Alexandre Rocha
São Paulo – Os 18 estudantes do Clube Científico da Arábia Saudita que estão no Brasil em viagem de intercâmbio voltam hoje (01) para casa. Na bagagem, além de uma nova imagem do Brasil, eles levam a vontade de receber estudantes brasileiros em seu país. "A viagem foi muito positiva", disse o diretor-executivo do Clube, Abdulhafeez Ameen.
Em seu relatório ao príncipe Abdulmajeed bin Abdul Aziz, governador da região de Meca e patrocinador do Clube, o professor Ameen vai incluir uma série sugestões para fomentar o intercâmbio entre os dois países, entre elas um convite para que estudantes brasileiros façam uma viagem de intercâmbio à Arábia Saudita. "Queremos formar uma ponte cultural entre a Arábia Saudita e o Brasil", declarou.
Para viabilizar a proposta ele já conversou com a diretoria da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), entidade que ajudou a organizar a visita dos universitários sauditas ao Brasil. "A proposta é muito interessante e tentaremos viabilizá-la", disse o presidente da CCAB, Antonio Sarkis Jr.
A idéia é promover uma viagem nos mesmos moldes: os melhores estudantes universitários do Brasil receberiam como prêmio a visita de intercâmbio à Arábia Saudita. Para tanto, a CCAB tentará buscar patrocínio junto a empresas, como ocorre com o Clube Científico, que recebe apoio financeiro de empresários sauditas.
"E eles (o Clube) se comprometeram a dar todo o apoio lá, como a CCAB deu suporte aqui", declarou Sarkis. Os brasileiros seriam recepcionados pelos próprios estudantes que visitaram o Brasil e deles receberiam explicações sobre as diversas regiões do país.
Mudança de imagem
No curto prazo, porém, o principal impacto da viagem dos universitários sauditas foi a mudança na maneira que eles vêem o Brasil. Antes eles imaginavam um país pobre e atrasado, mas se surpreenderam com o desenvolvimento econômico e tecnológico do país, com suas belezas naturais e com a amabilidade de seu povo.
"O Brasil está muito avançado, não consigo mais imaginá-lo como um país do terceiro mundo", disse o estudante de medicina da Universidade de Al-Qassem, Mohammed Al-Mutawaa, de 20 anos. "Gostei muito da miscigenação do povo. Aqui as diferentes raças convivem em harmonia e as pessoas recebem muito bem os turistas", disse o também estudante de medicina Saud Aldobyan, de 21 anos.
Essa receptividade do brasileiro ficou clara para os estudantes logo no início da viagem, quando eles visitaram organizações de origem árabe em São Paulo, como a Escola Islâmica Brasileira, a Mesquita Brasil, o Hospital do Coração e a própria CCAB. A comunidade de árabes e descendentes residente no Brasil é a maior fora do mundo árabe, estimada em cerca de 12 milhões de pessoas.
Também para Sarkis a mudança da imagem do Brasil foi o principal saldo da viagem. "Estes meninos serão futuramente os formadores de opinião na Arábia Saudita e se nós conseguirmos repetir viagens como esta, a imagem do Brasil começará a mudar no mundo árabe", declarou.
Mesmo sem vir ao Brasil, outras pessoas na Arábia Saudita poderão saber um pouco mais sobre o país. É que uma equipe de televisão acompanhou a visita dos estudantes com o objetivo de fazer um documentário que será exibido na televisão local.
Mas os universitários não só aprenderam, também ensinaram. Na terça-feira (30), por exemplo, eles fizeram uma apresentação sobre a Arábia Saudita, falando sobre economia, petróleo e religião, no Instituto Nacional de Tecnologia (INT), no Rio de Janeiro, órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia que promove o desenvolvimento de pesquisas nas áreas de química, tecnologia de materiais, engenharia industrial, energia e meio ambiente.
Futebol de areia
No Rio eles visitaram também a Fundação Oswaldo Cruz, centro de referência na pesquisa voltada para a área de saúde, e o Museu Histórico Nacional. Mas sobrou tempo também para conhecer as belezas da Cidade Maravilhosa. Ontem, por exemplo, eles estiveram no Pão de Açúcar e na terça-feira disputaram uma partida de futebol nas areias de Copacabana, jogo que, segundo Ameen, ganharam. "Achei o Rio o lugar mais lindo que nós visitamos", disse o jovem Mohammed Al-Mutawaa.
Mas ele gostou também de São Paulo, principalmente por causa das indústrias e centros de pesquisa que conheceram. Os universitários estiveram na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) da Universidade de São Paulo (USP); na Usina Costa Pinto de açúcar e álcool, em Piracicaba, que é a maior do país; no Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e em uma fazenda de café em Campinas; na fábrica da Embraer e no Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos; e nas TVs Globo e Bandeirantes.
A fábrica da Embraer foi um dos lugares que mais chamou a atenção dos estudantes. "Nós pudemos ver os aviões sendo fabricados", disse Saud Aldobyan. A companhia fechou em abril um contrato de US$ 400 milhões para a venda de 15 jatos Embraer 170 para a Saudi Arabian Airlines, configurados para 66 assentos. As aeronaves começarão a ser entregues no final do ano.
Homenagem na Câmara
A viagem dos universitários teve também uma parte política. Em Brasília eles foram recebidos, no Congresso Nacional, pelo presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), que inclusive fez uma saudação no plenário da Casa. "Esta casa se sente honrada em receber a visita dos melhores alunos da Arábia Saudita", disse Severino.
Ainda em Brasília, os estudantes estiveram no Ministério da Justiça; no Ministério das Relações Exteriores; no Instituto Rio Branco, que é a academia da diplomacia brasileira; no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT); na embaixada da Arábia Saudita; e na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Antes de chegar à capital federal, os sauditas estiveram em Foz do Iguaçu, no Paraná. As Cataratas do Iguaçu foram a atração turística que mais chamou a atenção dos estudantes. "Foi a coisa mais linda que eu já vi", disse Aldobyan. Em Foz eles visitaram também a hidrelétrica de Itaipu, ainda a maior do mundo.
Nos quase 20 dias de viagem, os universitários tiveram a oportunidade também de conhecer a Amazônia, onde fizeram passeios diurnos e noturnos pela mata e pelos rios. Viram jacarés, jibóias, pescaram piranhas e visitaram uma tribo indígena. "Foi uma experiência totalmente nova para eles", resumiu Ameen.

