Isaura Daniel
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São Paulo – O paranaense Edson Yabiku é um dos arquitetos que está levando adiante um projeto na cidade ecologicamente correta em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Yabiku trabalha para a Foster + Partners, uma das mais reconhecidas empresas de arquitetura do mundo. A companhia tem sede na Inglaterra e é responsável pela concepção geral da cidade de Masdar. A cidade foi projetada para ter emissão zero de carbono. Yabiku, descendente de japoneses e nascido em Maringá, é um dos arquitetos líderes do projeto da Masdar Institute of Science and Technology (MIST), universidade que ficará na cidade e será uma das primeiras construções no local.
Para fazer o projeto, Yabiku trabalha ao lado de uma equipe com cerca de 20 pessoas. Ele e o seu colega Ross Palmer lideram o projeto, supervisionados por Gerard Evenden, sócio da Foster + Partners. O desenho e o projeto da universidade como um todo ainda não foram concluídos, mas já estão definidas várias características que farão parte da instituição de ensino. Uma delas será o brise-soleil, ou quebra-sol, dispositivo externo usado na fachada de construções para impedir a entrada direta do sol.
O brise-soleil está presente, por exemplo, em um dos edifícios residenciais mais conhecidos do Brasil, o Copan, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. “O Copan é mundialmente famoso, é usado como um bom exemplo de como desenvolver um edifício para um país quente”, afirmou Yabiku, em entrevista por telefone à ANBA. Na universidade, o quebra sol vai ajudar a reduzir a necessidade de ar-condicionado, e conseqüentemente o gasto de energia, já que o dispositivo funciona como uma sombra nas janelas e ajuda a manter mais baixa a temperatura interna da construção.
A universidade também terá outras características que ajudarão a diminuir a necessidade de ar-condicionado, como a orientação do edifício, evitando a entrada do sol, as janelas em tamanho menor. As ruas estreitas permitirão um sombreamento natural do ambiente e também serão construídas de forma a direcionar o vento. Captá-lo nas alturas, trazê-lo para baixo e fazer com que passe, inclusive, por um dispositivo de umidade, o que faz com que a temperatura caia cerca de cinco graus. Esses elementos estarão presentes também no projeto geral da cidade de Masdar. Na universidade haverá ainda uso de água reciclável e posterior utilização dela na irrigação.
Edson entre os árabes
Esse não é o primeiro projeto do qual Edson Yabiku participa no mundo árabe. Ele já trabalhou, também pela Foster + Partners, em outros empreendimentos no Oriente Médio. Um deles foi The Index, um edifício com escritórios, residências e comércio, em Dubai, e outro o Abu Dhabi Central Market, uma interpretação moderna de um souk tradicional. Yabiku também trabalha atualmente no projeto de uma cidade moderna e economicamente avançada em Omã. Ela se chamará, em árabe, Al-Madina Al-Zarqa, e em inglês Blue City.
Antes de atuar na região, Yabiku nunca havia usado elementos da arquitetura árabe em seus projetos. Apesar disso, sempre foi um admirador das características arquitetônicas desenvolvidas pelos árabes. “A arquitetura e a arte islâmicas são muito bonitas”, afirma. O brasileiro explica que em função da religião islâmica, que não permite o uso de imagens, os árabes acabaram utilizando bastante, nas paredes, chão e teto, as texturas, as cores, a geometria. “Tive oportunidade de trabalhar em países que têm características muito fortes. Tanto o Japão quanto os Emirados têm uma cultura muito diferente da nossa. Aprendi muito trabalhando com profissionais desta área. O interessante é que a distância fez eu me sentir muito mais brasileiro do que antes”, diz.
Brasil, Japão e Londres
Edson Yabiku, hoje com 43 anos, se formou em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Paraná, em 1988. Um ano depois, buscando uma oportunidade de trabalho no Japão, país de origem de seus avós, foi chamado para uma vaga em uma construtora pequena, no país asiático. “Fiz vários testes pelos Ministérios de Educação, mas nunca conseguia porque não falava japonês”, lembra. Na construtora, Yabiku ficou um semestre no escritório, aprendendo o idioma japonês e desenvolvendo detalhes de construções. No outro semestre foi enviado para uma obra para ser a ponte entre o arquiteto responsável e os obreiros. "Não foi a experiência mais fácil da minha vida, mas devo muito a todos aqueles que me apoiaram na época”.
O trabalho bem feito, porém, acabou abrindo portas para o brasileiro, já que o arquiteto responsável pela obra atuava numa grande construtora japonesa, a Obayachi Corporation, e o acabou contratando. Quando a Foster + Partners começou a trabalhar em parceria com a Obayachi, Yabiku foi o responsável por traduzir as conversas entre os profissionais das duas empresas e acabou se tornando uma ponte entre elas. Até 1992, Yabiku ficou na Obayachi e depois foi convidado para trabalhar no escritório da Foster no Japão, onde ficou até 1997. Yabiku se mudou então para Londres e trabalha na companhia inglesa até hoje. No futuro, porém, quer voltar para o Brasil.

