Desenvolvimento do Vale do São Francisco é comparado ao da Califórnia

A segunda reportagem da s√©rie mostra como a fruticultura irrigada valorizou a regi√£o do Vale. As receitas com as vendas internas e externas de manga e uva transformaram as cidades de Petrolina e Juazeiro em verdadeiros centros econ√īmico-financeiros do Nordeste do Brasil. Um dos motivos: as frutas aumentaram a renda da popula√ß√£o em geral – dos produtores e dos trabalhadores rurais.

Cl√°udia Abreu
claudia@anba.com.br

Marco Bahé, enviado especial


Vale do S√£o Francisco –  A op√ß√£o pela fruticultura irrigada se mostrou uma excelente escolha para a regi√£o do Vale do S√£o Francisco. E n√£o s√≥ pelas receitas geradas aos produtores, mas tamb√©m pela gera√ß√£o de empregos. Estudos da extinta Superintend√™ncia de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e da Assessoria Legislativa da C√Ęmara Federal mostram que esta modalidade √© a que apresenta menor disp√™ndio por emprego gerado, se comparado com outros setores da economia.
 
Um hectare de terra irrigado no Vale do S√£o Francisco custa hoje, em m√©dia, US$ 10 mil para o Poder P√ļblico. Se o plantio for de uva, ser√£o necess√°rias cinco pessoas por hectare, o que d√° um custo de US$ 2 mil por emprego gerado. A ind√ļstria automobil√≠stica, por exemplo, consome no m√≠nimo US$ 47,4 mil por emprego gerado; a farmac√™utica, US$ 42,4 mil; a petroqu√≠mica, US$ 38,6 mil; e a siderurgia, pelo menos US$ 15,6 mil.
 
Al√©m da gera√ß√£o de emprego a um custo barato, a fruticultura irrigada apresenta conseq√ľ√™ncias positivas no aspecto social. Um dos mais √≥bvios deles √© a fixa√ß√£o do homem no campo. Estima-se que hajam 400 mil trabalhadores empregados na agricultura irrigada do Vale do S√£o Francisco. Em outra situa√ß√£o, esse contingente j√° teria migrado para as capitais nordestinas ou cidades do Sudeste brasileiro.
 
Uma massa assalariada t√£o grande gerou tamb√©m um sindicalismo bastante organizado. Atualmente existem na regi√£o 10 sindicatos com atua√ß√£o nos munic√≠pios envolvidos na agricultura irrigada. Unidos, eles conquistaram benef√≠cios sociais n√£o muito comuns no interior do Nordeste. ‚ÄúAqui, quase a totalidade dos trabalhadores regulares tem carteira assinada. O transporte √© gratuito e seguro, feito em √īnibus. Ningu√©m pode ser transportado na carroceria de caminh√Ķes. Nas fazendas, h√° vesti√°rio masculino e feminino e todos possuem equipamentos de prote√ß√£o individual‚ÄĚ, relata o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Petrolina, Manoel Moreira.


Agricultores
 
A pujan√ßa da fruticultura no Vale do S√£o Francisco tamb√©m fez nascer uma classe m√©dia rural significativa. C√°lculos produzidos pela Vale Export, cooperativa de produtores da regi√£o, d√£o conta que um pequeno agricultor, que explore 6 hectares de uva, pode chegar a um faturamento anual de R$ 300 mil. Estimando-se um rentabilidade de 30%, este agricultor teria uma renda mensal de R$ 8 mil, o que √© bem significativo para a regi√£o.
 
Tal classe média acaba por impor uma demanda por produtos e serviços mais qualificados. Os efeitos disso são vistos a olhos nus no centro financeiro do Vale: as cidades irmãs de Petrolina e Juazeiro. A primeira localizada em Pernambuco e a segunda, na Bahia, são separadas apenas pelo Rio São Francisco, obstáculo que uma ponte já resolveu há 50 anos.
 
Um dos setores mais aquecidos no local √© o da constru√ß√£o civil. Edif√≠cios luxuosos come√ßam a ser erguidos na orla fluvial petrolinense, uma esp√©cie de avenida Copacabana sertaneja. Um deles, o Morada do Rio, possui apartamentos de 250 metros quadrados e elevador panor√Ęmico. ‚ÄúTemos mais facilidade em comercializar unidades com padr√£o A ou B. O p√ļblico alvo s√£o agricultores, funcion√°rios p√ļblicos graduados e a classe m√©dica‚ÄĚ, detalha Aud√≠sio Ven√Ęncio, diretor da Construtora Ven√Ęncio, uma das cinco maiores do Vale.
 
O depoimento do construtor revela um outro segmento em franca expans√£o no Vale. Petrolina e Juazeiro t√™m se configurado num significativo p√≥lo m√©dico interiorano, com cl√≠nicas especializadas e hospitais se multiplicando a cada ano. Servi√ßos como tomografia computadorizada ou interven√ß√Ķes complexas como transplante de √≥rg√£os s√£o realidade naquela parte do sert√£o. Medicina ser√° uma das gradua√ß√Ķes da Universidade Federal do S√£o Francisco, institui√ß√£o j√° oficializada em Di√°rio Oficial e cujas instala√ß√Ķes f√≠sicas est√£o em constru√ß√£o.
 
Califórnia


O prefeito de Petrolina, Fernando Bezerra Coelho, compara a experi√™ncia do Vale do S√£o Francisco com o que ocorreu na Calif√≥rnia, nos Estados Unidos. ‚ÄúCom o fim do ciclo do ouro, na d√©cada de 30, a Calif√≥rnia se tornou a unidade mais pobre da federa√ß√£o norte-americana. Fez-se, ent√£o, um investimento fort√≠ssimo em irriga√ß√£o. Logo depois, vieram as universidades e, com elas, a tecnologia. Hoje, a Calif√≥rnia figura entre os mais ricos estados americanos‚ÄĚ, diz o prefeito.
 
Apesar dos evidentes benef√≠cios, o Brasil ainda investe timidamente em agricultura irrigada. No pa√≠s, h√° 2,9 milh√Ķes de hectares irrigados, o que corresponde a 6,4% da superf√≠cie total cultivada de 45 milh√Ķes de hectares. Estima-se que o potencial irrig√°vel ultrapasse os 30 milh√Ķes de hectares, o que poderia duplicar a produ√ß√£o agr√≠cola nacional.
 
Segundo o International Management Institute, √≥rg√£o que assessora a FAO, pa√≠ses como o M√©xico j√° est√£o em situa√ß√£o muito mais avan√ßada do que a nossa no que diz respeito ao aproveitamento de solo irrig√°vel. L√°, um projeto de irriga√ß√£o p√ļblico elevou de 200 mil hectares para 8,3 milh√Ķes de hectares a √°rea irrigada. Isto em pouco mais de 50 anos.
 
Os dois pa√≠ses mais populosos do planeta na atualidade, a China e a √ćndia, investem maci√ßamente em irriga√ß√£o por causa de sua capacidade inigual√°vel de cria√ß√£o de empregos no campo, motivo pelo qual conseguem manter mais de 80% de sua popula√ß√£o fora das √°reas urbanas. A China possui a maior √°rea irrigada do mundo, com 50 milh√Ķes de hectares, e lan√ßou um programa ambicioso que pretende irrigar 1 milh√£o de hectares por ano.

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