São Paulo – Crianças e jovens de 372 instituições de ensino dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro estudaram e escreveram, no ano passado, sobre a história de uma rainha africana que se comunicava em árabe. Esses alunos participaram de um concurso de redação do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap), que teve como tema Luiza Mahin, líder africana que pertenceu ao grupo dos malês, negros muçulmanos vindos da África para o Brasil como escravos. Eles escreviam em árabe e registros históricos indicam que grande parte veio do Sudão, país africano que é árabe.
Segundo o conselheiro estratégico do Ceap, Ivanir dos Santos, o concurso é promovido todos os anos, sempre com um tema diferente ligado à África e aos afrodescendentes. O objetivo é estimular o conhecimento da lei de 2003, que tornou obrigatório o ensino da história da África e cultura afro-brasileira nas escolas do País. O Concurso de Redação Camélia da Liberdade já teve a sua quinta edição no Rio e a quarta entre os paulistas.
A premiação no Rio aconteceu nesta quarta-feira (2) e em São Paulo está prevista para esta sexta-feira (4). Teve prêmio para seis escolas fluminenses e três paulistas. Em São Paulo, o concurso é dirigido apenas ao Ensino Médio e no Rio abrage também o Fundamental. As escolhas foram feitas a partir da redação dos alunos. Ganharam prêmios as escolas, além dos alunos que escreveram os textos e os seus professores. Os colégios recebem laboratórios de informática e os professores e alunos ganham equipamentos eletrônicos, como tablets, computadores, scanners e impressoras.
Luiza Mahin foi, de acordo com Santos, uma liderança na revolta dos Malês. Ela também teria sido uma rainha na África. Não há, no entanto, muitos registros sobre a vida dela e grande parte do que se sabe é a partir de textos feitos por seu filho, o abolicionista Luiz Gama. "Sou filho natural de uma negra africana livre, da Costa da Mina (Nagô de Nação) de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã", escreveu Gama em uma carta. E a ela, Gama também fez versos, como o trecho a seguir: "Era mui bela e formosa, era a mais linda pretinha, da adusta Líbia rainha, e no Brasil pobre escrava!"
Os negros muçulmanos, que tinham sido vendidos por vencedores de guerras na África, eram instruídos e apesar de escravos, não aceitavam essa condição. Também não aceitavam as tentativas de conversão ao catolicismo. Por isso promoveram no começo do século 19, na Bahia, a Revolta dos Malês. Mas acabaram sendo derrotados. Mahin foi deportada do Brasil e seu filho, Luiz Gama, ficou com o pai, que, por problemas financeiros, vendeu o menino. Mais tarde ele procurou pela mãe, mas não a encontrou mais. Quituteira, Luiza Mahin enviava mensagens em árabe aos parceiros para organização da revolta.

