São Paulo – A pandemia foi um divisor de águas da vida de todo mundo. Uns mudaram de cidade, outros ficaram sem empregos, muitos lamentaram perdas e todos, trancafiados em casa, refletiram sobre a brevidade da vida. Foi nesse contexto, de apreensão e aprisionamento, que a paulistana Samira Chamma começou a compor. Formada em Arquitetura e Urbanismo e trabalhando na área, ela tinha na música um prazer, mas nunca tinha pensado na arte como um ofício.
Na onda das lives pandêmicas, ela mergulhou fundo no universo de outras cantoras e compositoras, como Flaira Ferro e Vanessa Moreno, com as quais entendeu que música é mais que ofício, é um jeito de estar no mundo – e fez cursos, oficinas, estudou com mais profundidade o violão e o canto. Nisso, já estava envolvida em grupos de compositores e artistas. Uma cineasta de um grupo pediu uma composição dela para um curta-metragem, o que a encorajou a lançar a mesma música no Spotify: O Vazio. Em março de 2022, sua primeira música estava no ar. Ou, como ela mesma diz: “Ela deixou de ser minha e passou a ser de quem a ouvia”.
Hoje, aos 29 anos, Samira soma um ano e meio de vida 100% artística (ainda ficou um tempo entre a arquitetura e a música), com shows pela cidade de São Paulo e no interior. E selando boas parcerias, em especial com outras mulheres, como Laís Gomes, com quem fez um duo. Em janeiro, participou do show que lançou o álbum do Coletivo Mulher, no Centro Cultural São Paulo, com mais sete cantoras/compositoras – projeto do Batucantos, roda de samba criada por Carla Franco justamente para celebrar a composição feminina.
Samira sabe que chegou em um bom momento para mulheres que compõem. Ou ao menos em um momento melhor. “Sei que até um tempo atrás as mulheres eram mais relegadas ao papel de intérprete, mas, hoje, há mais espaço para quem, além de cantar, também compõe”.
Agora, Samira se prepara para lançar seu primeiro álbum completo – em março, vai colocar no ar um financiamento coletivo para realizar o projeto. “Estou viva”, nome do álbum e do show que ela já vem fazendo, é um disco de MPB com estilos que variam do forró ao samba, passando pelo blues e pela balada. “Nunca fui de um estilo só, e quero justamente poder circular nesses ritmos todos, em especial os da música brasileira, a melhor do mundo”.
O álbum é também a costura de todas as experiências vividas por ela na música – “e nesse processo de auto investigação, do mergulho que é buscar me encontrar a partir dessa nova experiência”, explica a compositora. “Já me perguntaram por que não lanço as músicas aos poucos, mas sinto que elas só fazem sentido juntas. Elas contam essa história”, diz Samira.
Viver da música é ainda um aprendizado. Para a filha de um engenheiro e uma enfermeira que fizeram carreira de décadas no mundo corporativo, é preciso se desconstruir do modelo profissional tradicional. Não haverá segunda a sexta, das 9h às 17h, mas sim a somas dos trabalhos realizados, sem dias ou horários lineares. Um desses trabalhos são as aulas de preparação vocal. “No começo eu achava que tinha que estudar mais para só então poder ensinar, mas descobri que adoro dar aula e hoje me sinto mais segura”. Em tempo: os pais apoiam a nova carreira e são seu público cativo, vão a todos os shows.
Raízes libanesas
Samira não vem de uma família de músicos, mas um de seus avôs cantava na igreja. Seus dois avôs, pais da mãe e do pai, vieram do Líbano, um do Norte, da região de Akkar, e outro do Sul, de Hasbaya. Crescer com os avôs comerciantes, com as casas em cima de seus comércios, um no interior do Paraná e outro no interior de São Paulo, a fez assimilar referências árabes por todos os lados.
Em 2023, a convite de uma tia materna que ia participar de um congresso médico no Líbano, ela fez uma viagem à terra dos avôs. E foi conhecer a casa onde cada um deles nasceu. “A casa do meu avô de Hasbaya era muito parecida com a do Brasil, não por fora, porque a do Líbano era de pedra e muito antiga, mas dentro: a decoração, a forma de organizar as coisas, a bandeja para servir o café. Detalhes que eu lembro muito bem da minha infância”, recorda a cantora.
Foram doze dias viajando pelo país, com mais tempo na capital. “É uma experiência estar no Oriente, é tudo muito diferente e, ao mesmo tempo, Beirute lembra São Paulo em muitos aspectos, há um caos familiar e há também a desigualdade”, conta. “Fora a comida, que não tem como não gostar, é sempre incrível. E muito, muito farta, como sempre foi também nos encontros da minha família”.
Vai lá:
Instagram: Samira Chamma – Coletivo Mulher
*Reportagem de Débora Rubin, em colaboração com a ANBA