Isaura Daniel, enviada especial
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Petrolina – Quando o jovem Crauzimiro José Barbosa, 23 anos, chegou em casa falando sobre novas técnicas para criar ovelhas, no final de 2005, o seu Antônio José Barbosa, 63 anos, pai do rapaz, estranhou. Morador do interior de Santa Filomena, município pernambucano, seu Antônio não colocou muita fé no discurso do filho, que falava em dar silagem e um tal de sal proteinado para os ovinos da propriedade. Mas deixou o rapaz levar as idéias adiante e no segundo semestre do ano passado, durante o período de seca na região onde eles moram, no semi-árido pernambucano, as ovelhas não perderam 40% do seu peso como em anos anteriores.
Crauzimiro faz parte de uma nova geração de produtores que está tentando melhorar a agricultura e a pecuária no semi-árido brasileiro. O que aconteceu com o rapaz entre 2005 e 2006 foi que ele participou de um programa do Ministério do Desenvolvimento Agrário e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) chamado Agentes de Desenvolvimento Sustentável. O projeto capacita produtores locais para difundir no seu próprio meio técnicas agrícolas que ajudam a melhorar o desempenho produtivo da região. Crauzimiro está aplicando os novos conhecimentos na propriedade da sua família, mas também os está repassando aos demais agricultores e pecuaristas da comunidade onde mora.
A silagem, por exemplo, Crauzimiro ajudou a fazer em outras propriedades da região. Ela foi confeccionada de forma conjunta por um grupo de vinte produtores. O pai de Crauzimiro, assim como os demais produtores mais velhos, vão acreditando nas novas técnicas na medida que vêem os resultados. "Meu pai sempre fez tudo como viu o meu avô fazendo, mas aos poucos vou fazendo demonstrações e o convencendo", diz Crauzimiro. O jovem acredita que o semi-árido pode produzir mais e melhor.
Por isso mesmo não se esquivou de ir para a escola, quando adolescente, mesmo tendo que ser transportado em paus de arara – caminhões que levam pessoas – e quer agora quer fazer uma faculdade. "Quero estudar algo ligado à agricultura e pecuária", diz. Crauzimiro acredita que as novas tecnologias poderão ajudá-lo a produzir mais e melhor e bancar o curso superior que pretende fazer.
Os agentes
O projeto dos agentes de desenvolvimento sustentável começou a ser traçado, no semi-árido, em 2004. A primeira turma foi formada no ano passado. De acordo com o coordenador do Território do Alto Sertão do Piauí e Pernambuco pelo Programa de Agroecologia Familiar (Proaf), Embrapa e Centre de Coopération Internationale em Recherche Agronomique pour le Développement de Montpellier (Cirad), Cândido Roberto de Araújo, até o final deste ano 93 produtores terão passado pelo treinamento.
A experiência dura sete meses e é oferecida a produtores dos municípios de Acauã, Paulistana e Jacobina, no Piauí, e Afrânio, Dormentes, Santa Filomena e Petrolina, em Pernambuco. São dois dias em treinamento na sede de um colégio cedido, a Escola Estadual Antonio Cavalcante Filho, de Afrânio, e quinze dias em casa. Na capacitação, técnicos e profissionais de institutos de educação e pesquisa e organizações da região, dão aulas sobre temas como cidadania, apicultura, ovinocultura, caprinocultura, manejo do solo, conservação de forragens. Os participantes também levam problemas das plantações e criações das suas comunidades para discutir possíveis soluções.
Espelhos
"Os agentes de desenvolvimento sustentável funcionam como um espelho para os demais produtores", diz o gerente da agência do Banco do Brasil de Afrânio, Pedro Gomes. O produtor Magerlândio Reis de Souza, 30 anos, morador do interior de Dormentes, é um exemplo de quem mudou o seu modo de lidar com a pecuária local após receber formação. Antes de concluir o treinamento, em junho do ano passado, Magerlândio, que cria 30 ovinos e duas vacas de leite na sua propriedade, não tinha idéia da raça que eram suas ovelhas. Depois da metade do ano passado, porém, introduziu ovinos das raças Santa Inês e Bergamasco no rebanho. "Comprei um bom reprodutor e troquei algumas matrizes", diz.
Souza conta que hoje administra sua propriedade com planejamento. "Eu não selecionava os animais, não fazia controle de sanidade. Agora estou investindo em genética. Quero melhorar o rebanho. Não tenho como aumentá-lo, então vou manter o mesmo número de animais, mas com maior qualidade", afirma. Antigamente o jovem produtor dava apenas capim buffel para os ovinos e bovinos. Agora faz forragem de maniçoba, planta nativa que não era utilizada pelos produtores, silagem com mandioca, além de outros complementos alimentares para dar aos animais durante a seca. Souza se empenhou tanto em aprender novas técnicas que foi contratado pela Cooperativa dos Profissionais em Atividades Gerais (Coopagel) para dar treinamento em um assentamento do Movimento dos Sem-Terra (MST).
Além de levar ao semi-árido tecnologias adequadas às condições de clima e solo da região, os agentes de desenvolvimento sustentável também têm como função instruir agricultores na formulação de projetos para o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). O governo dispõe de recursos para financiamento da agricultura de pequeno porte, mas para recebê-los os produtores precisam apresentar os seus projetos especificando de que forma utilizarão o recurso. "Ajudamos na elaboração dos Pronafs. Muitos agricultores, por falta de conhecimento, aplicavam o dinheiro da forma que entendiam, o que não desenvolvia a agricultura e ainda endividada os produtores", relata o jovem Crauzimiro. Os agentes trabalham para que os recursos do Pronaf sejam melhor aproveitados no semi-árido.
Os ADSs
Na zona rural de Petrolina e arredores não há quem não conheça os ADSs, que é como são chamados os agentes de desenvolvimento sustentável. A presença deles criou na região uma circulação de informações sobre o manejo da agricultura e da pecuária. "Tinha muita gente sofrendo porque não sabia como manejar as coisas. Agora tem muita troca. Um vê o outro fazer e vai fazendo também", diz o produtor José Leonardo de Macedo, 28 anos. Macedo não fez a capacitação, mas o seu irmão é um ADS e repassa os conhecimentos a ele.

