Vendas externas do p√≥lo moveleiro ga√ļcho crescem acima da m√©dia nacional

As exporta√ß√Ķes de m√≥veis do Rio Grande do Sul aumentaram 62% entre janeiro e agosto deste ano. O percentual √© maior do que a m√©dia de crescimento das vendas do segmento no pa√≠s, que ficou em 47%. Na Serra Ga√ļcha, onde fica o principal p√≥lo do setor no estado, as empresas est√£o implantando o trabalho noturno para atender a demanda crescente do mercado externo.

Isaura Daniel
isaura.daniel@anba.com.br

Isaura Daniel, enviada especial


Bento Gon√ßalves (RS) – Antes mesmo de o presidente Luiz In√°cio Lula da Silva falar em pa√≠ses √°rabes, o empres√°rio Volnei Benini j√° tinha passado pelos Emirados √Ārabes Unidos com os seus cat√°logos de m√≥veis embaixo do bra√ßo. Benini n√£o dominava o ingl√™s, muito menos o √°rabe, e n√£o conhecia nada dos costumes locais quando viajou pela primeira vez a Dubai, h√° cerca de quatro anos, para tentar vender seus produtos.


"Foi esp√≠rito de aventura mesmo", diz ele, atual diretor da BRV M√≥veis, de Bento Gon√ßalves, no Rio Grande do Sul. Hoje, a sua ind√ļstria comercializa fora do pa√≠s quase a totalidade dos m√≥veis que fabrica na Serra Ga√ļcha.


Assim como Benini, outras centenas de empres√°rios do Rio Grande do Sul geram empregos e renda vendendo camas, sof√°s, cozinhas e arm√°rios no mercado internacional. Conhecido como desbravador, o setor moveleiro ga√ļcho tem o segundo maior faturamento do pa√≠s com exporta√ß√Ķes de m√≥veis, atr√°s apenas de Santa Catarina, e cresceu bem acima da m√©dia nacional nos oito primeiros meses do ano.


Enquanto a ind√ļstria de m√≥veis do pa√≠s exportou 47% a mais de janeiro a agosto em rela√ß√£o ao mesmo per√≠odo do ano passado, as f√°bricas ga√ļchas aumentaram em 62% as suas receitas com exporta√ß√Ķes.


Na regi√£o nordeste do estado, onde fica a Serra Ga√ļcha e o principal p√≥lo moveleiro do Rio Grande do Sul, as f√°bricas est√£o adotando um segundo turno de trabalho para atender a demanda crescente. A Politorno, por exemplo, ind√ļstria de racks, estantes, utilit√°rios e escrivaninhas, que fica em Bento Gon√ßalves, implantou h√° cinco meses a fabrica√ß√£o noturna com nove funcion√°rios.


A Politorno produz cerca de 17 mil pe√ßas ao m√™s e exporta 30% da sua produ√ß√£o para o Mercosul, Am√©rica Central, Estados Unidos, Europa e √Āfrica. Tamb√©m a Multim√≥veis, f√°brica de Bento Gon√ßalves da √°rea de racks, estantes, escrivaninhas e m√≥veis infantis, implantou o trabalho noturno.


Os pa√≠ses que mais ajudaram a ind√ļstria ga√ļcha a vender mais entre janeiro e agosto deste ano foram a Espanha e a Argentina. A Espanha saiu de compras de US$ 2,4 milh√Ķes nos oito primeiros meses do ano passado para US$ 6,6 milh√Ķes este ano, uma alta de 171%. A Argentina gastou US$ 8,6 milh√Ķes com produtos brasileiros, 142% a mais do que no mesmo per√≠odo de 2003.


Entre os principais compradores da ind√ļstria ga√ļcha de m√≥veis, por√©m, est√£o Estados Unidos, Reino Unido e Chile. Os Estados Unidos figuram no topo da lista, com US$ 57 milh√Ķes adquiridos entre janeiro e agosto deste ano, seguidos do Reino Unido, com US$ 30 milh√Ķes, e do Chile, com US$ 10 milh√Ķes.


Apesar do aumento crescente das vendas para os pa√≠ses √°rabes, a regi√£o ainda n√£o figura entre os principais consumidores dos fabricantes ga√ļchos. De acordo com o presidente da Associa√ß√£o das Ind√ļstrias de M√≥veis do Estado do Rio Grande do Sul (Movergs) e s√≥cio da Politorno, Ivanor Scotton, os pa√≠ses √°rabes compraram cerca de US$ 3 milh√Ķes das f√°bricas ga√ļchas no ano passado. Neste ano, as vendas devem ficar em cerca de US$ 3,5 milh√Ķes. H√° v√°rias empresas ga√ļchas empenhadas em entrar ou ampliar mercado nos pa√≠ses √°rabes.


√Č o caso da pr√≥pria Politorno, que deve participar da sua primeira feira na regi√£o em 2004, para tentar come√ßar a vender aos √°rabes, e da Multim√≥veis, que acaba de vender cerca de 13 cont√™ineres de mercadoria na Index, feira do setor moveleiro do Oriente M√©dio.


O pólo dos imigrantes


O Rio Grande do Sul foi um dos poucos estados que aumentou sua participa√ß√£o nas exporta√ß√Ķes nacionais do setor, entre as cinco principais regi√Ķes produtoras do pa√≠s. Os ga√ļchos respondiam por 25,6% da receita do pa√≠s com vendas internacionais de m√≥veis entre janeiro e agosto de 2003 e agora participam com 28,2%. S√£o Paulo passou de 7,6% para 9,4%. Os demais exportadores – Santa Catarina, Paran√° e Minas Gerais – diminu√≠ram suas participa√ß√Ķes.


O setor de móveis, juntamente com o de madeiras, gera 32 mil empregos no Rio Grande do Sul, que tem cerca de 70% da produção de móveis concentrada na Serra e arredores. A fabricação de móveis na região começou ainda na época da colonização italiana, há 130 anos.


A abund√Ęncia de pinheiros foi uma justificativa para o in√≠cio das atividades moveleiras pelos imigrantes. "Eles tiveram que desbravar tudo, fabricar as suas casas, depois seus m√≥veis", diz Scotton. Ainda hoje existem casas de madeira, uma marca da coloniza√ß√£o italiana, nas cidades da Serra.


No come√ßo a produ√ß√£o era artesanal, para uso dom√©stico ou sob medida. Nos anos 60 come√ßou a produ√ß√£o em s√©rie e as empresas mais ousadas se aventuraram na exporta√ß√£o j√° h√° cerca de 20 anos. O grande momento das exporta√ß√Ķes, por√©m, come√ßou h√° dez anos e se intensificou nos √ļltimos tr√™s.


"O setor moveleiro sempre foi persistente e precisou buscar alternativas para passar pelos diversos planos econ√īmicos do pa√≠s", diz o vice-presidente do Sindicato das Ind√ļstrias Moveleiras de Bento Gon√ßalves (Sindim√≥veis), Cl√°udio Ramos.


H√° cerca de tr√™s anos tamb√©m foi formada a Associa√ß√£o dos Fabricantes de Estofados e Componentes para M√≥veis do Rio Grande do Sul (Afecom), um cons√≥rcio exportador formado por 21 empresas ga√ļchas.


Hoje, o Rio Grande do Sul e a Serra se tornaram um grande supermercado do setor e fabricam desde estofados até móveis de aço, cozinhas e dormitórios. Cada cidade tem sua especialidade. Na cidade de Bento Gonçalves, por exemplo, o forte são os móveis de aglomerado. Já no município de Flores da Cunha predomina a madeira maciça como matéria-prima.


Aperfeiçoar para vender


A Serra tem tamb√©m duas importantes feiras do setor, a Movelsul, exposi√ß√£o de ind√ļstrias de m√≥veis que atrai compradores do mundo inteiro, e a Feira Internacional de M√°quinas, Mat√©rias-Primas e Acess√≥rios para a Ind√ļstria Moveleira (Fimma).


Dos 36 mil visitantes que estiveram na Movelsul em mar√ßo deste ano, 1.350 eram estrangeiros. Na Fimma do ano passado, 195 dos 621 expositores tamb√©m eram estrangeiros. Um dos objetivos da Fimma √© justamente trazer a moderniza√ß√£o tecnol√≥gica para perto das ind√ļstrias, principalmente as pequenas e m√©dias.


Al√©m de buscar tecnologia, muitas empresas ga√ļchas de m√≥veis tamb√©m foram atr√°s de certificados de qualidade e aperfei√ßoamento. A Universidade de Caxias do Sul mant√©m v√°rios cursos voltados para o setor, inclusive uma p√≥s-gradua√ß√£o, nas cidades de Bento Gon√ßalves e Caxias do Sul. Tamb√©m h√° o Centro Tecnol√≥gico do Mobili√°rio, do Servi√ßo Nacional da Ind√ļstria (Senai), com cursos t√©cnicos na √°rea, em Bento Gon√ßalves.


O Rio Grande do Sul deve fechar o ano com um faturamento de US$ 300 milh√Ķes nas exporta√ß√Ķes de m√≥veis, de acordo com proje√ß√Ķes da Movergs. No ano passado, o estado teve receitas de US$ 182 milh√Ķes com vendas externas do setor. No pa√≠s, as vendas internacionais devem chegar a US$ 1 bilh√£o contra US$ 703 milh√Ķes de 2003.

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