São Paulo – No Jardim das Mil e Uma Flores, um dos 18 ambientes criados para a última Expoflora, evento tradicional realizado em Holambra, os convidados podiam entrar, passear, tirar foto com grandes asas de madeira ao fundo, sentir o perfume de plantas aromáticas, se perder em tapetes voadores feitos de flores e admirar esculturas de madeira, como a “Maravilhas de Dubai”. Criada especialmente para a mostra, a peça reúne referências como as dunas do deserto, o cavalo árabe, o falcão, o Burj Al Arab e o Burj Khalifa. O oásis com mil e uma plantas (antúrios, bromélias, orquídeas, calateias, samambaias, palmeiras, entre outras) inspirado nos Emirados Árabes Unidos tem como criador o artista plástico Francisco Suelo.

Nascido dentro de apartamento em Campinas, hoje ele vive em Jaguariúna em uma zona rural, onde está seu ateliê, cercado por fauna e flora, fonte constante de inspiração. Durante mais de vinte anos, Francisco pertenceu ao mundo corporativo; trabalhou no ramo de bebidas, remédios e químicos. No auge do estresse, e sem ver nenhum retorno positivo naquilo que fazia, ouviu da psicóloga que tinha que fazer mais exercícios e ter um hobby. “Eu já curtia foto e moto, mas ainda não era isso. De uma forma meio aleatória, decidi mexer com madeira”, conta.
Começou com pequenas peças como cinzeiros e tábuas de madeira. E, o mais importante, com o intuito de desestressar. O passatempo começou a ficar sofisticado e ele começou a investir tempo e dinheiro em ferramentas melhores. Quando se sentiu pronto, foi oferecer suas peças a uma loja da região. Ouviu a seguinte recomendação: “Suas peças são boas, bem-acabadas, mas você não tem nome. Vai participar de exposições e feiras.” Ele foi. Até consultoria ele contratou. Passou a colocar mais energia nas peças; se não gostava, reinventava ou, decisão mais drástica, queimava. Passou a varar madrugadas em busca da peça perfeita.

Aumentou o portfólio – mesas, luminárias, esculturas de parede – e passou a ser vendido em lojas de decoração, fez parcerias com arquitetos. Há quatro anos, pediu demissão e o que era um hobby virou a profissão principal. A grande virada aconteceu quando ele participou da Expoflora pela primeira vez, em 2024. Ali se viu, além de marceneiro e artistas, paisagista. E da mesma forma autodidata que o fez mexer com madeira, se descobriu bom também com as plantas. Inventivo e versátil, quando ele não encontra a ferramenta adequada, ele mesmo a cria.
Filho de um mestre de obras, talvez tivesse ali no sangue algo de criar ambientes e lidar com ferramentas. O que ele também tinha no sangue e não sabia, descobriu em uma conversa com a mãe, é que o avô paterno que ele não conheceu era madeireiro, derrubava árvores na região de São José do Rio Pardo, também no interior do estado, e transportava as toras a cavalo. “Talvez a escolha pela madeira não tenha sido tão aleatória assim”, reflete.

Foi a Expoflora que o projetou – deu o nome que aquela primeira lojista aconselhou – e dali ele foi para a Design Week e a Casa Cor. Na Expoflora desse ano, dos 18 ambientes, 12 tinham peças suas. Ver as pessoas apreciando o espaço pensado por ele, tirando fotos com as asas, com as esculturas e com a árvore da vida de três metros de altura e seis de largura, é o retorno sonhado que ele não tinha no mundo corporativo.
Hoje, entre peças replicáveis e únicas, seus trabalhos podem chegar a todo tipo de público: de passarinhos de madeira para jardim, de R$ 15, a esculturas feitas sob encomenda de R$ 15 mil. Ele também recebe encomendas muito especiais, como a da mulher que foi obrigada pelo condomínio, por questões de segurança, a cortar a árvore que tinha plantado com o pai na infância e pediu a Francisco que fizesse dela uma mesa, em memória do pai falecido. A única exigência que ele faz é que se respeite o tempo do processo: às vezes pode levar meses.
“Eu uso muita madeira nobre, como angico, pau-ferro e ipê, que compro de forma legal, com nota, da prefeitura, e a partir do que tenho em mãos crio algo novo. Do formato da madeira vem a inspiração da peça”, conta o artista, que se prepara para conhecer os Emirados em 2027 e voltar ainda mais inspirado.
Hoje, mesmo que ele vire uma noite em busca da peça perfeita, o estresse profissional já não é problema. “Eu ganhava bem no mundo corporativo, mas gastava com remédios e terapia”. Seu lema no Instagram, onde soma milhares de seguidores, é “devolvo vida na madeira”. De uma certa forma, a madeira devolveu vida a Francisco.
Vai lá no Instragram do Fransico!
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Reportagem de Débora Rubin, em colaboração com a ANBA.


