São Paulo – Foi no Ensino Médio que João Baptista de Medeiros Vargens, um dos grandes nomes do ensino do idioma árabe no Brasil, tomou conhecimento da Guerra de 1967, conflito que envolveu Israel e países árabes. O então adolescente de 15 anos do Rio de Janeiro se identificou com a causa árabe e aquilo definiu sua escolha profissional e boa parte dos dias que vieram para ele, em uma trajetória de vivências entre o Ocidente e o Oriente, muito ensino, pesquisa e escrita.
Em novembro de 2025 João lançou o livro em que divide com o leitor um pouco do gosto de ter vivido esse roteiro. A grande parceria de João na carreira foi com a instituição onde ele estudou e leciona, o Setor de Estudos Árabes da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e isso fica claro no livro. Mas também transparece na obra que João viveu a docência bem abraçado a uma curiosidade genuína, assim como à vontade pessoal de desbravar e edificar.

Acumulando uma lista de títulos ligados à sua intelectualidade, que vão de pesquisador e escritor a homem do samba, no livro “Sob a égide da Minerva – Meio século de docência na UFRJ: 1975 – 2025” João mostra uma carreira efervescente, que não se restringiu às salas de aula, mas foi feita de projetos no exterior, de criação de caminhos para melhorar o ensino de árabe no Brasil, de descobertas e reflexões divididas em livros e outras vertentes. Minerva – a do título do livro, que é símbolo da UFRJ – é a deusa da sabedoria.
Em “Sob a égide da Minerva” João conta que a professora de literatura portuguesa do Ensino Médio o influenciou a entrar na carreira de Letras. Foi na adolescência também que o professor leu livros do brasileiro Malba Tahan, que escrevia histórias ambientadas em terras árabes. E foi nesse período o encontro pessoal com a causa árabe. João entrou no curso de Árabe da UFRJ na terceira turma oferecida pela universidade, na década de 1970.
No livro, João relata o trabalho de lexicografia como monitor, em um tempo que a criação um dicionário contava com uso de fichas de cartolina e armazenamento por letra em caixas de sapato. Essa também foi para João uma época de frequentar ensaios da Portela, uma das maiores escolas de samba do Rio de Janeiro, e de começar a ensinar, com permissão que havia sido concedida a estudantes para dar aulas em cursos livres e escolas particulares.
Quando chovia forte, alagava tudo. Era preciso arregaçar a calça até o joelho, tirar o sapato, a meia e muita disposição para atravessar a linha do trem alagada.
João Baptista de Medeiros Vargens
“Trabalhava no turno da noite e saía apressadamente da Faculdade de Letras, a tempo de embarcar no trem que partia às 18h03 da Central do Brasil. Algumas vezes eu me atrasava e, então, era preciso ir até a estação da Leopoldina, terminal da linha de mesmo nome. De Caxias, após um cachorro-quente e uma coca cola de brinde, mais um ônibus para chegar ao destino. Quando chovia forte, alagava tudo. Era preciso arregaçar a calça até o joelho, tirar o sapato, a meia e muita disposição para atravessar a linha do trem alagada”, relata na obra.
O livro traz o relato de uma ida a Brasília em busca de contato com a diplomacia árabe presente na capital e o retorno para o Rio de posse das doações de uma máquina de escrever mecânica com caracteres árabes e livros para uso da biblioteca da universidade. Abuna, que em árabe quer dizer nosso pai, era como João e os demais alunos chamavam o monsenhor Alphonse Nagib Sabbagh, criador do Setor de Estudos Árabes na UFRJ e personagem recorrente no livro.
O ingresso como auxiliar de ensino na universidade está no livro, assim como o embarque para a Síria para um curso de especialização em Língua Árabe para Estrangeiros em Damasco. “Eu iniciei minha primeira viagem internacional a bordo de uma aeronave Boeing 707, da Royal Air Maroc. Havia, na época, dois voos semanais Rio-Casablanca”, escreve no livro. A ele se juntou logo depois a então esposa Áurea de Paiva. A volta ao Brasil se deu com ela grávida, esperando o filho do casal, Omar Tárik, nome dado em homenagem a Omar Ibn Khatlab, segundo califa do Islã, e a Tárik Ibn Ziad, conquistador da Península Ibérica.

Na década de 1980, João foi eleito chefe do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras, da qual o Setor de Estudos Árabes faz parte. E dali seguiu sua trajetória, com a defesa da abertura de uma Embaixada da Palestina no Brasil, palestra no Marrocos já contando das pesquisas sobre os muçulmanos escravizados no Brasil, a tradução de livro do egípcio Nagib Mahfouz, experiência de três anos de ensino no Marrocos, a colaboração para estabelecer cooperação entre universidades brasileiras e árabes.
A criação de uma editora, a Almádena, ocorreu no final dos anos 2007 com a esposa Renata Mansour, para divulgar a produção acadêmica do Setor de Estudos Árabes da Faculdade de Letras da UFRJ e publicar trabalhos não acolhidos por outras editoras. João também relata brevemente no livro a pesquisa de coleção do imperador Dom Pedro II, a partir das viagens do monarca ao mundo árabe. A atuação do intelectual brasileiro foi reconhecida pelos menos em dois momentos pelos próprios árabes, quando João foi um dos ganhadores do Prêmio Unesco Sharjah 2011 e laureado pelo Prêmio Rei Abdullah, da Arábia Saudita.
O livro traz o relato de outros vários projetos e experiências de João ao longo da carreira, com um tom pessoal que é próprio do escritor, dando aos leitores detalhes interessantes de cada história. A publicação contém ainda fotos e uma biobibliografia que ele descreve como “o avesso da costura”, ao relatar o contexto do desenvolvimento de cada um dos seus livros. Com 164 páginas, o livro “Sob a égide da Minerva”, publicado em português, pode ser adquirido no site da Editora Almádena.
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