Nova Serrana, em Minas, onde a taxa de desemprego é zero

O munic√≠pio √© respons√°vel pela produ√ß√£o de 55% dos cal√ßados esportivos do pa√≠s e tem um dos menores √≠ndices de pobreza de Minas Gerais. A cidade de apenas 50 mil habitantes produz anualmente 77 milh√Ķes de pares. Das 854 empresas, 76,3% s√£o micro e 21,5% s√£o pequenas. Juntas elas geram 21 mil empregos diretos. Por ser considerada um modelo de Arranjo Produtivo Local (APL), a cidade vai receber apoio do BNDES em 2005.

Geovana Pagel
geovana@anba.com.br

Geovana Pagel


S√£o Paulo – No pequeno munic√≠pio mineiro de Nova Serrana, considerado um modelo de Arranjo Produtivo Local (APL), al√©m do √≠ndice de desemprego ser zero, sobram vagas para quem tem qualifica√ß√£o. Com uma produ√ß√£o anual de 77 milh√Ķes de pares, a cidade de apenas 50 mil habitantes √© respons√°vel por 55% dos cal√ßados esportivos fabricados no Brasil.


A maior parte da produ√ß√£o abastece o mercado nacional, especialmente os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e S√£o Paulo. Mas nos √ļltimos anos as vendas externas v√™m crescendo. Em 2003 totalizaram US$ 1,8 milh√£o, contra cerca de US$ 900 mil em 2002. A Argentina continua sendo o principal importador, absorvendo entre 50% e 60% das exporta√ß√Ķes. Entre os demais mercados de destino est√£o tr√™s pa√≠ses √°rabes: L√≠bano, Emirados √Ārabes Unidos e Ar√°bia Saudita.


O projeto do arranjo produtivo, que visa incentivar parcerias entre os setores p√ļblico e privado em benef√≠cio de √°reas que concentram um grande n√ļmero de empresas especializadas em um mesmo setor, foi implantado h√° cerca de dois anos na cidade. Desde ent√£o, o sucesso √© evidente.


Nova Serrana é hoje o terceiro maior pólo calçadista nacional, atrás de Franca, em São Paulo, e do Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul. Das 854 empresas instaladas por lá, 76,3% são micro e 21,5 são pequenas. Juntas elas geram 21 mil empregos diretos. Isso sem falar da criação de trabalho para cerca de 1,5 mil pessoas de cidades vizinhas, como Potangui, Divinópolis e Garatinga.


No arranjo de Nova Serrana existem cinco grupos de trabalho, que discutem e decidem as a√ß√Ķes, liderados por empres√°rios do p√≥lo cal√ßadista. Tais grupos cuidam da viabiliza√ß√£o dos recursos para os projetos; trabalham na divulga√ß√£o institucional do p√≥lo; fazem consultorias de gest√£o e qualidade da produ√ß√£o nas ind√ļstrias; desenvolvem programas de capacita√ß√£o dos empres√°rios e dos funcion√°rios; e realizam a√ß√Ķes sociais.


"Cada grupo se re√ļne uma vez por m√™s para ver quais medidas poder√£o ser tomadas", afirma J√ļnior C√©sar Silva, presidente do Sindicato das Ind√ļstrias do Cal√ßado de Nova Serrana (Sindinova). Segundo ele, as a√ß√Ķes executadas em prol do APL s√≥ t√™m real sentido se beneficiarem os empres√°rios. "O empres√°rio tem que ver resultado na ponta, melhora na produ√ß√£o, etc. N√£o adiantam boas a√ß√Ķes se a ind√ļstria n√£o ganhar nada", diz.


Além da capacitação, o APL também oferece novas ferramentas para melhorar o planejamento das empresas, como o Programa de Qualidade e Planejamento e Controle da Produção (PCP). "Em 45 dias as empresas participantes do PCP tiveram um ganho de 20% em média", conta Silva.


Todas as a√ß√Ķes do APL s√£o realizadas por meio do sindicato das ind√ļstrias e coordenadas pelo comit√™ gestor do arranjo, formado pelo governo federal, por meio do Minist√©rio de Desenvolvimento, Ind√ļstria e Com√©rcio Exterior; pelo governo do estado de Minas; pela prefeitura e entidades de apoio.


Comércio


O com√©rcio na cidade tamb√©m vem sendo beneficiado pelo projeto. De acordo com os dados da C√Ęmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Nova Serrana, o setor emprega atualmente mais de 650 pessoas e, desde o ano passado, foram abertos entre 85 a 100 novos estabelecimentos comerciais no munic√≠pio.


O secret√°rio municipal da Ind√ļstria e Com√©rcio, Egino Martins, destaca tamb√©m o projeto do aterro sanit√°rio e o controle de lixo industrial, parte do APL. "Hoje cerca de 85% dos produtos que geram res√≠duos s√£o reaproveitados", conta. "A prefeitura participa na √°rea da divulga√ß√£o, com recursos para a participa√ß√£o em feiras de m√°quinas e tecnologia. O arranjo melhorou muito a imagem da cidade", diz.


Segundo ele, em janeiro do ano que vem, 81 empresas estar√£o presentes na Couromoda, feira do setor de couros e cal√ßados em S√£o Paulo. Em fevereiro a prefeitura, com apoio da Associa√ß√£o Brasileira das Ind√ļstrias de Cal√ßados (Abical√ßados) e da Ag√™ncia de Promo√ß√£o de Exporta√ß√Ķes do Brasil (Apex), vai montar um showroom na Argentina, durante a realiza√ß√£o de feiras importantes no pa√≠s.


Diagnóstico industrial confirma crescimento


Publicado pelo Sindinova e pela Federa√ß√£o das Ind√ļstrias de Minas Gerias (Fiemg), em mar√ßo deste ano, o "Diagn√≥stico das Ind√ļstrias Cal√ßadistas de Nova Serrana" revelou n√ļmeros importantes sobre o comportamento industrial da "Capital Nacional do Cal√ßado Esportivo", entre agosto de 2002 e agosto de 2003.


S√£o 120 p√°ginas que documentam a ind√ļstria cal√ßadista e mostram dados comparativos sobre a estrutura produtiva do p√≥lo, al√©m apresentar as possibilidades de aprimoramento das empresas, em termos de capacita√ß√£o tecnol√≥gica e gerencial, qualidade do produto e inser√ß√£o nos mercados nacional e internacional.


Em 2001, o arranjo produtivo cal√ßadista de Nova Serrana era constitu√≠do por 570 empresas, que empregavam 5,9 mil oper√°rios. Ao final de 2003, o n√ļmero de fabricantes chegou a 854, sendo 691 de cal√ßados esportivos, 110 de femininos e 53 de masculinos. O crescimento da renda per capita no per√≠odo foi superior a 17% ao ano.


O documento tamb√©m registra crescimento da produ√ß√£o de 3%, entre 2001 e 2002, e aumento de 8% no faturamento das ind√ļstrias, revelando que Nova Serrana tem apresentado produtos com maior valor agregado.


O desenvolvimento do design também aparece como fator de destaque no Diagnóstico Industrial. Relacionado com o aumento da produção e da competitividade, ele revela que o produto fabricado em Nova Serrana gradativamente passou a ocupar lugar de visibilidade na economia calçadista.


Em pouco tempo, os industriais do pólo poderão contar com a criação de um Centro de Design, que terá como finalidade agilizar o desenvolvimento de novos modelos.


A preocupação com o meio-ambiente também foi mostrada como fundamental para os calçadistas mineiros. O pólo já possui projeto para criação de uma central de tratamento e armazenamento de resíduos, que vai se somar ao trabalho de separação e reaproveitamento dos resíduos que já é feito pelas companhias.


Nova Serrana também tem um dos menores níveis de pobreza do estado de Minas Gerais. Entre 1991 e 2000, a renda per capita mensal do município cresceu, em termos acumulados, 101,51%, saltando de R$ 184,00, em 1991, para R$ 371,11 em 2000.


Na opini√£o de J√ļnior C√©sar Silva, o estudo √© um marco na hist√≥ria do munic√≠pio. "Este √© o primeiro grande projeto de bases s√≥lidas que o p√≥lo possui e n√£o teria sido realizado sem o apoio dos 15 parceiros da Plataforma Tecnol√≥gica. Ele servir√° de base para novos projetos que ir√£o alavancar a ind√ļstria de Nova Serrana no cen√°rio econ√īmico nacional", diz.


Apoio do BNDES


Por ser considerada um modelo de APL, Nova Serrana tamb√©m vai receber apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ√īmico e Social (BNDES), que v√™  em solu√ß√Ķes locais a sa√≠da para a economia nacional. O munic√≠pio mineiro √© um dos sete APLs que ser√£o contemplados com recursos da ordem de US$ 10 milh√Ķes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).


Nova Serrana deve receber cerca de US$ 1,5 milhão, no começo de 2005. As propostas que interessam diretamente ao município dizem respeito à implantação de Central de Tratamento e Armazenamento de Resíduos, estruturação de um Centro de Criação e Design do calçado e capacitação da força de trabalho, entre outras.

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