o tema. Foi assim que o empresário chegou ao novo urbanismo e à sustentabilidade e mudou os rumos do projeto inicial.
Hoje, além da família Gomes são donos da incorporadora Pedra Branca e do projeto a Espírito Santo Property Brasil, do grupo português Espírito Santo. Já moram no bairro cinco mil pessoas e há ali mais de mil casas e 20 prédios. Também há cinco mil empregos em empreendimentos do bairro.
A favela
Atualmente, além do seu próprio projeto de sustentabilidade, a Pedra Branca fez um plano diretor para levar sustentabilidade à favela Frei Damião, que fica nas redondezas. Para elaborá-lo, a incorporadora chamou o arquiteto Gustavo Restrepo, responsável pela humanização de favelas na Colômbia e conta, na sua execução, com parceria de ONGs, Prefeitura de Palhoça, Caixa Econômica Federal, lideranças locais, entre outros.

