As novas fronteiras cafeeiras

O caf√© j√° fez muitos caminhos Brasil afora desde que aportou no Par√°, no s√©culo 18. Hoje, regi√Ķes com pouca tradi√ß√£o no cultivo, como o Oeste da Bahia e Rond√īnia, avan√ßaram no ranking cafeeiro. Na Bahia se planta o caf√© irrigado. E Rond√īnia j√° √© o segundo maior produtor de caf√© conillon. A expans√£o do cultivo do fruto √© a segunda mat√©ria da s√©rie especial sobre o caf√©.

Débora Rubin
debora@anba.com.br

Cl√°udia Abreu, D√©bora Rubin e Geovana Pagel


S√£o Paulo – Os primeiros p√©s de caf√© do Brasil foram plantados no Estado do Par√°, nos idos de 1700. As condi√ß√Ķes clim√°ticas favor√°veis e a dimens√£o do pa√≠s, no entanto, contribu√≠ram para que o cultivo se espalhasse rapidamente. O caf√© chegou ao Rio de Janeiro, Esp√≠rito Santo, S√£o Paulo, Paran√° e Minas Gerais. Crises econ√īmicas, geadas e escassez de terra foram mudando o percurso da produ√ß√£o, indicando novos caminhos. O caf√© fez a curva. Em Minas, novas √°reas, al√©m das tradicionais ‚Äď Sul do estado e Zona da Mata ‚Äď, despontaram e hoje garantem a lideran√ßa do estado na produ√ß√£o nacional. Regi√Ķes com pouca tradi√ß√£o no cultivo, como o Oeste da Bahia e Rond√īnia, avan√ßaram no ranking cafeeiro.


Em Minas, as novas √°reas produtoras come√ßaram a ser exploradas em meados dos anos 80, segundo Rodrigo Pontes, agr√īnomo e coordenador da √°rea de caf√© da Federa√ß√£o da Agricultura e Pecu√°ria do Estado de Minas Gerais (Faemg). A primeira grande migra√ß√£o foi para o Cerrado mineiro. Os produtores vieram, principalmente, dos estados do Paran√° e S√£o Paulo. "Muitos tinham perdido as lavouras com geada. A essa situa√ß√£o somou-se a vontade do governo de Minas em ampliar o parque cafeeiro e foram concedidos incentivos a quem aceitou o desafio", explica.


A estrat√©gia deu certo. Atualmente o Cerrado responde por 18% da produ√ß√£o mineira ‚Äď cerca de 3,9 milh√Ķes de sacas por ano. As lavouras s√£o irrigadas e o caf√© do Cerrado √© definido como um produto diferenciado do produzido nas outras regi√Ķes do estado: tem um sabor achocolatado. 


A família Bovi é uma das representantes da safra de cafeicultores que desbravou o Cerrado. A primeira lavoura foi plantada em Marília, São Paulo. Com os custos de produção em alta e a invasão de outros cultivares, a família migrou para o Paraná. Era início dos anos 80. Em terras paranaenses, os Bovi formaram lavoura, viram a produção crescer. Até que chegou uma geada e dizimou a plantação. Muitos produtores desistiram. Os Bovi insistiram. "Meu pai foi procurar outra área", conta Hemerson Bovi, que faz parte da terceira geração da família.


Nas andan√ßas, os Bovi chegaram a Monte Carmelo, no Cerrado. Terra barata que precisava ser irrigada. Corria o ano de 1998, os Bovi arrega√ßaram as mangas e come√ßaram novamente a plantar. Atualmente s√£o 200 hectares. A produtividade m√©dia varia entre 40 e 50 sacas por hectare ‚Äď bem acima da m√©dia nacional de 17 sacas por hectare. Na √ļltima safra, a fam√≠lia colheu 7 mil sacas. Caf√© de bebida boa, o gr√£o produzido pelos Bovi j√° esteve por duas vezes entre os 10 melhores do estado, segundo uma avalia√ß√£o da empresa italiana Illy.


Café da chapada


A mais nova fronteira de Minas Gerais, explorada para o plantio de caf√©, √© a Chapada de Minas (Jequitinhonha), onde est√° a cidade de Capelinha, que concentra parte importante da produ√ß√£o local. Diferentemente do Cerrado, na regi√£o da Chapada s√£o os mineiros de outras partes do estado que trabalham com caf√©. "No Sul de Minas, h√° √°reas que sofrem com as baixas temperaturas, as terras tamb√©m custam mais. Ent√£o, muitos produtores compraram terras no Jequitinhonha nos √ļltimos anos", afirma Pontes. A regi√£o da Chapada j√° responde por 8,4% do caf√© produzido no estado e est√° em plena expans√£o. Os projetos incluem o treinamento e a capacita√ß√£o de produtores e m√£o-de-obra.


Tempero baiano


A irriga√ß√£o das lavouras tamb√©m √© o fator que est√° dando um tempero baiano √† produ√ß√£o de caf√© brasileira.  A Bahia j√° ocupa o quarto lugar no ranking nacional, com 5,4% do total ‚Äď desbancou o Paran√° em 2005, que produz 5,3% do caf√© brasileiro. A saga baiana teve in√≠cio no final da d√©cada de 80, resultado da iniciativa ousada do angolano Jo√£o Barata, que iniciou um projeto de plantar um milh√£o de p√©s de caf√© na regi√£o Oeste do estado. Na √©poca, muita gente duvidou. Insistente e com boas refer√™ncias desse tipo de plantio no seu pa√≠s, Barata fez in√ļmeros estudos de viabilidade e, em 1988, implantou os primeiros viveiros t√©cnicos sob irriga√ß√£o por aspers√£o fixa.


No come√ßo foram plantados apenas 20 hectares, sendo 18 da variedade Catua√≠ e dois hectares do Mundo Novo. Na primeira safra, em 1990, foram colhidas em m√©dia 41 sacas por hectare da variedade Catua√≠ e 29 sacas por hectare da variedade Mundo Novo. O Catua√≠ foi definido como melhor adaptado √†s condi√ß√Ķes locais.


Hoje a produtividade do caf√© irrigado no Oeste da Bahia gira em torno de 55 sacas por hectare. Na safra passada a produ√ß√£o de caf√© na regi√£o, totalmente irrigada, ocupou uma √°rea de 14 mil hectares, que deve ser mantida para a safra deste ano. No ano passado foram colhidas mais de 770 mil sacas no Oeste baiano (o estado todo colheu 2,3 milh√Ķes de sacas).


Para a próxima safra, a produção será menor, em torno de 471 mil sacas beneficiadas, média de 43 sacas por hectare. "Diversos fatores explicam a queda. A maioria das lavouras tem mais de seis safras, são mais velhas, o que acentua o efeito da bianualidade que ocorre nos cafeeiros", explica Sérgio Pitt, vice-presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes do Estado da Bahia (Aiba).


Segundo ele, também em decorrência da idade das lavouras, muitos produtores estão renovando seus cafezais com a poda. Assim, embora a área total se mantenha em torno dos 14 mil hectares, a área efetivamente em produção será reduzida para 11 mil. São técnicas de manejo necessárias e planejadas, para que a partir de 2008 os níveis de produtividade sejam recuperados.


O café irrigado da Bahia é exportado, principalmente, para os Estados Unidos, Canadá e países da Europa, como Espanha, Portugal, Bélgica, Suíça, Suécia e Itália.


Da borracha ao café


Em Rond√īnia s√£o os produtores de pequeno porte que sustentam a cafeicultura local.  O estado √© o segundo maior produtor de caf√© conillon, perde s√≥ para o Esp√≠rito Santo, onde a produ√ß√£o √© antiga – de 1800. No ranking nacional, Rond√īnia j√° ocupa o sexto lugar, respons√°vel por 3,2% do caf√© produzido no pa√≠s.


Segundo Websten Ces√°rio da Silva, agr√īnomo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu√°ria (Embrapa) de Rond√īnia, o processo de migra√ß√£o de cafeicultores √† regi√£o come√ßou nos anos 70 e √© semelhante ao que ocorreu em outras √°reas do pa√≠s. "Contabilizando sucessivas perdas no sudeste, os produtores vieram em busca de um eldorado para o cultivo. A maioria veio do Esp√≠rito Santo, Paran√° e Minas Gerais", afirma. Aportaram na regi√£o central de Rond√īnia, principalmente nos munic√≠pios de Cacoal e Ouro Preto d‚ÄôOeste, e come√ßaram a plantar, em geral, em √°reas de pastagem degradadas. Eles trouxeram conhecimento e consolidaram o plantio de caf√© na regi√£o. √ďrg√£os como a Embrapa tamb√©m passaram a pesquisar o solo local e desenvolver esp√©cies mais adaptadas √† regi√£o. O resultado apareceu: a safra de 2005, por exemplo, foi 1,7 milh√£o de sacas.


Silva, no entanto, diz que o crescimento da produ√ß√£o est√° amea√ßado por causa de entraves como o transporte. No ano passado, ano bom para o caf√©, a produ√ß√£o de Rond√īnia minguou para cerca de 1,4 milh√£o de sacas. "O caf√© tem ficado s√≥ no estado, pois boa parte das estradas para escoar a produ√ß√£o √© de terra", afirma. A cultura tamb√©m tem perdido espa√ßo para a pecu√°ria e para a soja.

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