Alexandre Rocha, enviado especial
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Túnis – A necessidade de diversificar o comércio entre o Brasil e a Tunísia foi um dos principais temas discutidos ontem (31) durante seminário realizado no hotel Sheraton, em Túnis, que marcou o início das atividades da missão de empresários brasileiros ao Norte da África na capital tunisiana. Embora as relações comerciais estejam crescendo, elas ainda estão muito concentradas em poucos produtos. "Precisamos diversificar as áreas de cooperação econômica", disse o vice-presidente da União Tunisiana da Indústria, Comércio e Agricultura (Utica), Mohamed Sahraoui, na abertura do evento.
As exportações brasileiras para a Tunísia renderam US$ 150 milhões no ano passado, um crescimento de 38% em comparação a 2005, sendo que o principal produto embarcado foi o açúcar. Na outra mão, as exportações tunisianas somaram US$ 82 milhões, um aumento de 40% em relação a 2005, com produtos químicos fosfatados para uso como fertilizantes respondendo pela maior parte dos negócios.
A missão brasileira, que fica até sábado em Túnis, foi saudada como uma iniciativa no sentido de ampliar os setores da balança comercial. Na mesma linha, o diretor-geral adjunto do Centro de Promoção das Exportações da Tunísia (Cepex), Habib Bedhiafi, anunciou que sua organização, junto com a Utica e com o apoio da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, vai organizar uma missão comercial a São Paulo em dezembro.
"Nosso comércio não deve se limitar às exportações de produtos químicos e às importações de açúcar", disse Bedhiafi. "Gostaríamos que todos os nossos amigos aqui se juntassem a este esforço", disse ele à platéia de empresários brasileiros e tunisianos. Ao todo, 118 tunisianos compareceram ao evento.
A missão tunisiana ao Brasil, segundo ele, deverá se concentrar na diversificação da pauta comercial e em parcerias. Como exemplo, ele citou produtos como azeite, tâmaras, vinhos, produtos químicos, material elétrico, além de serviços, como passíveis de exportação ao Brasil.
"Está na hora mesmo de fazer esta missão pois precisamos fazer uma reunião do conselho empresarial Brasil-Tunísia, é o momento certo", disse o vice-presidente de marketing da Câmara Árabe Brasileira, Rubens Hannun. O conselho foi criado em 2002 pela Câmara Árabe e pela Utica e é um dos instrumentos de diálogo bilateral entre os dois países.
Empresários tunisianos já realizaram várias missões ao Brasil. Além disso, o Cepex tem um acordo de cooperação com sua contraparte brasileira, a Agência de Promoção das Exportações e Investimentos do Brasil (Apex). Os dois países mantêm também uma comissão mista bilateral e diversos acordos diplomáticos assinados. "Estamos aqui para ampliar esta base que já existe", disse Hannun referindo-se à missão brasileira ao Norte da África que ele lidera.
No seminário, Hannun acrescentou que as presenças da Câmara Árabe e do governo brasileiro, por meio da Apex, as duas entidades que promovem a missão ao Norte da África, mostra a disposição do Brasil em fortalecer as relações econômicas. "As parcerias são bem vindas", disse Hannun.
Na mesma linha, a embaixadora do Brasil em Túnis, Marília Sardemberg, acrescentou que muito já foi feito para fomentar a cooperação econômica e comercial entre os dois países, mas existe ainda um grande potencial a ser explorado. "Nossas economias permitem um comércio mais diversificado", afirmou.
A consultora de relações internacionais da Apex, Michele Candeloro, por sua vez, disse que a realização da missão brasileira ao Norte da África é um passo importante para desenvolver a economia dos dois países. "Devemos fazer com que essa iniciativa se transforme em uma relação de comércio permanente", destacou. Participou também do seminário o prefeito de Túnis, Abbes Mohsen.
A delegação tem entre seus integrantes representantes de setores diversificados, muitos dos quais ainda não exportam ou vendem pouco para a Tunísia. Participam empresas e entidades dos setores de material de construção, alimentos, madeira e produtos de madeira, móveis, componentes para a indústria de calçados, borrachas sintéticas, sucos de frutas, equipamentos para irrigação, ferramentas e equipamentos médicos e odontológicos.
Investimentos
Além do comércio, outro ponto bastante discutido nos seminários foi o dos investimentos recíprocos. Os participantes tunisianos destacaram que seu país tem um bom ambiente para investimentos. Segundo a diretora da Agência de Promoção dos Investimentos Estrangeiros (Fipa), Amina M’kada, a Tunísia prevê um crescimento econômico de 6% para este ano, sendo que o país oferece facilidades fiscais e burocráticas para os investidores nacionais e estrangeiros.
De acordo com ela, a Tunísia tem o grau de investimento medido por agências internacionais de rating desde 1994 e está acima de países como a Itália e a Grécia no ranking de competividade global do Fórum Econômico Mundial. Ao todo, disse Amina, 2.803 companhias estrangeiras operam no país. "A confiança das empresas é o melhor embaixador para a atração de investimentos", afirmou.
Entre os setores identificados como propícios para os investimentos externos, ela citou os de peças em geral, eletro-eletrônico, têxtil e confecções, alimentos e de serviços terceirizados. Têm plantas industriais no país, segundo ela, empresas como Phillips, Siemens, GE, Benetton, Levi’s, Wrangler, Diesel, Alcatel, Ericsson e IBM.
A questão das parcerias e dos investimentos conjuntos também foi discutida durante a rodada de negócios entre os empresários brasileiros e tunisianos que ocorreu após o seminário. Diego Proença Baisch, representante da Associação Brasileira da Indústria de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), se encontrou com o diretor da Federação Nacional do Couro e Calçados da Tunísia (FNCC), Salem Fekih. As duas entidades já têm um acordo de cooperação.
Como a Tunísia tem acordos comerciais com a União Européia e outros países do mundo árabe e da África, a idéia discutida foi incentivar a exportação de produtos pré-acabados para a Tunísia para finalização e posterior reexportação, por meio de joint-ventures ou não. O representante da FNCC se comprometeu a passar para a Assintecal um estudo de mercado com dados atualizados.

