São Paulo – Descendente de árabes e uma das vozes da nova geração de escritores brasileiros, Marcelo Maluf lançou, no mês passado, seu primeiro livro de poemas. O paulista, que é vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti com um romance inspirado em sua história familiar libanesa, explora agora uma nova vertente de sua produção literária com a publicação de “O Livro Místico das Coisas Ordinárias”, pela editora Arte & Letra, de Curitiba, no Paraná.
Os poemas do livro foram escritos ao longo dos anos e ficaram guardados até que Marcelo percebeu um fio condutor entre quase todos eles: sua própria busca espiritual, alimentada por diferentes correntes de pensamentos religiosos e experiências com o sagrado. Criado em família católica, o escritor se aproximou, entre outros, do budismo zen e tibetano e do sufismo, vertente mística do Islã na qual conheceu a poesia de Rumi, renomado poeta do Islã. “Esses poemas são fruto dessa experiência, uma experiência mais intelectual do que praticante”, diz, sobre a busca espiritual que é pano de fundo do livro. “Eu fui bebendo de todas as fontes”, afirma.

A poesia de Marcelo Maluf é um convite a ver o sagrado nos detalhes da vida, assim como ele observa em grandes mestres espirituais, que não optaram por suntuosidade, luxo ou poder. Desse olhar ao pequeno detalhe vem o título do livro. “O ordinário é o comum, é o corriqueiro. O livro inteiro vai falar dessas questões, que são aquilo que a maioria de nós não entende como algo sagrado. Eu defendo a tese de que o sagrado é o cotidiano, o sagrado é o corriqueiro, o sagrado é o lavar a louça, o sagrado está nesses momentos. Você não precisa procurar o sagrado na elevação”, explica o escritor.
“Procuro Deus nas coisas mínimas, nos pedacinhos, nos corroídos. Outro dia o encontrei metamorfoseado em traça, devorando o livro de Jó”, diz um trecho de um poema. Em outro poema, está: “Reverencio este copo que acolhe a água que bebo e a sua disposição em servir e repetir, todo dia, a sua função”. Em outra composição, lê-se: “Sou uma cebola mística e faço chorar homens com facas nas mãos. Sou sem tempo, sem corpo, sem alma. Não me preocupo com Galliano ou com a Bolsa de Tóquio e nada sei sobre a eternidade”.
No posfácio do livro, a escritora e crítica literária brasileira Mariana Ianelli situa a obra de Marcelo Maluf na contracorrente das literaturas centradas no eu e a chama de um abraço aos anônimos desabrigados, em uma referência ao olhar para o outro presente nos escritos. “A vida viva e dolente, tão miserável quanto majestosa em sua nudez (de corpo e alma), que Marcelo ama e abraça nestas páginas, comporta também um silêncio maior do que as palavras. Um silêncio apenas rumoroso de rios e ventos”, escreve Mariana.
Marcelo Maluf se relata um poeta bissexto. “Sempre escrevi pouca poesia, mas desde que eu comecei a escrever, a poesia sempre esteve comigo como leitor e como escritor”, afirma. Tanto que os poemas estavam engavetados, o último feito há cerca de dez anos, pelas contas do escritor. Há cerca de quatro anos, Marcelo decidiu juntar a sua poesia e percebeu que os poemas ornavam. Releu todos, retrabalhou alguns, colocou em ordem, e falou deles em 2024 a um editor da Arte & Letra, editora boutique.
Para o trabalho em poesia ainda único no conjunto da sua obra, formada por cinco livros adultos de romance e contos e por 18 infanto-juvenis, Marcelo deu um caráter singular ao escolher a editora. A Arte & Letra produz o livro de forma artesanal, em prensa tradicional, com capa dura e numerado. Os exemplares um, dois e três, por exemplo, estão com o próprio Marcelo. “Eu queria uma edição bonita, eu queria algo que fosse um mimo”, diz. O livro já pode ser comprado de forma online e em livrarias físicas.
Neto e escritor
Marcelo Maluf publica livros desde 2008 e estreou no mercado editorial com literatura para crianças e jovens, mas foi o romance adulto A Imensidão Íntima dos Carneiros, de 2015, que lhe deu notoriedade nacional. Além de vencer o Prêmio São Paulo de Literatura em 2016, a obra foi finalista do mais importante prêmio literário do Brasil, o Jabuti, também em 2016. O livro foi escrito a partir da história do avô libanês, que se mudou para o Brasil depois que seus irmãos foram mortos pelo Império Turco Otomano, no Líbano. A revelação desse segredo de família foi o pontapé para que Marcelo escrevesse a obra.
O escritor tem origens síria e libanesa e criou outro romance inspirado em sua história familiar árabe, em 2023: “Os últimos dias de Elias Ghandour”. O enredo gira em torno da vida de um comerciante descendente de sírios com loja de tecidos na rua 25 de Março, em São Paulo, que reflete sobre os sonhos que não realizou ao longo da vida. O livro todo é narrado em cima do palco como se Elias estivesse falando com os espectadores, em um intento do autor de dar um último momento no palco para o seu antepassado.
Graduado em Arte-Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e com mestrado em Artes também na Unesp, além de escrever livros, Marcelo atua como professor de escrita criativa dando oficinas e cursos em instituição de ensino e organizações e de forma independente. Ele também faz palestras e media clubes de leitura. Nascido em Santa Barbara D’Oeste, atualmente Marcelo mora em São Paulo e é casado com Daniela Pinotti, com quem escreveu alguns dos seus livros infanto-juvenis.
Ficha técnica:
Título: O Livro Místico das Coisas Ordinárias
Autor: Marcelo Maluf
Editora: Arte & Letra
Páginas: 76
ISBN: 9788571620391
Preço: R$ 62 (site da Arte & Letra)
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