São Paulo – Em uma noite, um habitante do Cairo recebe um chamado pedindo que parta em direção ao poente. Enquanto a voz ecoa, Ahmad Ibn-Abdallah vai deixando para trás as pessoas queridas e tudo o que construiu. Começa ali uma jornada de autoconhecimento ao cruzar o deserto em caravana, descobrir o amor num oásis fora dos mapas, entre outros acontecimentos registrados pelo secretário do sultão do Egito.
Esse é a trama principal do romance O Chamado do Poente, do escritor egípcio Gamal Ghitany, que foi lançado no Brasil pela editora Estação Liberdade, de São Paulo, em maio. Ghitany é considerado o sábio das letras árabes, mas é pouco conhecido entre os leitores brasileiros e essa foi a primeira obra sua publicada no País. Nascido em 1945 de uma família pobre, ele publicou seu primeiro livro de contos aos 14 anos, estudou artes e trabalhou como jornalista. A tradução do livro, do árabe para o português, foi feito pela tradutora e estudiosa do idioma árabe, Safa Jubran.
Desde maio foram vendidos 300 exemplares, de acordo com o diretor editorial da Estação Liberdade, Angel Bojadsen. “Vendemos relativamente pouco”, afirma Bojadsen, relatando a dificuldade em divulgar literaturas não ocidentais no Brasil. A escolha pela obra foi do diretor editorial, que se deparou com as edições francesas de Ghitany publicada pela editora Seuil, detentora dos direitos mundiais das suas obras, exceto para a língua árabe.
“Achei a abordagem interessante, a escrita muito boa, e o enredo inovador, com essa mescla de tradições do mundo islâmico enquanto metáfora do mundo árabe contemporâneo. Foi a maneira que Ghitany encontrou de contornar as limitações políticas no Egito. Ele foi duramente reprimido nos anos 70. Esteve ao sabor das aberturas e fechamentos do regime”, afirma Bojadsen. Segundo o diretor, apesar de ser um dos escritores mais em voga no Egito atualmente, ele não é muito publicado no exterior. “Sua obra é vasta, bastante exigente”, diz.
Gamal Ghitany já publicou cerca de 20 livros, principalmente no Egito, Líbano, Síria e França. Entre os mais conhecidos está Zayni Barakat, cuja primeira edição é de 1971 e foi publicada na Síria pelo Ministério da Cultura local. “Só dez anos depois foi publicado no Cairo”, conta Bojadsen. Outras obras consagradas do autor são O Livro das Iluminações, de 900 páginas, publicada no Egito em 1990 pela editora Dar El Shorouq, e Poeiras do Esquecimento, da mesma editora, lançado em 2005.
No enredo do livro que foi publicado em português, ao fazer o caminho do chamado, Ahmad Ibn-Abdallah, vai sem bagagem, mas adquire no caminho três pertences: uma caneca, um pequeno odre de couro e três livros, um deles com as páginas em branco. A Estação Liberdade descreve assim a obra em seu site: “Viagem rumo ao desconhecido que alia mistério a erotismo, seriedade a humor e a tradição narrativa das Mil e uma Noites ao multifacetado romance contemporâneo, o conto maravilhoso do escritor egípcio Gamal Ghitany é, ao mesmo tempo, uma sátira aos regimes políticos do mundo árabe, uma meditação sobre a vida humana e um hino à beleza do mundo”.
Serviço
O Chamado do Poente
Gamal Ghitany
Tradução do árabe de Safa Jubran
368 páginas
Editora Estação Liberdade
R$ 56,00


