São Paulo – Uma câmera foi quebrada por uma granada de gás lacrimogêneo, outra foi danificada por um colono judeu, a terceira tomou um tiro de um soldado, a quarta câmera se quebrou em um acidente de caminhão, enquanto a quinta câmera também foi destruída a tiros. Assim se fez a história do documentário Cinco Câmeras Quebradas, do palestino Emad Burnat, que foi indicado ao Oscar em 2012 e que abriu a 8ª Mostra Mundo Árabe de Cinema, na quinta-feira (15), em São Paulo.
Burnat não é diretor nem produtor cinematográfico. Trabalhava com atividades ligadas ao campo no vilarejo de Bil’in, de 600 habitantes, na Cisjordânia, onde nasceu e sempre morou. Mas em 2005 comprou uma câmera para acompanhar o crescimento de seu filho caçula, Jibreel. A partir daí, passou a filmar também a luta de sua família e de seus amigos na resistência contra a ocupação do exército de Israel e de centenas de colonos judeus nas terras palestinas.
O filme levou sete anos para ser concluído. Neste tempo, Burnat teve três irmãos presos e ele mesmo também foi parar na prisão. Sofreu um acidente de caminhão, ficou 20 dias em coma, viu crianças serem presas, homens desarmados serem espancados, oliveiras serem queimadas e filmou também o assassinato de um de seus melhores amigos.
Cinco Câmeras Quebradas, diz Burnat, é a história da resistência palestina contada do lado de dentro, de quem vive o dia-a-dia da ocupação israelense. Com 41 anos, casado há 20 com uma brasileira, pai de quatro filhos, ele já foi à Europa, Estados Unidos, Canadá e Japão para promover seu documentário. Em entrevista exclusiva à ANBA, Burnat falou sobre o filme, sua repercussão mundial e sobre o apoio que espera do Brasil e do restante do mundo.
Leia abaixo os principais trechos da conversa:
ANBA – Como seu filme é diferente dos outros já feitos sobre a Palestina?
Emad Burnat – Muitos filmes foram feitos sobre a Palestina de pessoas que vêm de fora. Meu filme é diferente, porque o fiz de minha perspectiva pessoal. Fiz esse filme dos meus sentimentos, do meu coração. Fiz esse filme sobre a minha experiência de viver sob a ocupação, sob a pressão de um exército.
Eu queria fazer esse filme da minha perspectiva pessoal, do crescimento do meu filho, mostrar profundamente a vida familiar de dentro e de fora. Não é só um filme político, é mais sobre a vida diária, mais sobre a parte humana. Por que tudo era relacionado a mim, então isso foi muito tocante.
Sobre os filmes feitos por pessoas vindas de fora, elas nunca sentiram o que é viver sob a ocupação, elas nunca sentiram, nunca viveram essa experiência. Elas fazem filmes, fazem história. É mais sobre política, sobre violência, mas, para mim, levou sete anos seguindo a vida e a resistência na vila para fazer esse filme, porque eu queria mostrar mais sobre a vida diária, a vida da família. É isso que faz a diferença em relação aos outros filmes.
Seu filme foi indicado ao Oscar, mas não ganhou. Você acha que há um preconceito de Hollywood em dar o prêmio a um filme que vai contra a ocupação israelense?
Para mim, ter sido indicado ao Oscar com esse filme é um grande sucesso para a questão e a história da Palestina. Mas não ganhar o Oscar é algo relacionado à situação política e a decisões políticas.
Você declarou anteriormente que, embora seu documentário tenha tido grande repercussão, não trouxe mudanças à situação da Palestina. Você ainda espera que o filme possa trazer alguma mudança para os palestinos?
O filme é mais efetivo nas pessoas que não sabem nada sobre a Palestina. O filme muda as pessoas, muda a ideia das pessoas, dá a elas a verdade e a realidade. Então, aos poucos, você pode mudar as pessoas e pode mudar toda a situação. Começamos pelas pessoas, que são tocadas pelo filme. Eu acredito que coisas como estas podem mudar, podem fazer algo.
O Brasil apoiou o reconhecimento da Palestina como estado não-membro na ONU. Você acha que há mais coisas que o governo brasileiro possa fazer para apoiar a Palestina?
O Brasil é um país muito grande e pode colocar mais pressão no governo israelense e não apoiar o governo israelense. É muito importante que países como o Brasil, que são muito fortes e efetivos, ponham pressão em Israel por uma solução e para que devolvam nossas terras e nossa liberdade.
Sua esposa é brasileira e você poderia viver aqui com sua família. Já pensou em morar no Brasil?
Aqui é mais pacífico, a vida é mais bonita e mais tranquila. Eu já estive aqui antes, em 1991, fiquei aqui por três mesas, mas resolvi voltar para o meu lar. Eu nunca pensei em deixar meu país e minha casa, porque acho que algo está ligado a mim lá. Minha terra, minhas árvores, minha casa, minha família, meus amigos. Tudo está ligado a mim, então, não é fácil deixar meu país.
Pretende fazer outros filmes?
Eu continuo filmando. Meu filho tem oito anos e eu continuo filmando a vida, a resistência, o que está acontecendo na vila. Eu espero conseguir o apoio de pessoas de diferentes países para continuar a fazer filmes sobre a resistência. Gostaria de engajar mais pessoas, as crianças a fazerem filmes.
No domingo (18), haverá uma nova exibição de Cinco Câmeras Quebradas no Cine Sesc, em São Paulo, e um bate papo de Burnat com o público. Além do documentário palestino, a 8ª Mostra Mundo Árabe de Cinema traz mais 22 filmes do Oriente Médio, Norte da África e também da América Latina. A mostra segue até 01 de setembro na capital paulista e ocorre de 04 a 16 de setembro no Rio de Janeiro.
Serviço
Exibição do filme Cinco Câmeras Quebradas e bate papo com Emad Burnat
Domingo (18), às 19 horas
Local: Cine Sesc – Rua Augusta, 2075 São Paulo – SP
Ingressos: R$ 8 (inteira), R$ 4 (meia)


