Recordações de Fayruz

O chefe da missão da Liga dos Estados Árabes no Brasil escreve artigo, na voz de grande artista libanesa, lembrando a face de beleza, cultura e artes do Líbano.

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Por Qais Shqair*

Meu nome é Nouhad Wadih Haddad. Artisticamente conhecida como Fayruz, sou considerada um ícone de um passado glorioso. Em meu país, o Líbano, e nos demais países árabes, precederam-me grandiosos e magníficos ícones, tais como: Wadih Al-Safi, Nasri, Shahroura Al-Wadi, Umm Kulthum, Abdel Wahab, Al-Sunbati, Farid, Abdel Halim, entre outros.

Embora tendo a certeza de que nunca esquecemos, pois o Líbano é inesquecível, estou relatando para me recordar e para lembrar-vos deste país. Não estou escrevendo para lamentar sobre o Líbano e sua realidade, mas para retificarmos os infortúnios que marcaram a sua história. Todos nós amamos o Líbano, intitulado como Suíça do Oriente desde 1960.

Na cidade de Baalbek, eu, Assi e Mansour incendiamos as arquibancadas com canções que se diziam ter revolucionado a música árabe. O festival nessa cidade antiga era o abrigo mais aconchegante onde podíamos anunciar revolução e renovação. Este é o Líbano, tão velho quanto a história, jovem que não envelhece e grandioso como seus ancestrais fenícios que cruzaram os mares há milhares de anos, divulgando sua civilização e aprendendo com as demais culturas, para construir uma identidade civilizacional humana que transcende tempo e espaço, num lugar que é apenas atribuído ao Líbano.

Este é o Líbano no qual eu moro e que mora em mim.  O Líbano de Michael Naima, Gibran e Said Akl. O Líbano da Universidade Americana “Syrian Protestant College”, tida como fonte de conhecimento desde o início até meados do século passado e encarregada pela formação de inúmeros políticos. Líbano é sinônimo de beleza, natureza encantadora e peregrinação de visitantes e turistas. O Líbano é da ciência e dos cientistas. O Líbano é história, então quem ousaria aprofundar sobre as regiões árabes sem mergulhar na história libanesa?

O Líbano que eu recordo é aquele que resistia às agressões desde a Antiguidade, aquele para o qual cantei “Iswaret El-Arous” (Pulseira da Noiva) e “Behebak Ya Lebnan” (Amo-te Líbano), do poderoso melodista Philemon Wehbe, em comemoração à independência e ao restabelecimento de Beirute como a capital da cultura, arte e beleza, após sofrer o risco de uma guerra civil.

O Líbano que eu lembro é aquele em que cantei para Meca: “Eu cantei Meca, seu povo é Sidon, enquanto o Eid preenchia minha alma com muita alegria”. A música contém as mais belas palavras que já foram ditas sobre a Meca “Umm al-Qura”, na qual o grande poeta libanês Said Aqel, descreveu o povo de Meca como generosos anfitriões, na “caça por visitas”, origem do significado de Sidon.

Para Jerusalém, cantei “Zahrat Al-Madain”:
É por ti, cidade da oração, que rezo
É por ti, ó casa esplêndida,
Ó flor das cidades,
Ó Jerusalém, Ó Jerusalém, Ó Jerusalém,
A cidade da oração
Nossos olhos voltados para você diariamente
Eles caminham pelos corredores dos templos
Abraçam as velhas igrejas
E afastam as tristezas das mesquitas.

A música, composta por Mansour e melodia de Assi, foi criada com a intenção de minimizar a dor das feridas da alma que nos afligiram em decorrência da derrota de 1967 (Naksa). A partir das palavras do poeta Said Akl, tive a honra de cantar “Ó Jordânia, terra da determinação, canção dos cervos… As espadas desacertam, e o fio da tua é constantemente certeiro”. Cantei muito, cantei em todos e para todos os países árabes. Não são todos que pertencem a mim?

Na época de Natal e Páscoa, fazia muita questão de cantar minhas canções nas igrejas do Líbano, até que o canto “Laylet Eid, Laylet Eid, El-Layleh Laylet Eid”, nessas festividades, tornou-se o hino do mundo árabe.

Este é o Líbano. Não é único em sua glória, mas sim diferenciado pela paixão de seus irmãos e amantes. Muhammad Abdel Wahhab, com suas encantadoras músicas e melodias, não estava tão distante de nós. Ele costumava vir todo ano ao Líbano passar as férias e ouvir suas melodias cantada por Zaki Nassif e Al-Rahabena. De suas melodias, cantei duas poesias de Gibran: “Sakan Al-Layl” e “Ishar Baad Ishar Ta Yekhlas El-Meshwar”.

Por outro lado, Umm Kulthum cantou a poesia “Hathehi Lailaty” (Esta é a minha noite), do libanês George Jordaq, cuja letra diz: “Depois de um tempo, o amor substitui um lar, e os pássaros deixam seus ninhos, abandonando lares que já não são mais seus refúgios. Já Farid al-Atrash residiu no Líbano por muitos anos e encerrou sua jornada em Beirute, onde presenciamos o maior velório de um artista na história. Resumidamente, este é o Líbano. Ah, se eu pudesse ter um espaço maior para me expressar ainda mais!

O Líbano de hoje não é diferente de ontem, o legado e o espírito são os mesmos. Devemos nos posicionar contra o que fere este “imenso” país. Sei que todos os corações se juntam a ele, ninguém deseja o mal para esta terra. Todos nós sentimos a sua dor e a aflição dos inúmeros libaneses que estão lutando para obter o pão de cada dia. O Líbano clama a vocês silenciosamente. No coração de cada libanês existe a certeza do quanto o Líbano é amado e o desejo de glória e esplendor a ele.

Permito-me apresentar essa mensagem sobre o Líbano. Espero que chegue até vocês!

*O embaixador Qais Shqair é chefe da Missão da Liga dos Estados Árabes no Brasil

 

As opiniões emitidas nos artigos são de responsabilidade dos autores. 

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