Isaura Daniel
São Paulo – No Golfo Arábico, um grupo de seis países árabes registra um crescimento médio de 10% a 12% no varejo de moda. Emirados, Catar, Arábia Saudita, Kuwait, Omã e Bahrein, que juntos formam o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), consomem cada ano mais jóias, calçados, roupas, acessórios, cosméticos, e segundo o consultor de empresas Arvind Chaddha, que atua em Dubai, estão abertos a novos produtos e formatos, inclusive às franquias brasileiras. "Há oportunidades para empresas brasileiras no mercado de franquias do GCC", disse Chaddha ontem (08) durante seminário sobre abertura de franquias no mundo árabe, na Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em São Paulo.
Bons preços, bons produtos e lojas bem ambientadas são, segundo Chaddha, a fórmula para ter sucesso no varejo de moda no mundo árabe. Chaddha, que já assessorou grandes marcas mundiais na abertura de franquias no mundo árabe, afirma que uma das áreas, dentro do segmento de moda, onde há bastante espaço para novos projetos de franquias é o de calçados. "Existe uma lacuna neste mercado no GCC", afirmou. De acordo com ele, o varejo de calçados não está muito organizado: apesar dos diferentes tipos de públicos que há para os produtos, eles normalmente são vendidos nas mesmas lojas.
No seminário de ontem, do qual participaram empresários brasileiros e representantes de entidades setoriais, Chaddha falou sobre as características de mercado que vai encontrar quem quiser ingressar no varejo de moda do Conselho de Cooperação do Golfo. Chaddha, que é indiano, falou, por exemplo, sobre a diversidade de consumidores que há na região. Em países como os Emirados, a maior parte da população é formada por imigrantes. De acordo com Chaddha, grande parte vem do chamado subcontinente indiano, onde estão Índia e Paquistão, de outros países árabes e da Inglaterra. "O mercado reconhece o perfil multiétnico e atende todas as demandas de preço", disse.
Esse grupo de estrangeiros que vive nos Emirados não consome, porém, apenas produtos baratos. De acordo com Chaddha, se no passado essa mão-de-obra atuava apenas na construção civil e serviços, hoje ela está em outros segmentos profissionais, de maior exigência, e compra produtos de maior valor agregado. "Melhorou a qualidade dos imigrantes que vivem no país", disse. O consultor lembrou também que o turismo está crescendo na região e forma um público consumidor importante. "A população também está crescendo", afirmou. De acordo com Chaddha, o público jovem é um grande propulsor do varejo de moda nos seis países do GCC.
Concorrência
Apesar de atrativo, o varejo árabe também é bastante concorrido, segundo o consultor. O segmento de venda de roupas, segundo Chaddha, está muito bem desenvolvido e quase saturado. "Mas ainda há espaço para roupa jovem, casual", afirmou. Os chineses são alguns dos concorrentes com os quais os brasileiros interessados em abrir franquias na região vão se deparar. Mas, de acordo com o indiano, o consumidor do GCC identifica o produto chinês como barato e de baixa qualidade, o que dá vantagens ao Brasil. "Os chineses estão cientes da nossa percepção de qualidade e estão se esforçando para mudar essa imagem, mas isso não deve acontecer em breve. As empresas brasileiras já terão se instalado lá antes que isso ocorra", afirmou.
É preciso, recomenda o consultor, oferecer algo diferente para ingressar como franquia no Golfo em função da concorrência. Chaddha não chegou a afirmar que os Emirados são o melhor caminho para entrar no varejo do GCC, mas lembrou que o país é considerado um lançador de tendências na região.
Mark & Spencer
O consultor contou aos empresários o caso de duas marcas internacionais que atuam no segmento de moda e entraram no mercado do Golfo pelo sistema de franquias com sucesso. Uma delas é a Mark & Spencer, loja de departamento do Reino Unido que vende produtos como roupas e calçados, e ingressou na região em 1998. Chaddha relata que a empresa levou um ano desde a decisão de abrir franquia no mundo árabe até de fato inaugurar a loja. O processo de seleção do franqueado foi bastante rigoroso e a fidelidade ao formato da marca no Reino Unido priorizada.
A Mark & Spencer costuma nomear uma loja no seu país de origem para ser a "gêmea" da franquia. Os profissionais da nova unidade, inclusive, são treinados nesta loja do Reino Unido. O gerente da loja britânica acompanha a inauguração da franquia. Com isso, a unidade no novo país corre menos risco de sair do padrão. Também o sistema de informática é ligado ao país de origem e os diretores da franquia passam por workshops de quatro dias no Reino Unido.
Outro caso que teve sucesso foi o da Giordano, loja de departamento do setor de moda, mas originária de Hong Kong. A Giordano teve a preocupação de se expandir rapidamente na região. A empresa entrou no GCC na metade da década de 90 e em dez anos já estava com 80 lojas nos seis países do bloco. De acordo com Chaddha, o que determinou o sucesso do grupo foi ter o produto certo e a localização certa para as lojas. Diferente da Mark & Spencer, conhecida no mercado internacional, a Giordano entrou na região como uma anônima e mesmo assim conseguiu crescer. "Não existe uma fórmula padrão", afirma.
O país do shopping
As lideranças da Câmara Árabe também deram algumas dicas aos empresários interessados em abrir franquias no Conselho de Cooperação do Golfo. O presidente da entidade, Antonio Sarkis Jr., lembrou que Dubai, pólo comercial dos Emirados, por exemplo, tem planos de quadruplicar o número de shopping centers até o ano 2010. "As empresas brasileiras precisam estar atentas a estas oportunidades", afirmou.
O secretário-geral da Câmara Árabe, Michel Alaby, afirmou que o varejo do GCC movimenta US$ 65 bilhões ao ano. Segundo Alaby, as empresas da América do Sul ainda não exploraram o varejo da região. O GCC tem atualmente um serviço bancário de qualidade mundial e um sistema rodoviário bem organizado, entre outras características que são favoráveis para quem quer se instalar lá com franquias. Dubai deve ter em cinco anos cinco dos maiores centros comerciais do mundo, segundo Alaby. Um deles será o IBN Batuta Mall, que terá 1,5 milhão de metros quadrados.
O seminário fez parte de um projeto da Associação Brasileira de Franchising (ABF), Agência de Promoção de Exportações e Investimentos do Brasil (Apex) e Câmara Árabe de levar as franquias brasileiras, principalmente do setor de moda, para o mundo árabe.

