Alexandre Rocha
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São Paulo – Tornar os conhecimentos da medicina mais acessíveis para o público em geral. Este é o objetivo de um livro organizado e editado pelos médicos Alfredo Salim Helito, do Hospital Sírio Libanês, e Paulo Kauffman, do Hospital Israelita Albert Einsten, duas das mais conceituadas instituições de saúde de São Paulo e do Brasil. A obra, que vai chegar às livrarias com o nome de "Saúde: entendendo as doenças", será lançada em agosto.
"É um livro de quase 800 páginas onde tentamos descrever a medicina em linguagem acessível ao público leigo", disse Helito, que é clínico-geral, médico da família e desde 1999 apresenta, na Rádio Jovem Pan de São Paulo, um boletim sobre medicina. Kauffman é angiologista e cirurgião vascular e já tem outras obras médicas publicadas.
"O Salim é um amigo fraterno de longa data, temos vários pacientes em comum. Certa vez nos encontramos no saguão do Sírio e, durante uma conversa informal, surgiu a idéia de escrever o livro, unindo minha experiência com outros livros e a dele na comunicação com os leigos. Ele fala muito bem para os leigos, o que não é fácil", afirmou Kauffman.
A colaboração entre os dois é uma amostra de que no Brasil as comunidades de origem árabe e judaica convivem de forma harmônica. Helito é filho de pais sírios, originários da cidade de Homs, que imigraram para o Brasil na primeira metade do século passado. Kauffman, que é judeu, também é filho de imigrantes. Seu pai era russo e sua mãe argentina de origem russa. Ao chegar ao Brasil, os pais de ambos trabalharam como comerciantes.
Para elaborar a obra, os dois médicos contaram com a ajuda de cerca de 140 colegas de mais de 30 especialidades diferentes, todos do Sírio, do Einsten e do Hospital Oswaldo Cruz, instituição de origem alemã. Os médicos do Oswaldo Cruz escreveram a parte sobre ortopedia.
Cada capítulo teve um coordenador, que consolidava os textos de sua equipe e enviava para Helito e Kauffman. "O pessoal tentou nos mandar os textos em linguagem acessível, mas isto não é fácil", disse Helito. Os dois então, além de organizar os trabalhos, editaram os textos. Embora muitas informações médicas estejam disponíveis hoje na internet, em diversos casos elas são difusas e expressas em termos técnicos, o que dificulta o entendimento por não especialistas.
O trabalho durou ao todo quatro anos. "No ano passado, praticamente todas as noites eu saia do meu consultório, ia para o do Salim e ficávamos revendo e ordenando os capítulos", afirmou Kauffman. Os textos foram organizados em forma de perguntas e respostas com base nas experiências dos médicos que colaboraram com o trabalho. "Se alguém quiser saber, por exemplo, o que é uma pneumonia e como a doença evolui, vai ler isso dito por um especialista da área de forma palatável", acrescentou.
Manga com leite
A obra ajuda também a desmistificar algumas crenças populares sobre saúde. "Por exemplo, a de que manga com leite faz mal. Não faz", disse Helito. "Na minha área, existem pacientes que perguntam se andar de salto alto ou subir escada provoca varizes. Isto é lenda", acrescentou Kauffman, que escreveu o capítulo sobre a área vascular.
Os dois médicos ressaltaram, porém, que o livro não tem a intenção de fazer com que as pessoas façam autodiagnósticos ou que busquem medicamentos por contra própria. Pelo contrário, um dos capítulos escritos por Helito alerta para os riscos da automedicação. Caso o leitor reconheça na obra algum sintoma que esteja sentindo, a orientação é para que busque seu médico. "O livro não tem objetivo terapêutico", ressaltou Kauffman. Existem sim dicas sobre a prevenção de doenças.
O trabalho traz também uma parte sobre a história da medicina no Brasil, desde as práticas indígenas, passando pela época das missões jesuítas, pelo Brasil colônia, depois o império, até chegar ao século 20, quando a área passou por uma enorme evolução.
Investimento social
Além de levar conhecimento médico aos leigos, a obra tem um fundo social. Segundo Helito, 5 mil exemplares foram adquiridos pela empresa de telefonia Telemar, por meio do Instituto Oi Futuro. Eles serão distribuídos em postos de saúde e escolas de municípios carentes das regiões Norte e Nordeste. Neste caso, o livro será distribuído com o nome "História, Cultura e Práticas Correntes da Medicina".
Na mesma linha, a renda com os direitos autorais da obra será doada para entidades sociais das comunidades árabe e judaica de São Paulo: a Sociedade de Amparo ao Idoso Mão Branca, de origem síria, o Projeto Abrace seu Bairro, do Hospital Sírio-Libanês, e a União Brasileiro-Israelita de Bem estar Social (Unibes).
"Nada mais justo do que contribuir com estas instituições, em prol da população brasileira", declarou Helito. "Isto prova que no Brasil não há problemas entre as duas colônias e é um estímulo ao entendimento", acrescentou Kauffman.
Com prefácio de Dráuzio Varella e introdução do cardiologista Adib Jatene, duas das mais conhecidas personalidades médicas do país, o livro será lançado em 07 de agosto no teatro Oi Futuro, no Rio de Janeiro, e no dia 13 do mesmo mês no Teatro Alfa, em São Paulo, com apresentação da orquestra de médicos do Hospital Albert Einsten.
Helito, de 49 anos, se formou pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo em 1981, faz parte do corpo clínico do Hospital Sírio Libanês e, além de ser consultor médico da Rádio Jovem Pan, participa de outras atividades didáticas, como aulas e palestras organizadas pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Sírio.
Kauffman, de 67 anos, se formou em 1964 pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), onde hoje é professor da cadeira de cirurgia vascular, e atua am alguns dos principais hospitais de São Paulo, como Einsten, Sírio, Oswaldo Cruz, Nove de Julho e Hospital das Clínicas.

