Um autor brasileiro no Cairo

Joca Reiners Terron passou um m√™s no Cairo, no ano passado. A cidade serviu de cen√°rio para o romance que o brasileiro est√° escrevendo e que deve ser publicado no ano que vem. A viagem fez parte do projeto Amores Expressos, que enviou 17 escritores do pa√≠s para diferentes cidades do mundo em busca de inspira√ß√£o para os seus livros.

Isaura Daniel
isaura.daniel@anba.com.br

Isaura Daniel
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S√£o Paulo ‚Äď Um cart√£o postal do Cairo chega na casa de um jovem na capital paulista. A correspond√™ncia √© do irm√£o, g√™meo monozig√≥tico do rapaz, do qual ele n√£o tem not√≠cias h√° alguns anos. O cart√£o d√° o pontap√© da viagem do mo√ßo para o Egito, atr√°s do seu irm√£o, e assim vai come√ßar tamb√©m o romance escrito pelo brasileiro Joca Reiners Terron, que se passa no pa√≠s √°rabe e em S√£o Paulo. O autor ficou por um m√™s no Cairo, entre os meses de maio e junho do ano passado, para ambientar ali o seu romance.


A reda√ß√£o da obra liter√°ria est√° em andamento. Provavelmente ser√° lan√ßada no ano que vem. Ela faz parte do projeto Amores Expressos, que levou 17 escritores brasileiros a 17 diferentes cidades do mundo para transform√°-las em cen√°rios dos seus romances. S√£o Paulo, Berlim, Buenos Aires, T√≥quio, Xangai, Istambul, Lisboa, Paris, Havana, Nova York, Praga, S√£o Petersburgo, Cidade do M√©xico, Dublin, Bombaim (Mumbai), Sidnei e Cairo foram as escolhidas. Os viajantes eleitos: escritores brasileiros com experi√™ncia, entre eles Joca.


Joca esteve no Cairo acompanhado da sua mulher, Isabel Santana, que √© fot√≥grafa, e durante as trinta noites de perman√™ncia se dividiu entre um hotel e outro no centro da cidade. O que ele trouxe para casa foram as impress√Ķes da cidade √°rabe e anota√ß√Ķes e desenhos em um caderno. ‚ÄúE depois o meu caderno foi roubado‚ÄĚ, conta o autor. Mesmo assim, o planejamento das linhas geral do romance chegou junto com ele de volta ao Brasil. Joca quer terminar a obra at√© o final deste ano.


E como o projeto Amores Expressos pede hist√≥rias de amor, o escritor, nascido no Mato Grosso, resolveu abordar o amor fraternal de dois irm√£os, g√™meos monozig√≥ticos. Depois de receber o cart√£o postal, um deles viaja atr√°s do outro para o Cairo. O primeiro se mudou para o pa√≠s √°rabe h√° anos, ansioso por encontrar a sua pr√≥pria identidade e motivado pela paix√£o pelo filme Cle√≥patra. O irm√£o que procura √© o que o √ļtero n√£o alimentou adequadamente e √© pacato. O irm√£o fuj√£o √© o mais desenvolvido.


‚ÄúExiste uma cren√ßa alem√£ que diz que o encontro entre s√≥sias √© o in√≠cio da perdi√ß√£o‚ÄĚ, conta o autor, deixando pistas sobre o encontro dos irm√£os. Assim como o g√™meo fuj√£o √© obcecado por Cle√≥patra, o pai dos dois √© obcecado pela id√©ia do duplo. O filho mais desenvolvido vai ao Cairo porque acha que encontrou a sua real identidade e quer test√°-la no outro pa√≠s. Joca pretende mostrar, indiretamente, com a narra√ß√£o, algumas diferen√ßas entre o Ocidente e o Oriente.


Antes de come√ßar a escreve o romance, Joca n√£o tinha muito contato com o mundo √°rabe. ‚ÄúO Egito √°rabe √© bastante desconhecido‚ÄĚ, diz Joca. Ele afirma que h√° muitas diferen√ßas entre o Egito imagin√°rio e o verdadeiro. A grande civiliza√ß√£o do passado e os filmes, como Cle√≥patra – que ele cita como kitsch, – s√£o, segundo Joca, diferentes do Cairo atual. O Egito, segundo ele, √© hoje muito mais √°rabe e isl√Ęmico do que se imagina. ‚ÄúFoi uma grande imers√£o‚ÄĚ, diz Joca sobre a sua estadia no Cairo.


Amores Expressos


O destino de cada autor do projeto liter√°rio foi determinado pela produ√ß√£o do Amores Expressos. Como parte dele tamb√©m foram feitas filmagens da experi√™ncia de 16 escritores nas cidades, o que est√° sendo transformado em document√°rios. A estadia de cada autor render√° um document√°rio, cada um com 26 minutos. Quatro j√° est√£o prontos e os coordenadores do projeto est√£o come√ßando a negociar a sua veicula√ß√£o junto a televis√Ķes.


O projeto liter√°rio Amores Expressos foi concebido pela RT Features, de Rodrigo Teixeira. Ele e Tadeu Jungle, da Academia de Filmes, se juntaram para conceber uma terceira empresa, a Ipanema Entertainment, respons√°vel pelo projeto. Os document√°rios foram levados adiante pela Ipanema e Academia de Filmes.


Joca Reiners Terron


Joca Reiners Terron, além de escritor, é também designer gráfico e editor. Ele já tem seis livros publicados. Um deles, chamado Hotel Hell, é romance. Outros dois são de poemas, dois são de contos e um é uma novela. O livro de contos Curva de Rio Sujo, publicado no Brasil em 2003 pela editora Planeta, foi também lançado em Portugal, em 2005.


Joca mora em São Paulo há 17 anos, mas nasceu em Cuiabá, no Mato Grosso. Atualmente com 40 anos, o mato-grossense publicou o seu primeiro livro há cerca de dez anos. Ele também está escrevendo uma outra obra para um projeto de cultura da Petrobras.

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