São Paulo – O professor sênior e coordenador do Insper Agro Global, Marcos Sawaya Jank, afirmou nesta quarta-feira (11) que o fornecimento de fertilizantes poderá ser suspenso nos próximos meses se o conflito no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz se prolongarem. Jank participou do evento “Café da manhã com associados”, promovido pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira em sua sede, em São Paulo. O tema desta edição foi “Conflito no Oriente Médio: impactos no transporte marítimo e perspectivas”.
Do encontro participaram o embaixador do Brasil nos Emirados Árabes Unidos, Sidney Romeiro, o gerente de Planejamento Logístico do Porto de Santos, Ricardo Maeshiro, o vice-presidente da empresa de logística One, Gilberto Santos, o diretor do Al Tayeb, divisão de atacado do grupo de varejo dos Emirados Lulu, Riyad Jabbar, o gerente geral do grupo Al Tayeb, Manzoor JB, e o gerente de Operações do grupo Al Tayeb, Husain Lokhandwala. Estiveram presentes, também, representantes de 40 empresas associadas da Câmara Árabe, entre as quais tradings de alimentos, escritórios de advocacia e produtores de fertilizantes, entre outros.

Em sua apresentação, Jank lembrou que o Brasil é o maior produtor mundial de commodities e o maior importador mundial de fertilizantes. O País importa aproximadamente 85% do que consome em adubos, percentual que pode chegar a 90% no caso dos fertilizantes nitrogenados. “Desabastecimento de fertilizantes significa queda de produção”, afirmou, Jank, que definiu a situação como “delicada”. Os preços do insumo, porém, já subiram.
Os principais fornecedores de fertilizantes do Brasil são Rússia, Canadá, China, Marrocos e Arábia Saudita. Nem todos, contudo, vendem os mesmos produtos. Alguns enviam fertilizantes nitrogenados; outros comercializam fosfatados, por exemplo. A China também importa destes países para processá-los em seu território. Depois, revende ao Brasil.
“Fertilizante é muito sensível para o Brasil porque o Brasil importa 85%, então a situação é mais grave para o Brasil do que para qualquer outro país que tem produção agrícola”, disse Jank à ANBA após o evento. “No momento o que vimos é um aumento de preços, seja de petróleo seja de nitrogenados. Pode voltar atrás, mas, se tiver um problema de fechamentos de estreitos (como Ormuz) por mais de um mês, aí o que pode ter é um problema de abastecimento”, completou.
O Estreito de Ormuz é passagem de navios para acessar países que têm sua única saída para o mar no Golfo. É o caso de Catar, Kuwait, Bahrein e Iraque. Emirados Árabes Unidos têm a maior parte da sua costa – e alguns dos seus principais portos – após a passagem pelo Estreito de Ormuz. Israel e Estados Unidos atacam o Irã desde 28 de fevereiro. Além de retaliar esses ataques com o lançamento de mísseis aos seus vizinhos árabes, o Irã ameaçou afundar navios que passarem pelo Estreito de Ormuz. Por isso, o canal está fechado.
Por causa desta ameaça, os principais armadores globais interromperam as entregas nos portos que ficam na região. Vice-presidente de Operações da One, armadora de origem japonesa sediada em Singapura, Gilberto Santos reforçou no encontro que a empresa suspendeu entregas nos países do Golfo, a exemplo de seus concorrentes, e orientou seus clientes a não embarcar nada com destino à região nos próximos dias.
“Para cargas que estão nos navios temos duas opções: uma é descarregar em um porto seguro onde seja possível ser descarregado, em muitas situações distante do destino. A outra opção é que os clientes façam uma mudança de destino: levar para outro lugar que não seja os locais impactados ou optar pela volta da carga ao porto de origem”, disse. O setor está cobrando taxas de emergência para entregas no Golfo e no Mar Vermelho e, em alguns casos, taxas extras de combustível.
Desafios além dos fertilizantes
“Nossas recomendações são para que as cargas não sejam enviadas ao porto ou, se já estiverem no porto, que não sejam embarcadas”, disse Santos. “As medidas são duras, mas são para evitar impactos maiores para os próprios exportadores e importadores”, falou. A Arábia Saudita tem portos no Golfo afetados pelo Estreito de Ormuz, mas sua costa Ocidental no Mar Vermelho continua operando. Os portos, porém, estão congestionados.
O embaixador do Brasil em Abu Dhabi, Sidney Romero, apresentou as boas-vindas ao evento, lembrando que há muitas empresas grandes brasileiras presentes nos Emirados. Os executivos da rede Al Tayeb, por sua vez, manifestaram preocupação com as cargas, especialmente de proteína, com destino ao seu país.
O presidente da Câmara Árabe, William Adib Dib Junior, afirmou que a instituição conseguiu “dar uma resposta imediata e dinâmica” aos seus associados em um momento de dúvidas e incertezas. “Ficamos felizes em dar essa reposta imediata, especialmente porque trouxemos pessoas que são especialistas no setor. As empresas podem procurar a Câmara Árabe [caso precisem de informações]. E os palestrantes também se colocaram à disposição”, disse.
Também participaram o vice-presidente de Relações Internacionais e secretário-geral da Câmara Árabe, Mohamed Orra Mourad, a diretora Suzana Chohfi e o ex-presidente e integrante do Conselho de Orientação Fiscal da instituição, Rubens Hannun.


