Árabes com sotaque mineiro

Filho de imigrantes, o juiz aposentado Romeu Abílio lançou o livro ‘Lembranças minurcas’, que reúne memórias de sua família e da comunidade sírio-libanesa que se estabeleceu na cidade mineira de Guaxupé.

Marcos Carrieri
marcos@anba.com.br

São Paulo – A história dos imigrantes árabes que chegaram ao Brasil no começo do século 20 ganhou mais um relato no fim de 2015, com o lançamento do livro “Lembranças minurcas”, do juiz aposentado Romeu Abílio. Nesta obra, Abílio retrata a história da imigração dos seus familiares desde a Síria e o Líbano até a cidade de Guaxupé, no sul de Minas Gerais. O município reúne grande comunidade árabe e tem uma igreja cristã ortodoxa, religião de muitos sírios e libaneses que vieram ao Brasil.

Escrever sobre a imigração em Guaxupé, diz Abílio, sempre esteve nos seus planos, e foi um projeto adiado diversas vezes. Ele chegou a gravar em fitas cassetes as conversas que tinha com seu pai e sua tia sobre a vinda deles ao Brasil, ainda pequenos, em 1924. Essas fitas se perderam quando um incêndio destruiu o fórum da cidade de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, onde Abílio trabalhava.

“Mesmo depois disso, eu decidi publicar o livro. Era um objetivo antigo. Eu escrevi e descartei versões anteriores dessa história. Mas há cerca de três anos decidi que iria publicar. Já não era mais hora de postergar”, afirmou o autor, que recebeu a reportagem da ANBA nesta quarta-feira (06) em sua residência na capital paulista.

A origem do nome do livro “minurca” vem da união, criada pelo autor, das palavras ‘mineiro’, que é o gentílico das pessoas que nascem no estado de Minas Gerais, e turco. No começo do século 20, muitos imigrantes árabes chegaram ao Brasil com documentos turcos e como tais ficaram conhecidos. Muitos, porém, se ofendiam quando eram chamados de turcos.

Antes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Síria, o Líbano, o Iraque e outros territórios do Oriente Médio estavam sob domínio do império turco-otomano. Depois da guerra, estes territórios passaram a ser dominados pela França.

O pai de Abílio não chegou a conhecer o avô do autor, que, acredita-se, morreu na guerra. Quando a família decidiu vir para o Brasil, foi para outra cidade mineira, Ventania, onde vivia um tio-avô de Abílio. Depois, foram para Guaxupé, cidade que já tinha cerca de 400 famílias árabes e era uma das maiores da região.

O motivo que levou tantos árabes a se instalar na cidade, diz Abílio, não é totalmente conhecido. Algumas das razões, afirmou, são o desenvolvimento da lavoura cafeeira, que promoveu o desenvolvimento do interior do estado de São Paulo e do sul de Minas Gerais, além de uma grande estação de trem da estrada de ferro Mogiana.

“É sintomático que esta comunidade tenha se formado lá no auge da indústria do café na região. [Guaxupé] era uma cidade maior do que as da região, era centro do bispado e recebeu muito bem os ortodoxos”, disse Abílio.

No livro, o autor retrata a relação entre cristãos católicos e ortodoxos, apresenta aspectos da presença árabe em Guaxupé, como os nomes de diversas ruas e avenidas, e recorda até das aulas de árabe que teve com o professor Helmi Nasr, que traduziu o Alcorão do árabe para o Português e foi vice-presidente Relações Internacionais da Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Aposentado, Nasr atualmente vive no Egito.

Em seu livro, Abílio também recupera histórias do pai, nascido na em Tell Abbas el Gharbi, e da mãe, natural de Baino, duas cidades que pertenciam ao império turco-otomano e que hoje compõem o território do norte do Líbano. O pai de Abílio chegou ao Brasil sem documentos e entrou no país apenas com o passaporte da avó de Abílio, que foi emitido pelo governo francês no Líbano. “O meu pai dizia que não tinha nacionalidade”, observou o autor.

Antes de se mudar para São Paulo, aos 18 anos, Abílio, de 67 anos, foi seminarista. Foi para a capital paulista para estudar, trabalhar e ajudar a sustentar a família. Atualmente, Abílio ensina Direito Penal no Centro Universitário Fundação Instituto de Ensino para Osasco (Unifieo), cidade da Região Metropolitana de São Paulo.

Em breve, o autor irá para Guaxupé para lançar o livro na cidade mineira. Lá, ele deverá participar de um jantar com a comunidade árabe. Abílio irá doar exemplares de “Lembranças minurcas” à Casa da Cultura de Guaxupé.

“O que eu sempre desejei com este livro foi registrar esta grande comunidade árabe em Guaxupé com foco na minha família. Os livros que retratam a imigração árabe detalham as famílias de sucesso e os grandes empreendedores, porém, os trabalhadores, os comerciantes, os ferreiros, estes ficam esquecidos”, diz Abílio.

Serviço

Lembranças Minurcas (ISBN 9788598366685)
Autor: Romeu Abílio
225 páginas
R$30,00
À venda diretamente na editora Edifieo ou pelo site da Livraria Cultura
http://www.livrariacultura.com.br/p/lembrancas-minurcas-historias-de-sirio-libaneses-46128424

Marcos Carrieri/ANBA

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