Casa da Boia: entre história e comércio

Em comemoração aos 120 anos da loja será inaugurado um espaço cultural que terá exposições, acervo histórico, oficinas e palestras. Comandada pela família Rizkallah, loja é também parte da história dos árabes no Brasil.

Bruna Garcia Fonseca
bruna.garcia@anba.com.br

São Paulo – Uma viagem no tempo é a sensação ao entrar no casarão da rua Florêncio de Abreu 123, no coração da cidade de São Paulo, no Centro. O imóvel de 1909, tombado pelo Patrimônio Histórico Municipal, abriga uma loja com ares de museu e conta um pouco da própria história. A Casa da Boia, que funciona ali, está para completar 120 anos.

Para comemorar a data, a família Rizkallah, proprietária da empresa, vem transformando a loja e o segundo andar do casarão em um espaço cultural aberto ao público. A inauguração acontece dia 14 de maio, com a exposição “Entre papéis, fotografias e objetos: o acervo de Rizkallah Jorge Tahan”, que exibirá documentos da casa e de seu fundador de origem síria, como o certificado de nacionalização do artesão, fotos antigas e até um catálogo artesanal dos produtos vendidos na loja há cerca de 100 anos.

Esta reportagem visitou a Casa da Boia e conversou com o neto de Rizkallah Jorge, Mário Rizkallah, que hoje comanda a empresa; com Adriana Rizkallah, artista plástica, diretora da Casa da Boia Cultural e esposa de Mário, e também com Renata Geraissatti, historiadora e curadora do projeto. “A exposição terá quatro frentes, contando a história pessoal do fundador e seu trabalho na urbanização, na filantropia e na Casa da Boia”, disse Geraissatti.

(continua após a galeria)

“A Casa da Boia tem história de família, de migração, da empresa, do casarão, e ao mesmo tempo, existe um espaço para arte e cultura”, disse Adriana. Segundo ela, o projeto de ressignificação da Casa vem acontecendo desde 2014, começando pela forma de apresentação do que é vendido na loja de forma mais limpa e sensorial. “Agora as pessoas podem tocar nos produtos e interagir com eles, a disposição está mais organizada, e o tubo de cobre, material emblemático da empresa, faz o elo entre o passado e o presente, permeando toda a loja como decoração e conduzindo essa história”, explicou.

A artista contou que o atendimento no balcão era marca registrada da loja, e buscou evidenciá-lo, colocando o balcão em posição de destaque. “O espaço cultural é a loja toda”, disse Adriana, que pretende, num futuro próximo, abrir um café no segundo andar do casarão. A ideia é, com o tempo, oferecer oficinas, palestras, workshops e outras exposições e eventos artísticos no local. “Com esse trabalho, queremos promover um resgate ao ofício, à arte, ao artesanal, e estamos nos reconectando com todas as comunidades que orbitam a Casa da Boia, os artistas, arquitetos, artesãos, gravadores, transformando o espaço em um ambiente agregador”, continuou.

Ao entrar na loja, o cliente se depara com os mais variados produtos hidráulicos, elétricos, de jardinagem e utensílios de cozinha à venda, convivendo com objetos históricos, placas antigas e a própria arquitetura da loja, que fazem do local um verdadeiro museu no comércio.

O negócio, que começou como indústria de fundição e comércio, hoje distribui e comercializa metais não ferrosos, entre outros itens para construção e artesanato. “Nosso negócio já não tinha a mesma agilidade de distribuição em relação a outras empresas maiores, não tínhamos como competir com a indústria”, disse Mário. A Casa da Boia distribui o material bruto para a pequena indústria e artesãos, e depois vende o produto final na loja e no atacado.

História

Sírio de família armênia, Rizkallah Jorge chegou ao Brasil em 1895 e já era artesão de metais em sua terra natal. Ele, porém, começou a trabalhar no País como faxineiro em uma fundição, pois ainda não falava português. Em 1898, já falando o idioma, abriu seu próprio negócio, a primeira fundição de cobre de São Paulo, e vendia peças de decoração feitas com o material. Em 1909 inaugurou a loja e fundição no casarão que abriga o negócio até hoje.

Rizkallah foi um importante membro da comunidade árabe e é muito querido também pela comunidade armênia em São Paulo. Ficou conhecido, além do trabalho artístico e do tino para os negócios, por sua generosidade e atuação na filantropia, e por sua contribuição urbanística na cidade.

Serviço

A exposição poderá ser vista de 14 de maio a 29 de junho, de segunda à sexta-feira, das 10h às 16h30, e a entrada é gratuita. Dentro da programação de aniversário está também uma palestra com a historiadora Renata Geraissatti sobre “Um artífice na urbanização paulistana: a atuação de Rizkallah Jorge em São Paulo, de 1895 a 1949”, dia 6 de junho, das 14h às 16h. Para participar basta se inscrever no site da loja.

Sérgio Tomisaki/ANBA
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