São Paulo – A instabilidade nos Estados Unidos poderá gerar impactos para as economias brasileira e global neste ano, afirmou, em palestra na Câmara de Comércio Árabe Brasileira, o pesquisador macroeconômico do BTG Pactual, Samuel Pessôa. A palestra “Economia brasileira nos últimos 120 anos e nos próximos cinco anos” abriu a temporada do ciclo de palestras CCAB Conecta com perspectivas para o desempenho econômico global.
Pessôa, também pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), avaliou em sua apresentação desafios estruturais para o crescimento da economia brasileira, o cenário eleitoral deste ano no Brasil e como os desdobramentos políticos e econômicos dos Estados Unidos podem repercutir positiva ou negativamente na economia. Em 2025, avaliou, observou-se uma percepção no mercado norte-americano de que as medidas políticas e econômicas do presidente Donald Trump criaram instabilidade institucional, porém, e ao mesmo tempo, confiança no setor privado norte-americano.

“A minha avaliação é que a desvalorização da moeda norte-americana está associada à piora institucional que ocorre naquela economia. Tem um presidente que tenta usurpar prerrogativas de outros poderes, ataca a independência do Banco Central, na defesa interna está gerando problemas, e isso é sinal de piora institucional. Então, tem desvalorização da moeda norte-americana, mas a bolsa [de valores] está super bem. As pessoas continuam a confiar na saúde, na sofisticação, na flexibilidade e na capacidade de resposta do setor privado americano”, disse. Um dos efeitos dessa queda do dólar sobre as demais economias é uma onda desinflacionária global, segundo Pessôa.
O pesquisador avaliou que tal desempenho da economia e tais medidas econômicas influenciaram também a economia brasileira, que, por sua vez, terá desafios para crescer a partir deste ano. A expansão do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 3,4% em 2024 e, estima-se, não deve ter superado os 2,2% em 2025.
A perspectiva, disse, é de um “pouso suave” da economia neste ano, com expansão do PIB em torno de 1,8%, e com retração do IPCA, índice oficial de inflação, para cerca de 4% neste ano diante dos 4,26% de 2025. A taxa básica de juros, a Selic, hoje em 15%, deverá começar a cair em março e chegar, conforme estimativas do mercado, em torno de 12,5% ao final deste ano. Para Pessôa, a economia brasileira tem problemas estruturais que precisam ser solucionados para que o país possa crescer de forma sustentada. Por isso, ele apresentou um retrospecto das políticas macroeconômicas brasileiras dos últimos 120 anos.

De forma geral, Pessôa apresentou problemas que afetam o crescimento econômico e oneram a capacidade do país em investir e crescer. Citou, como desafio, a indexação dos mínimos condicionais para os setores de Saúde e Educação. No Brasil é, por lei, regra que os custos com Saúde e Educação cresçam proporcionalmente às receitas líquidas. Ou seja: quanto maior o faturamento do Brasil, mais dinheiro é obrigatoriamente repassado para Saúde e Educação, em percentuais que equivalem, respectivamente, a 15% da receita corrente líquida para a Saúde e 18% para a Educação.
Outros desafios apresentados pelo pesquisador foram a estrutura tributária, que deverá gerar impactos positivos no decorrer dos próximos anos em consequência da aprovação da reforma tributária; e os elevados custos com previdência.
Tais encargos associados a decisões do governo contribuem para o aumento da dívida pública e para a elevada taxa de juros do país, que inibe o investimento. Ao olhar para os grandes desafios da economia brasileira, ele afirmou: “O desafio da nossa democracia é conseguir gerar um regime de política econômica que gere crescimento, redução da desigualdade e sustentabilidade. Isso a gente ainda não conseguiu”, disse.
Calendário de atividades
Durante o CCAB Conecta, a diretora de Marketing e Comunicação da Câmara Árabe, Marina Sarruf, apresentou o calendário de atividades da instituição para o decorrer deste ano no Brasil e no exterior. Em 4 de agosto será realizada, em São Paulo, a 5ª edição do Fórum Brasil-Países Árabes.
A instituição fará roadshows pelo País para apresentar o mercado árabe e o Projeto Halal do Brasil a empresas que desejam fazer negócios tanto com países árabes como com nações islâmicas que não são árabes. Produtos halal são aqueles feitos de acordo com as regras do Islã e aptos para o consumo dos muçulmanos. O Projeto Halal do Brasil é uma parceria da Câmara Árabe com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) para promoção dos produtos halal do Brasil.
Os roadshows irão passar por Rondônia, em maio; Rio Grande do Sul, em julho; Espírito Santo, em agosto; Bahia, em setembro; e Ceará, em outubro. O Projeto Halal receberá o projeto comprador com varejistas islâmicos entre 13 e 17 de abril, e está oferecendo o curso online gratuito “Explorando o mercado halal – estratégias para exportadores”. O projeto participará, ainda, de duas feiras internacionais: a Mihas, na Malásia, entre 23 e 26 de setembro; e a Food Africa, no Egito, entre 7 e 10 de dezembro.
Para além das atividades do Projeto Halal, a Câmara Árabe participará com estande próprio das feiras de alimentos e bebidas Anuga Select (de 07 a 09 de abril) e Apas (de 18 a 21 de maio), no Brasil, e Horeca (21 a 24 de abril), no Líbano: dedicada ao setor do turismo, a mostra terá a participação institucional e comercial da Câmara Árabe em parceria com a Embaixada do Brasil em Beirute. Entre 26 e 30 janeiro, a instituição levou empresas à Gulfood, maior mostra de alimentos e bebidas do Oriente Médio, realizada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Outra iniciativa no exterior são as edições do seminário “Why Brazil?”. A primeira edição foi realizada no Bahrein, em janeiro. As próximas estão previstas para Kuwait (em junho), Catar (outubro), Líbano e Omã, ambas no segundo semestre. Uma missão comercial multissetorial deverá ser realizada em abril para a Tunísia e Marrocos e outra, de mulheres empreendedoras por meio do comitê Wahi, irá à Jordânia.
A Câmara Árabe abordará eleições presidenciais em uma das duas próximas edições do CCAB Conecta. A outra está prevista para março e terá o Turismo como tema central. Em março, também, o Mercosul ganha destaque em outro evento tradicional da instituição: o Café da manhã com associados, marcado para o dia 10, e com o tema “Acordo Mercosul e União Europeia: reflexos nos países árabes”. Em novembro, haverá outra edição do Café da manhã com associados.
No CCAB Conecta desta segunda-feira estiveram presentes o presidente da Câmara Árabe, William Adib Dib Junior, o vice-presidente de Comércio Exterior, Daniel Hannun, a vice-presidente de Comunicação e Marketing, Silvia Antibas, o ex-presidente e presidente do Conselho Superior de Administração, Marcelo Sallum, os conselheiros e ex-presidentes Rubens Hannun e Osmar Chohfi, a conselheira Nadia Younes, os diretores Arthur Jafet, William Atui, Riad Younes e Sami Roumieh.
“Esse é o primeiro CCAB Conecta de 2026. A Câmara de Comércio Árabe Brasileira, através do CCAB Conecta, oferece um ambiente de relacionamento com empresas e profissionais atuantes no mundo árabe. Além do relacionamento e da possibilidade de trocar informações sobre negócios e oportunidades na região, o CCAB Conecta tem como proposta oferecer discussões aprofundadas sobre temas de interesse para quem busca internacionalizar suas operações nos países árabes”, afirmou Dib.


