São Paulo – Desde os 20 anos a vida da carioca Daniela Chindler está ligada às bibliotecas. Ela cursava Direito quando largou o curso para estudar Letras e ser professora de biblioteca em uma pequena escola. “A biblioteca ficava na garagem da casa que tinha sido alugada para ser escola. Na época eu não tinha a menor ideia de que livros eram bons para as diversas faixas etárias das crianças que vinham ouvir as histórias, inclusive as de dois e três anos”, conta. Em seguida, ela decidiu montar uma biblioteca em uma comunidade. “Aos 22 anos estava à frente de um projeto voluntário na comunidade do Vidigal; durou cinco anos, recebemos mais de 200 crianças e criamos um espaço com soluções muito simples e baratas para expor os livros”.

Daí para cursar Letras e escrever seus próprios livros foi uma trajetória natural. Em 2012, ela lançou o livro “Bibliotecas do Mundo”, que ganhou o Prêmio Malba Tahan, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), e virou peça de teatro, produzida pela Sapoti, empresa criada por Daniela no início dos anos 2000. Volta e meia a peça volta a ser encenada, em especial em espaços como escolas da rede pública do Rio. Daniela está buscando uma nova casa para a obra, que será reeditada e atualizada.
No final deste mês, sábado dia 28, ela relança “Onde moram os livros? Bibliotecas do Brasil”, na Livraria Janela, em Laranjeiras, Rio. Lançado originalmente em 2017, ele volta em uma nova versão, com a participação de seis ilustradores (sendo cinco mulheres), e atualizado. “Fiz uma revisão histórica com um olhar decolonial e incluímos nesta versão uma biblioteca que ainda nem existe, a Biblioteca dos Saberes”. Ela será construída na região onde funciona o Terreirão do Samba, perto do monumento a Zumbi dos Palmares e integrado às iniciativas da região da Pequena África, no Rio. O projeto é de Diébédo Francis Kéré, arquiteto de Burkina Faso, único africano a ser premiado no Pritzker.
Quando lançado em 2017, o livro foi distribuído gratuitamente para 2.500 alunos da rede pública municipal da capital fluminense. O texto, assim como o das bibliotecas do mundo, foi adaptado para teatro numa peça apresentada em três estados: Rio de Janeiro, Maranhão e Pará. Entre as bibliotecas brasileiras citadas na obra estão a Mário de Andrade, em São Paulo, e, claro, a portentosa Biblioteca Nacional, no Rio – onde o livro foi lançado.
Egito e Iraque
Se no “Bibliotecas do Brasil” há uma que ainda nem existe, em “Bibliotecas do Mundo” há uma que não existe mais. Daniela escolheu sete bibliotecas mundiais para falar em seu livro, entre elas a histórica de Alexandria. “Eu faço muita pesquisa para escrever meus livros, e para este eu fui a fundo. Sobre Alexandria, estudei bastante para trazer algumas (bibliotecas) históricas que não eram muito conhecidas”, conta a autora.
Essa história me interessou menos pela arquitetura do local e a história em si, mas pelo fato de os livros terem sido salvos por uma mulher, Alia Muhammad.
Daniela Chindler
“A Biblioteca de Alexandria, durante séculos, foi o centro cultural do mundo. Reuniu sábios de vários cantos. Nela estavam as estantes de papiros e os primeiros códices”, conta ela. Destruída no século VII D.C., ela guardava um milhão de rolos de papiros.
Já do Iraque ela traz a história da Biblioteca de Basra, destruída durante a guerra de 2003. “Essa história me interessou menos pela arquitetura do local e a história em si, mas pelo fato de os livros terem sido salvos por uma mulher, Alia Muhammad, que salvou 30 mil livros”, diz Daniela. Depois da guerra, a biblioteca foi reconstruída e os livros abrigados pela funcionária em tempos de conflito voltaram a ter uma casa.
Projetos culturais
Daniela gosta de grandes empreitadas, e não só das que se escreve e publica (aliás, são mais de dez livros publicados). Na Sapoti ela também idealiza visitas a museus e espaços culturais, sempre de uma forma divertida e interativa. A curadoria e o roteiro das visitas guiadas, que ela chama de “visitas teatralizadas”, pelo Petit Trianon, sede da Academia Brasileira de Letras, foi o primeiro projeto de pesquisa histórica e ficou em cartaz por 15 anos. “O projeto foi elaborado para as comemorações do centenário da ABL (1997) e quem me chamou foi a escritora Nélida Pinõn, que era presidente da Casa, a primeira mulher a ocupar o cargo”, recorda.
Neste ano, ela dá sequência a uma visita teatralizada pelo icônico Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na qual os atores recontam a história do Rio de Janeiro do início do século XX (o teatro foi inaugurado em 1909); e a projetos dentro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Daniela também já esteve à frente de dezenas de projetos de incentivo à leitura, entre eles o “Histórias além muros”, para mulheres em privação de liberdade, que existe desde agosto de 2021 (projeto elaborado com subsídios da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet).
Para quem começou em uma pequena garagem e já levou a leitura até para dentro de presídios, o que não falta é história para contar.
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Reportagem de Débora Rubin, em colaboração com a ANBA


