São Paulo – Ao atravessar os cômodos da Casa Museu Eva Klabin, no Rio de Janeiro, o visitante tem a oportunidade de percorrer séculos de história da arte egípcia reunidos por uma brasileira que dedicou a vida ao colecionismo, Eva Klabin.

Entre obras de diferentes culturas e períodos reunidos na casa museu, o núcleo do Egito se destaca pela força simbólica, pela raridade e pelo fascínio que atravessa gerações. Ele é formado por mais de 40 peças originais que foram adquiridas ao longo dos anos pela fundadora do espaço.
As obras, que fazem parte da exposição fixa da casa, abrangem um arco temporal impressionante da civilização egípcia, com peças que vão de cerca de 3.000 anos antes de Cristo até o período greco-romano, já às vésperas da era cristã.
São peças como vasos rituais, estatuetas de divindades, amuletos, fragmentos arquitetônicos, máscaras funerárias e pequenos sarcófagos, que revelam não apenas a sofisticação artística do Egito Antigo, mas também sua complexa visão de mundo, profundamente ligada à vida, à morte e à eternidade, segundo conta Ruth Levy, museóloga da Casa Museu Eva Klabin.
“Eva Klabin foi uma colecionadora incansável, com um olhar muito abrangente. Ela conseguiu reunir um acervo que cobre mais de cinco mil anos da história da arte, com peças de quatro continentes”, diz Ruth.

“E podemos dizer que atualmente essa coleção egípcia é uma das mais importantes do Brasil, principalmente depois da perda do acervo do Museu Nacional. Acredito que ela ocupa um lugar de destaque tanto pela qualidade quanto pela representatividade”
Entre os objetos que mais despertam a curiosidade do público está um sarcófago de gato, reflexo da importância dos felinos na religiosidade egípcia, associados a divindades como Bastet e Sekhmet.
Na coleção há também vasos rituais de pedra, amuletos em forma de escaravelho, estelas funerárias e estatuetas conhecidas como shabtis, que representavam servos destinados a acompanhar seus donos na vida após a morte. “São objetos que exigem uma leitura além da estética. Eles falam sobre estrutura social, crenças, organização do trabalho e espiritualidade”, destaca Ruth.
Para Camilla Rocha Campos, diretora artística da Casa Museu Eva Klabin, a força da coleção está justamente na sua capacidade de dialogar com questões contemporâneas. “A casa tem mais de 30 anos aberta ao público, e seguimos nos perguntando como essas peças conversam com o mundo de hoje. Quando mudamos a pergunta, escutamos novas respostas dos objetos”, afirma.

“A coleção egípcia também nos permite lembrar que o Egito é África, algo que muitas vezes é esquecido”, observa Camilla. “Ela representa o continente africano dentro do acervo e ajuda a ampliar esse entendimento histórico e cultural.”
Mais do que um conjunto de relíquias, a coleção egípcia da casa museu é um testemunho do olhar sensível de sua fundadora e de seu desejo de compartilhar conhecimento. E diferentemente de exposições tradicionais, as peças egípcias não estão isoladas em uma única sala. Elas fazem parte da ambientação original da casa, organizada por Eva ainda em vida.

A residência, adquirida no início dos anos 1950 e reformada na década seguinte, foi pensada para abrigar a coleção de forma integrada à decoração. “A casa foi mantida com esse espírito de residência, como Eva desejava. Os núcleos da coleção dialogam com os ambientes, sem uma ordem cronológica rígida”, diz Ruth.
Criada oficialmente em 1990, um ano antes de sua morte, a fundação abriu as portas ao público em 1995, transformando a antiga residência em um espaço vivo de pesquisa, educação e diálogo. Hoje, pesquisadores seguem estudando as peças, catálogos e e-books disponíveis gratuitamente.
Leia também:
Memórias de árabes que resistem na Rua 25 de Março
*Reportagem de Rebecca Vettore, em colaboração com a ANBA


