São Paulo – Uma princesa moura faz parte do imaginário popular e também dos palcos de teatro do Rio Grande do Sul. Mouro é o nome dado ao povo árabe-berbere que conquistou a Península Ibérica e a história de uma princesa desta origem se tornou conto popular no estado e, mais recentemente, também motivo de uma peça de teatro. João Simões Lopes Neto, escritor regionalista famoso, transformou, em 1913, uma lenda espanhola sobre a princesa moura no conto A Salamanca do Jarau. A história ficou famosa, virou lenda regional, e a Companhia Teatral Lumbra de Animação montou um espetáculo sobre o tema.
Diz o conto de João Simões Lopes Neto que os mouros desbravadores da Espanha, após suas proezas em terras européias, buscaram morada nas Américas e trouxeram com eles sua princesa. Um diabo dos índios, porém, chamado Anhangá-Pitã, a transformou em lagartixa. Mas ela era diferente das demais porque tinha na cabeça uma pedra preciosa e se transformava em mulher. Foi achada por um sacristão na beira de uma lagoa. A princesa-lagartixa, uma espécie de bruxa, leva o sacristão a uma gruta, no Cerro do Jarau, no interior do estado. Ali ele é aprisionado.
É neste trecho do conto que começa a montagem da companhia teatral de Porto Alegre. Quando o gaúcho Blau Nunes vai até a gruta e é convidado pelo guardião da gruta a ter riquezas. Blau não quer riqueza, quer o amor da princesa, também chamada Teinianguá. Mas quando sai da gruta recebe do seu guardião um amuleto, que lhe traz fortuna. E fica difamado e isolado. O gaúcho devolve o amuleto e com isso liberta o sacristão e a Teinianguá. Eles formam um casal e dão origem ao povo gaúcho.
“Blau Nunes, deu de rédea e despacito foi baixando a encosta do cerro, com o coração aliviado…era pobre como dantes, porém que comeria em paz o seu churrasco…e em paz seu chimarrão, em paz a sua sesta, em paz a sua vida”, diz um trecho do conto de João Simões Lopes Neto. O conto é longo e complexo. O espetáculo da Lumbra, porém, tem cerca de cinqüenta minutos e é feito com teatro de sombras. O diretor, dramaturgo e também ator Alexandre Fávero foi quem concebeu o projeto.
Fávero começou a pesquisar o tema em 2005, com o estudo do conto. Depois foram feitas viagens de pesquisa pelo estado, inclusive para Quaraí, onde está o Cerro do Jarau e a gruta citada na história, e tidas entrevistas com pesquisadores e especialistas no tema. O diretor já tinha feito uma outra peça com teatro de sombras, Sacy Pererê – A Lenda da Meia-Noite, e escolheu A Salamanca do Jarau porque queria continuar trabalhando dentro desta linha e queria também um tema que ilustrasse a cultura gaúcha.
A peça não tem texto convencional. Tem música do cantor Bebeto Alves e locuções com trechos originais do conto de Simões Lopes Neto. O teatro de sombras usado também não é do formato tradicional, somente com atores atrás de um pano. Fávero misturou as sombras com conceitos de cinema e a peça pode ser vista com enquadramentos similares a um filme, com zoom e diferentes focos. Não é usado apenas um pano, são várias telas. Na Salamanca, por exemplo, é utilizado um balão inflável de tecido, onde aparecem as sombras.
O espetáculo ficou pronto no começo de 2007 e de lá para cá foram feitas cerca de 60 apresentações, em três temporadas. No mês de maio ele será apresentado para alunos de escolas públicas gaúchas como parte de um projeto chamado “Lendas do Sul”. A companhia teatral pretende também levar a peça para outros estados. Quem atua na peça é Fávero, Flávio Silveira e Roger Mothcy. Fabiana Bigarella faz a produção de palco. A companhia teatral Lumbra leva o seu trabalho adiante com a produtora Clube da Sombra.
Contato:
Companhia Teatro Lumbra de Animação
Telefone: + 55 (51) 3446 9134
Site: www.clubedasombra.com.br
E-mail: [email protected]

