São Paulo – A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) defende o fortalecimento dos mercados internos e maior autonomia dos países na adoção de políticas comerciais e industriais como formas de obter um crescimento da economia global mais vigoroso e sustentável. As recomendações constam do Relatório de Comércio e Desenvolvimento 2014 (TDR, na sigla em inglês) divulgado nesta quarta-feira (10) pela agência da ONU.
A instituição projeta um crescimento mundial de 2,5% a 3% este ano e isso indica que o processo de recuperação pós-crise financeira internacional de 2008 continua fraco. Na avaliação da Unctad, as políticas adotadas em prol da retomada são “inadequadas” ou “inconsistentes”. De 2015 a 2019, é previsto um crescimento anual médio de 3,4%. “O retorno às políticas de sempre não foi capaz de lidar com as causas profundas da crise”, diz comunicado da agência.
Para a entidade, esta “nova normalidade” tem paralelos preocupantes com o cenário que desencadeou a crise de seis anos atrás, em especial “o aumento das desigualdades e as bolhas especulativas nos preços dos ativos”. As políticas das economias desenvolvidas, segundo o relatório, estão deprimindo a demanda doméstica ao insistirem na austeridade fiscal, contenção de salários e expansão monetária.
“Romper com um período prolongado de baixo crescimento econômico requer o fortalecimento da demanda agregada por meio de crescimento real dos salários e distribuição de renda mais igualitária, e não por meio de novas bolhas financeiras”, diz a nota da Unctad. “A continuidade do domínio financeiro sobre a economia real e a persistência do declínio da participação dos salários ão simbólicos da incapacidade de enfrentar as causas da crise e sua recuperação anômala”, acrescenta.
A instituição ressalta que a exemplo da economia global, “o comércio internacional continua débil”. Nesse sentido, a Unctad propõe a quebra de paradigma ao sugerir menos atenção às exportações e mais à demanda interna. “O crescimento lento [do comércio] é resultado da fraca demanda global. Portanto, os esforços para estimular as exportações por meio de reduções de salários e ‘desvalorização interna’ são autodestrutivos e contraproducentes, especialmente se vários parceiros comerciais seguirem esta estratégia simultaneamente. A expansão do comércio global será alcançada por meio de uma robusta recuperação da produção liderada pela demanda doméstica – e não o contrário”, destaca o texto.
A agência da ONU recomenda a adoção de medidas de incentivo à demanda interna, entre elas políticas de redistribuição de renda e aumento dos níveis de investimentos diretos públicos e privados.
Dentro deste raciocínio, a Unctad afirma que os países têm que ter maior autonomia para adotar políticas adequadas às suas realidades e que isso é essencial para a implementação de uma agenda de desenvolvimento pós-2015. Segundo a instituição, acordos multilaterais, regionais ou bilaterais “não deveriam incentivar ou pressionar os países em desenvolvimento a abandonar políticas de apoio ao desenvolvimento econômico”.
O estudo recomenda atenção de perda desta autonomia na negociação de acordos de comércio e investimentos. “A sabedoria convencional sugere que aceitar políticas e compromissos regulatórios mais estritos é necessário para atrair o investimento estrangeiro direto e permitir que as empresas de países em desenvolvimento se juntem às cadeias globais de valor”, lembra a Unctad, mas adverte: “Embora estes compromissos possam proporcionar benefícios comerciais e de emprego de curto prazo, no longo prazo eles podem aprisionar os produtores em enclaves de commodities ou nichos de produção industrial de baixo valor”.
Como exemplo, a organização cita a China. Apesar de integrarem com sucesso cadeias de valor do ramo de eletrônicos e de terem aumentado suas exportações nesta área, as empresas chinesas ficam com apenas 3% dos lucros mundiais do setor. “O risco de ficar preso em um nicho de baixo nível na cadeia de valor pode ser alto demais para que os países renunciem ao uso de instrumentos que se mostrem eficazes no apoio à industrialização”, diz o texto.
A instituição vai mais adiante e afirma que políticas industriais não precisam obrigatoriamente ser adotadas de forma horizontal, ou seja, de modo a beneficiar todos os setores, mas podem consistir em “medidas setoriais específicas”. Nesse sentido, a organização cita o modelo norte-americano como mais bem sucedido do que o Europeu. O governo brasileiro, por exemplo, tem sido alvo de críticas de economistas por focar iniciativas de incentivo à indústria e setores específicos, algo que não é totalmente condenável do ponto de vista da Unctad.
Adotadas estas e outras estratégias de forma generalizada pelos países, a organização estima que o crescimento médio da economia mundial poderia avançar para 4,7% ao ano de 2015 a 2019 e acelerar ainda mais no período de 2020 a 2024.


