São Paulo – Nas propriedades rurais do interior brasileiro, há muitos anos o esterco da bicharada do curral, do galinheiro e do chiqueiro é usado para adubar a lavoura. O material normalmente é colocado num grande buraco, para fermentar, e depois levado até a roça para ajudar o milho, a soja, o feijão a crescerem. Pois esse costume caseiro, nem sempre feito com grandes instruções, chamado pelos técnicos rurais de compostagem, está virando assunto muito sério no país. E começa a ganhar projetos industriais volumosos.
O Brasil já tem algumas fábricas de fertilizantes orgânicos – feitos com matéria-prima orgânica como esterco e cascas de árvores – e organominerais – com insumos orgânicos e mais minerais como fósforo ou potássio. Mas neste ano, após a agricultura brasileira tomar um susto com o tamanho dos preços e a escassez dos fertilizantes químicos, novos e grandes projetos de industrialização de adubos alternativos começaram a aparecer aqui e acolá, encabeçados pelos agricultores ou até empurrados pelo governo federal.
A Cooperativa Regional Agropecuária de Campos Novos (Copercampos), do estado de Santa Catarina, abriu em novembro as portas da sua fábrica de fertilizante organomineral. O BioCoper, como é chamado o adubo, entrou no mercado com pinta de salvação. Ele leva dejetos de aves, fósforo, nitrogênio e potássio. Não muito longe de Santa Catarina, no vizinho Paraná, outro projeto de produção de fertilizante organomineral se desenha, liderado pela Cooperativa Nacional Agroindustrial (Coonagro), uma cooperativa central integrada por outras 19 cooperativas agropecuárias do Oeste do estado.
A fábrica de Santa Catarina é uma iniciativa da Copercampos, mas o projeto da Coonagro surgiu a partir de conversas com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Além de garantir o abastecimento de fertilizantes no país, o governo quer dar um fim nobre para o esterco gerado da produção de aves, suínos e bovinos do país. Entre as preocupações estão possíveis pressões ambientais de mercados internacionais, como o europeu. O esterco, se jogado sobre a lavoura, sem compostagem, é fonte de poluição.
"Se o material fica no solo exposto, ele libera óxido nitroso, que é poluente e prejudica a camada de ozônio", explica o pesquisador da unidade de Solos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Vinicius Benites. O esterco de suínos, por exemplo, chega a dispersar a argila do solo, colaborando com a erosão, sem falar nos metais pesados que carrega e que podem ser levados, da lavoura para as águas próximas, com a chuva. A idéia é impedir que os dejetos sejam usados como adubos de maneira errada e sigam pelo caminho da compostagem e a industrialização.
"Se formos ver a quantidade de aves que há no Brasil e a quantidade de dejetos que elas geram por dia, e multiplicarmos um pelo outro, não precisaríamos de fertilizantes minerais", diz o coordenador do Plano Nacional de Fertilizantes, Ali Saab, do Mapa. O problema, segundo ele, é que esse material está espalhado Brasil afora e custa caro juntá-lo. Por isso mesmo, as fábricas de fertilizantes alternativos são indicadas para áreas onde há concentração de criações e também produção agrícola, onde o adubo possa ser usado.
Assim como colocou o seu dedo no projeto da Coonagro, o governo planeja andar por outras regiões, onde há grandes quantidades de criações, como o município de Rio Verde, no estado de Goiás, Uberlândia, em Minas Gerais, Nova Mutum e Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso. Saab acredita que é possível criar, no país, mais duas ou três fábricas, além das que já têm projeto em andamento, e produzir, num período de dez anos, algo em torno de três milhões de toneladas de fertilizantes organominerais com esterco. O volume representa 15% do total de adubos minerais usados.
"A Embrapa já entrou em campo e tem na ponta da língua a tecnologia necessária para quem quiser encabeçar um projeto semelhante. O coordenador da área, Benites, conta que o processo foi desenvolvido para uso de dejetos de suínos, mas que pode ser utilizado com outros estercos. Entre as fábricas que já estão em operação ou planos, a matéria-prima varia. A Copercampos vai produzir mil toneladas ao mês, com esterco de suínos – hoje produz com dejetos de aves. E a Coonagro pensa em fábrica de 100 mil a um milhão de toneladas ao ano, com os resíduos de aviários.

