Agulhas, negócios e estilo

Alavanca do crescimento da ind√ļstria t√™xtil, a moda deve gerar neg√≥cios da ordem de R$ 136 bilh√Ķes no Brasil em 2011. Confira na primeira reportagem da s√©rie sobre o assunto.

Isabela Barros
isabela@anba.com.br

S√£o Paulo – H√° tempos sa√≠mos do b√°sico. E ganhamos mais cores, texturas, modelos, tecidos, estilos, neg√≥cios. √ďtimos neg√≥cios. Dono de um faturamento de US$ 52 bilh√Ķes em 2010, o setor t√™xtil e de confec√ß√£o cresceu no pa√≠s a ponto de reunir 30 mil empresas, exportar para mais de 140 pa√≠ses e gerar 1,7 milh√£o de empregos diretos. O que muitos n√£o se d√£o conta, no entanto, √© que por tr√°s desses n√ļmeros est√° uma poderosa alavanca de vendas chamada moda.

√Č a moda que faz com quem compremos mais roupas, que coloca a S√£o Paulo Fashion Week, a mais importante semana de desfiles do Brasil, nas rodas de conversas e leva o jeito brasileiro de vestir mundo afora. Para se ter uma ideia da dimens√£o desse mercado, estudo do IBOPE Intelig√™ncia, organiza√ß√£o do Grupo IBOPE, apontou que, em 2011, o varejo de moda deve movimentar R$ 136 bilh√Ķes do Oiapoque ao Chu√≠.

A cifra apontada pelo instituto inclui as vendas de artigos de vestu√°rio, cal√ßados e acess√≥rios. Segundo o estudo, apenas o com√©rcio de roupas para mulheres, homens e crian√ßas vai gerar neg√≥cios da ordem de R$ 95 bilh√Ķes esse ano, o que significa um consumo de R$ 492 por pessoa. O segmento de cal√ßados e acess√≥rios, por sua vez, movimentar√° R$ 40,6 bilh√Ķes em 2011, com consumo per capita de R$ 210. Somadas as duas categorias, o gasto individual vai para R$ 702.

"O brasileiro gosta de moda", afirma o diretor-superintendente da Associa√ß√£o Brasileira da Ind√ļstria T√™xtil e de Confec√ß√£o (Abit), Fernando Pimentel. "A ind√ļstria t√™xtil nacional seria muito menor se as roupas servissem apenas para proteger o homem das intemp√©ries da natureza", explica.

De acordo com Pimentel, √© a moda que faz com que tenhamos cada vez mais pesquisa, mais tecnologia para produzir, mais tecidos, mais materiais. Ou seja, √© a principal respons√°vel pela renova√ß√£o e crescimento do setor. E isso sem falar no impacto no varejo, nas cadeias de distribui√ß√£o. "Basta dizer que todas as grandes redes de lojas j√° convidaram estilistas famosos para assinar cole√ß√Ķes", diz. "Os consumidores est√£o cada vez mais antenados".

Hoje, o Brasil possui a quinta maior ind√ļstria t√™xtil do mundo, atr√°s da China, √ćndia, Paquist√£o e Estados Unidos. Para ajudar a alavancar ainda mais os neg√≥cios do setor, a Abit ap√≥ia mais de 40 eventos por ano no exterior e mais de 40 no Brasil.

O mundo como vitrine

O Sal√£o Moda Brasil √© um dos eventos realizados com o suporte da associa√ß√£o. Sua √ļltima edi√ß√£o ocorreu na capital paulista, entre os dias 19 e 21 de junho. Reunindo 320 fabricantes de tecidos, aviamentos, roupas femininas, masculinas, lingerie e moda praia, a feira recebeu lojistas daqui e de fora, com vendas em torno de R$ 280 milh√Ķes. Entre os estrangeiros, estiveram presentes, a convite da Abit, empres√°rios da Argentina, Estados Unidos, Paraguai e Peru.

Al√©m dessas na√ß√Ķes, os pa√≠ses √°rabes foram destacados, nos debates do Sal√£o, como clientes importantes da moda verde e amarela. "Os √°rabes valorizam a qualidade e a produ√ß√£o feita de forma sustent√°vel", explica Rafael Cervone Netto, diretor-executivo do programa TexBrasil, da associa√ß√£o, presente no evento. "N√£o se preocupam tanto com pre√ßo, s√£o √≥timos compradores", diz.

Segundo informa√ß√Ķes do Departamento de Neg√≥cios e Mercado da C√Ęmara de Com√©rcio √Ārabe Brasileira, as exporta√ß√Ķes brasileiras de artigos t√™xteis para os pa√≠ses √°rabes foram de US$ 26,4 milh√Ķes entre janeiro e maio desse ano. Um crescimento de 16,78% em rela√ß√£o ao mesmo per√≠odo de 2010. Os principais destinos foram Ar√°bia Saudita, Emirados √Ārabes Unidos, Marrocos, L√≠bano e Tun√≠sia.

Rumo ao futuro

Para continuar agradando gente do mundo todo, a moda nacional tem entre os seus maiores trunfos o talento dos profissionais do ramo. Coordenadora da Graduação e da Pós em Moda da Faculdade Santa Marcelina (FASM), em São Paulo, Raquel Valente Fulchiron explica que, na época da criação do curso, o primeiro do país na área, em 1987, havia pouca preocupação com a profissionalização de quem trabalhava com vestuário. "Era um trabalho mais voltado para a arte", lembra ela. "Hoje o foco está na criação, mas também no mercado", explica.

Ao todo, a FASM j√° formou mais de mil alunos apenas nessa carreira. Entre os mais famosos deles est√£o nomes como os estilistas Alexandre Herchcovitch e Adriana Barra. "Cerca de 80% dos nossos estudantes saem da faculdade empregados", diz Raquel.

O percentual de empreendedores, ou seja, de jovens que decidem começar com o negócio próprio, é da ordem de 30% entre os matriculados na instituição. "Os demais trabalham nas mais diversas áreas, inclusive com jóias, calçados, fotos e tudo o mais que estiver relacionado à moda", explica ela. "São novos talentos que ajudam a profissionalizar a moda, levando informação ao mercado", diz ela, animada com o futuro do mundo das linhas, agulhas e desfiles no Brasil.

Leia amanhã na segunda reportagem da série sobre a moda brasileira: Como empresas de diferentes segmentos investem em estilo. E ganham com isso.

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