São Paulo – O vice-ministro da Cultura da Arábia Saudita, Abdulaziz Alsebail, afirma que o governo do país está trabalhando para que os sauditas conheçam mais a cultura brasileira. Em março, o Brasil foi convidado de honra na Feira do Livro de Riad. Alsebail acredita que há muito a fazer pelo intercâmbio cultural entre América do Sul e países árabes. Para viabilizar isso, ele sugere que empresas do Brasil e Arábia Saudita que participam do comércio bilateral apóiem projetos culturais.
ANBA – Sabemos que as tradições e os costumes na Arábia Saudita são bastante diferentes que no Brasil. Como é esse mundo da cultura, do cinema, da literatura, na Arábia Saudita?
Abdulaziz Alsebail – A Arábia Saudita é como qualquer outro país neste aspecto. Há todos os tipos de artes e literatura. Na verdade, quando se trata de romances, temos grandes escritores e escritoras. Uma de nossas escritoras (Rajaa Alsanea), por exemplo, teve seu livro traduzido para mais de 26 idiomas. Ele se chama "Girls of Ryadh" e fala sobre quatro meninas, como elas se comunicam, como se relacionam com homens. Dá uma idéia da sociedade, da interação. Também temos grandes escritores cujos livros foram traduzidos para inglês, francês, alguns para alemão. Também há escritores de contos. Posso dizer os nomes de 40 romancistas e cerca de 50 a 60 escritores de contos. Quando falamos sobre poesia, é a nossa arte do coração. Para os árabes, a poesia foi o gênero principal da literatura, desde o período antes do islamismo. E até hoje a poesia é um gênero muito importante no mundo árabe. A poesia moderna e a clássica ainda existem. No que se trata de artes novas, outros tipos de arte, temos pinturas, por exemplo. Esta é uma das melhores e mais modernas características artísticas. Temos muitos artistas, masculinos e femininos, e uma associação que inclui 400 artistas. Eles promovem atividades na Arábia Saudita e fora.
Qual é o principal tipo de arte na Arábia Saudita? Pintura, literatura?
A pintura, também a caligrafia. A caligrafia sempre foi muito importante para os árabes, pois os muçulmanos passaram muito tempo com receio de desenhar animais ou criaturas vivas. Por isso usaram a caligrafia, usando diferentes tipos de escrita, linda.
Os sauditas são grandes compradores de artes, principalmente pinturas, no mercado internacional. Eles são educados para apreciar artes ou é um gosto da população?
Temos artistas e pessoas que apreciam artes. Elas também têm bastante dinheiro. Elas apreciam arte e colecionam bastante. Temos escolas de arte, faculdades que dão aulas de arte. Outros simplesmente compram por preferências pessoais. Eles fazem cursos. Temos também muitos artistas que fizeram cursos, faculdades, na Itália, França, Estados Unidos. Se você olhar as obras deles, provavelmente parecem as obras de qualquer outro artista. Talvez a exceção seja que alguns são muito ligados às tradições. Dá para identificar esta tradição em toda a região árabe.
O que os sauditas conhecem da arte brasileira? Vocês conhecem nossos livros, nossos filmes?
Bem, lamentavelmente o que os sauditas mais conhecem do Brasil é o esporte, principalmente futebol. E temos muitos jogadores brasileiros na Arábia Saudita. Na Arábia Saudita as pessoas não sabem muito sobre o Brasil. É por isso que nós no Ministério da Cultura estamos tentando nos abrir para os brasileiros, como para outras culturas, e acreditamos que o Brasil é uma das grandes nações, que tem uma grande história, grande cultura, e esta cultura precisa ser conhecida pelos nossos cidadãos.
Um dos passos que tomamos foi colocar o Brasil como convidado de honra na Feira Internacional do Livro de Riad, em março. Quatro professores e escritores brasileiros foram para a Arábia Saudita. Alguns filmes brasileiros foram mostrados. O Paulo Farah (escritor e diretor da Bibliaspa) estava lá. Eles deram palestras sobre o Brasil.
A feira do livro durou dez dias, de 03 a 13 de março. Demos ao Brasil um grande estande na feira. Lá foram mostrados filmes, livros, alguns traduzidos (para o árabe), como romances de Paulo Coelho. Ele é muito conhecido lá. Fizemos um curta metragem que está sendo exibido para a população. Eles gostam muito do samba, da dança, das fábricas de café. Foram quase um milhão de visitantes ao estande brasileiro.
A revista Fikr, (coordenada por Paulo Farah, da Bibliaspa), vai publicar artigos, contos e poesia saudita. Ela terá uma edição especial sobre a literatura na Arábia Saudita.
O que você achou da reunião de ministros da cultura de países árabes e sul-americanos no Rio?
Acho que foi muito positiva. Sentimos, na verdade, que todos os países da América do Sul estão entusiasmados e gostariam de ter mais relações com os árabes. Acreditamos que temos muitas idéias em comum, e uma certa herança. Precisamos de mais atividades culturais para nos entendermos melhor e ficar mais próximos.
Cada região tem uma cultura muito valiosa. É nosso papel, como profissionais, ajudar as pessoas a conhecer isso. É por isso que discutimos com o Michel Alaby (secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe Brasileira) algumas idéias de atividades culturais sauditas aqui e de algumas atividades culturais brasileiras na Arábia Saudita.
O que você acha que o Brasil e a Arábia Saudita, ou América do Sul e Arábia Saudita, podem fazer juntos nesta área cultural?
Sabemos que há muito comércio entre o Brasil e a Arábia Saudita. Acho que essas empresas devem dar apoio às atividades culturais. É disso que precisamos. Lamentavelmente, sabemos tanto sobre a América (do Norte), sobre a Europa. Mas no caso da América do Sul, a apreciamos muito, amamos muito, mas não sabemos muita coisa. Chegou a hora.
A Arábia Saudita de hoje não é como a Arábia Saudita de 20 anos atrás. O país é muito mais aberto ao mundo. O Rei Abdullah promoveu dois grandes encontros, um deles em Madri, para o diálogo entre religiões e civilizações. O segundo foi na ONU, no ano passado. Isso dá uma idéia de como toda a Arábia Saudita, os líderes, o povo, estão tão interessados em conhecer os outros e abrir sua mente e corações para outras culturas.
Acreditamos que não há cultura superior a outra. Cada cultura tem suas próprias características e valores. Precisamos saber mais sobre culturas diferentes, o que nos levará a entender um ao outro de forma melhor, cooperar. Acreditamos que todas as religiões, todas as culturas gostariam de ver paz e tranquilidade na terra. E elas todas devem cooperar para gerar a felicidade do povo e da humanidade.
A próxima edição da Aliança das Civilizações, que vai ocorrer no Brasil, será importante para a área cultural?
Certamente. É muito importante porque algumas pessoas dizem que há um conflito entre as civilizações. Algumas pessoas dizem isso, que a civilização ocidental, ou americana, vai superar as outras e as outras irão desaparecer. Precisamos trabalhar juntos para fazer com que estas civilizações existam bem lado a lado e que aprendam umas com as outras.
Por experiência, qualquer pessoa que atualmente conhece mais de um idioma tem a mente mais aberta. Essa pessoa conhece mais de outras culturas. É nossa tarefa aprender mais idiomas. Atualmente incentivamos as pessoas a aprenderem o português e o aprendizado do árabe no Brasil. Isso é muito importante.
Há atualmente na Arábia Saudita cursos de português?
Lamentavelmente ainda não. Temos muitos idiomas: japonês, chinês, alemão, francês, espanhol. Ainda não o português, mas vai chegar.
E na escola, as crianças aprendem apenas árabe e inglês?
Sim. Na escola o principal é o inglês, mas em algumas escolas particulares também há aulas de francês.
Em sua opinião, qual foi a principal decisão da reunião?
Na verdade há tantos projetos. Um é a tradução. Temos um centro brasileiro para ajudar na cooperação e tradução. Temos em Tânger (Marrocos) o (projeto do) centro para cultura sul-americana. Há também uma biblioteca em Argel (que será construída). O projeto todo está completo agora e vão construindo esta grande biblioteca. Toda a idéia de cooperação no aspecto cultural começou há poucos anos. Temos muitos projetos para os próximos anos, mas precisamos trabalhar muito para fazer com que os resultados apareçam.
Existe uma área de maior interesse para a Arábia Saudita nesta cooperação? Literatura, cinema?
Na verdade, a Arábia Saudita está envolvida em todas estas áreas. Temos interesse em todos os projetos. A Arábia Saudita certamente participará em todos.
Esta é sua primeira visita ao Brasil?
Sim. Fiquei muito surpreso. Fiquei impressionado com os dias que passei no Rio de Janeiro. A cidade é linda, muito bem organizada. As pessoas são tão amistosas. Senti que temos muito em comum e que o Brasil terá um papel maior no mundo. Está crescendo, principalmente nos últimos anos em economia. Normalmente, quando a economia está em crescimento, outros aspectos acompanham.
Respeitamos o Brasil. Trabalhamos com a embaixada brasileira na Arábia Saudita neste projeto (do encontro ministerial da cultura). Eles foram muito amistosos e cooperaram muito. Nossa experiência com os brasileiros está nos encorajando a trabalhar mais e mais nos aspectos culturais.

