Alexandre Rocha
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São Paulo – É surpreendente! Esta foi a expressão utilizada por vários integrantes da missão empresarial brasileira que passou pelo Marrocos, Tunísia e Egito, entre o final de maio e o início de junho, organizada pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira e pela Agência de Promoção das Exportações e Investimentos do Brasil (Apex). E a surpresa foi positiva, tanto do ponto de vista cultural, como de mercado.
A delegação chegou na noite do dia 27 de maio em Casablanca, maior cidade e centro econômico do Marrocos. Depois do check-in no hotel e de um encontro com o embaixador brasileiro, Carlos Alberto Simas Magalhães, saímos em busca de um local para jantar. A primeira coisa a ser desmistificada foi a barreira da língua. No Marrocos fala-se o francês e o árabe, muita gente fala espanhol e a forte vocação turística do país obriga tantos outros a falar inglês. Não foi difícil pedir orientações sobre algum restaurante ainda aberto.
Encontramos o Chez Brochette. O dono do lugar nos recebeu com um largo sorriso, nos arrumou uma grande mesa e explicou os pratos, mostrando de cara um traço comum aos árabes: a hospitalidade. A comida marroquina é diferente da comida árabe que estamos acostumados no Brasil, de origem sírio-libanesa, mas também não é tão exótica. Pedimos um mix de itens do cardápio: espetinhos de carne, frango, carneiro, kaftas, salada de tomates e pepinos, molho de pimenta e um pão redondo, fofinho e feito na hora.
Para beber, refrigerantes. “Pas d’alcool” (Não temos bebidas alcoólicas), informou o proprietário. O Marrocos – como a Tunísia e o Egito – é um país muçulmano, então não são todos os lugares que servem álcool. Mas o consumo não é proibido, aliás, o país produz bons vinhos.
Na outro dia pela manhã partimos para a Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Casablanca, onde foi realizado um seminário e a primeira rodada de negócios da missão. Com a casa cheia, os primeiros contatos comerciais foram realizados. Mais tarde, a Câmara Árabe ofereceu um almoço aos empresários da missão e aos diretores da Câmara de Casablanca, num belo restaurante a beira-mar.
O Atlântico, agitado naquele ponto, faz do Marrocos um conhecido “pico” de surfe, como se diz no jargão dos surfistas. Embora ainda não fosse alta temporada, tinha gente na praia tomando aulas do esporte e se lançando ao mar com vestes de neoprene, dando uma idéia da fria temperatura da água.
Num país famoso por sua produção pesqueira, nada melhor do que comer frutos do mar frescos. Depois partimos para conhecer o varejo local. Nas prateleiras uma outra surpresa, que iria se repetir nos outros dois países visitados: a variedade de produtos oferecidos, maior até do que nas gôndolas das grandes redes de varejo do Brasil.
No segundo dia no Marrocos, enquanto os empresários participavam de rodadas de negócios, o vice-presidente de marketing da Câmara Árabe, Rubens Hannun, e eu fomos para Rabat, capital do país, para um encontro com diretores da Maghreb Árabe Presse (MAP), agência de notícias parceira da ANBA. Rabat é uma cidade antiga, com vestígios que datam da época do Império Romano. Bastante arborizada, é bem mais limpa e tranqüila do que Casablanca.
No trajeto de cerca de 1h30, por uma autopista bem asfaltada e sinalizada, perguntei ao nosso motorista, El Hazzaz Taoufik, por que os outdoors nas ruas eram escritos ou somente em francês, ou somente em árabe, e não nos dois idiomas. Ele disse que parte das gerações mais novas do Marrocos têm se alfabetizado só em francês, fato que foi confirmado mais tarde pelo diretor de relações internacionais da MAP, Rachid Tijani.
Motoristas e taxistas em geral são preciosas fontes de informação quando se está numa cidade ou país desconhecido, e Taoufik sabia muita coisa sobre seu país. Isto se repetiria com Rabii, nosso motorista em Túnis, e com Salam, um taxista que levou eu e outros integrantes do grupo para cima e para baixo no Cairo.
Na visita à MAP mais um traço da hospitalidade árabe. Tijani e seus colegas nos ofereceram doces, chá, café, água e suco. Este costume se repetiria várias vezes durante a viagem. Nos convidaram também para almoçar e, no mundo árabe, quando se conversa generalidades, o futebol é um dos assuntos prediletos. O amor pelo esporte é um dos fatores que fazem com que muitos árabes nutram simpatia pelo Brasil.
No último dia no Marrocos, eu e alguns membros da delegação ainda tivemos tempo de fazer uma rápida visita à Mesquita Hassan II, monumento religioso de proporções colossais construído pelo rei Hassan II, que morreu em 1999 e foi sucedido por seu filho, Mohamed VI. Inaugurada em 1994, a obra, de arquitetura árabe-muçulmana, tem capacidade para receber 25 mil pessoas e um minarete de 200 metros de altura. Sua construção custou US$ 800 milhões e nela trabalharam 2,5 mil operários e 10 mil artesãos.
Onde o Ocidente encontra o Oriente
O Marrocos e a Tunísia são países onde o Oriente encontra o Ocidente, então há um mix de culturas. Isto está presente na maneira de falar, o árabe entremeado com palavras em francês, e na maneira de se vestir, pessoas com a tradicional djellaba, um camisolão com capuz, andando ao lado de gente vestida de modo ocidental, mulheres com os cabelos ou até o rosto coberto ao lado de outras trajando calça jeans e camiseta.
A Tunísia é provavelmente o mais ocidentalizado dos três países visitados. Menor dos três destinos da missão, ela surpreendeu os empresários pelo potencial do mercado e as rodadas de negócios foram bastante concorridas. Hannun e eu tivemos vários compromissos no primeiro dia, que terminaram com um encontro com Taher Ghalia, curador do Museu Nacional do Bardo, onde estão expostos artefatos da antiguidade, especialmente romanos.
À noite o grupo todo se reuniu na casa da embaixadora brasileira, Marília Sardemberg, para uma confraternização. A residência fica em Sidi Bou Saïd, bairro antigo e conhecido como reduto de artistas. Pelas ruas sinuosas se acumulam casas pintadas de branco e azul. Do local, que fica no alto se uma falésia, há uma bela vista da Baía de Túnis.
Na volta perdi a condução ao hotel e peguei um táxi, cujo motorista logo começou a fazer perguntas sobre o Brasil. O futebol, claro, foi um dos principais assuntos, e ele ficou especialmente surpreso quando lhe contei que o Romário ainda está na ativa e que tinha acabado de marcar seu milésimo gol.
No segundo dia fomos a Sousse, cidade litorânea de forte vocação turística e industrial. Após um seminário e rodadas de negócios na Câmara de Comércio e Indústria do Centro, almoçamos num restaurante próximo à marina local. As praias já tinham um movimento razoável. No almoço provamos algumas iguarias locais, como o brik, pastel recheado com queijo, ovos e outros ingredientes.
De volta a Túnis fomos visitar o varejo. A loja escolhida foi um Carrefour. Era sexta-feira, dia de orações para os muçulmanos, e um funcionário deixava apenas estrangeiros entrarem na seção de bebidas alcoólicas. Fui barrado. De barba, cabelos e olhos escuros, passei por local. Mas após perceber meu francês com sotaque paulista ele me deixou entrar. Comprei duas meias garrafas de vinhos tunisianos, muito bons por sinal.
No nosso último dia em Túnis, parte do grupo aproveitou para fazer uma visita relâmpago às ruínas de Cartago. Uma olhadela nos artefatos e ruínas romanas e da época das Guerras Púnicas, para constatar que a vontade do senador romano Catão foi exercida sobre a cidade-estado de Aníbal: “Delenda est Cartago!” (É preciso destruir Cartago). Pena que estivesse chovendo, e olha que o Deserto do Saara está logo ali.
Costumes locais
A próxima parada foi no Cairo, metrópole gigante, onde desembarcamos em um terminal totalmente novo no Aeroporto. No trajeto até o hotel a delegação pode observar uma característica marcante da cidade: o trânsito caótico. Os cairenses, no entanto, estão acostumados, e buzinar para alertar os outros motoristas da sua presença é uma mania local. No hotel, na mesma noite, ainda foi possível desfrutar de uma outra mania do país: fumar uma shisha, como eles chamam por lá o narguilé.
No Cairo seguimos um esquema semelhante ao das outras escalas, com seminário, rodadas de negócios e visitas a empresas. Hoje é mais fácil encontrar produtos brasileiros nas prateleiras egípcias do que há dois anos, quando estive lá pela primeira vez. Na noite do primeiro dia, a maior parte do grupo foi às Pirâmides de Giza para ver o show de luz e som. Muito bonito, pena que a narração naquele dia fosse em alemão. Antes fosse em árabe, por que ninguém entendeu nada.
Mais tarde eu e mais três integrantes da delegação fomos jantar no Felfela, restaurante de comida típica egípcia localizado na Rua Talat Haarb, no centro da cidade. Pedimos faláfel com molho de tahine, especialidade local, babaganuche, homus, salada e arroz com carne. Voltamos a pé para o hotel, só para observar mais um costume local. A cidade não dorme, é possível encontrar bastante gente andando nas ruas até bem tarde. As lojas só fecham lá para a meia noite. O medo e a incidência de assaltos são pequenos.
Na noite seguinte, após as rodadas de negócios e uma coletiva de imprensa, fomos a um coquetel na bela casa do embaixador brasileiro, Elim Dutra, e depois ao Khan El Khalili, tradicional mercado do Cairo. Nada de comprar pelo preço anunciado inicialmente, é preciso pechinchar.
Entre pessoas simples do Cairo, como vendedores ambulantes e taxistas, se descobre uma outra característica dos egípcios, que é a facilidade de comunicação. Muita gente fala inglês e outras línguas. Conheci um garoto, que tinha no máximo 10 anos e vendia cartões postais, que falava árabe, inglês, italiano, espanhol, alguma coisa de francês e ainda me disse umas palavras em português.
Tanto no Egito, como na Tunísia e no Marrocos, o povo ouve muita música, seja nos restaurantes, cafés, no táxi, no supermercado. Geralmente música árabe. Fazem sucesso jovens cantoras e cantores que mesclam elementos folclóricos com ritmos pop. Toca muita música brasileira também, desde Tom Jobim, passando por Gilberto Gil e até a o Carrapicho: "Bate forte o tambor, eu quero é tic, tic, tic, tic, tac", cantava um trio no bar de nosso hotel no Cairo.
A presença brasileira pode ser vista também de outras maneiras, como na propaganda de uma churrascaria em nosso hotel no Marrocos, no anúncio de café no Aeroporto de Túnis, nas duas filiais do restaurante paulista Mori Sushi no Cairo e até numa velha Brasília que passou rodando na nossa frente nas ruas da capital egípcia.
Viajar por Marrocos, Tunísia e Egito serve também para desmistificar um pouco a questão do papel da mulher no mundo árabe. Nos três países muitas mulheres trabalham e ocupam cargos importantes nos setores público e privado.
Uma outra característica comum aos três países é a quantidade de obras em andamento, especialmente voltadas para o turismo. São hotéis, resorts, residências de veraneio e empreendimentos de lazer.

