São Paulo – A partida final da Copa do Presidente dos Emirados Árabes Unidos, realizada em 22 de maio na capital, Abu Dhabi, tinha brasileiros em campo. Não apenas jogadores defendendo as cores das duas equipes em um jogo em que o Al Ain venceu o Al Jazira por 4 a 1, mas no controle da partida: o árbitro era Raphael Claus, que tinha a seu lado os assistentes também brasileiros Fabrini Bevilaqua e Nailton Oliveira. A participação deles marcou mais uma etapa de um intercâmbio do País com o mundo árabe.
Em entrevista à ANBA, o presidente da Comissão de Arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Rodrigo Cintra, afirma que houve seis designações para árbitros e assistentes brasileiros atuarem em partidas no mundo árabe nos últimos 12 meses. O envio de profissionais é mais comum com os Emirados Árabes Unidos, mas, em 2023, por exemplo, Anderson Daronco atuou no Campeonato Saudita de Futebol, que também já contou com a arbitragem de Raphael Claus.

“Pelos relatos que eles nos passaram antes da designação, a President’s Cup é uma das competições mais importantes de todo o Oriente Médio. A gente ficou muito feliz de poder designar essa equipe”, afirma Cintra. “Isso mostra a confiança, a relevância, a seriedade da nossa arbitragem. E essa última foi, para mim, a mais importante de todas, porque essa foi a final da Copa do Presidente”, diz. “Em breve, provavelmente, quem sabe, também traremos árbitros de lá para cá. É um interesse nosso”, diz.
Segundo Cintra, tal intercâmbio se tornou tão importante que árbitro brasileiro do sistema VAR (árbitro de assistência por vídeo, na sigla em inglês), Igor Benevenuto, acabou se mudando para os Emirados. “Em uma dessas idas, ele acabou ficando por lá. Fez a temporada passada e agora já renovou para a segunda temporada. Ele era [árbitro] FIFA aqui no Brasil. No primeiro ano, eu abri a concessão para ele, para ele manter o escudo da FIFA até ele definir se ia ficar lá ou não. Depois ele resolveu ficar lá de vez”, diz Cintra. O escudo Fifa é vinculdo à confederação de arbitragem de origem do profissional.
“Fez um novo contrato. Ele abriu mão do escudo FIFA e a gente tem contato frequente. A gente conversa muito. Inclusive, hoje, ele é uma referência para eles no ambiente do video assistent referee (VAR)”, diz o presidente da Comissão de Arbitragem da CBF.
Para atuar em outro país e apitar jogos entre seleções, o árbitro e os assistentes precisam estar nos quadros da Federação Internacional de Futebol (FIFA). O intercâmbio é feito entre confederações e não precisa ser intermediado pela FIFA. A confederação que recebe o profissional se responsabiliza pelos custos de transporte, alimentação, hospedagem e honorários para que ele trabalhe na partida de futebol.
Pressão de uma partida de futebol
As regras do esporte não mudam, porém, dentro do gramado, há diferenças entre apitar um jogo aqui e lá. “Aqui um jogo de terceira divisão, uma série C do Campeonato Brasileiro, já tem um grau de competitividade que em outros países dificilmente a gente vai encontrar. É muita ‘manha’, é muita garra, é muita força. E técnica. A técnica também é forte. A gente entende que hoje um árbitro brasileiro apita em qualquer lugar do mundo”, diz Cintra. Ele explica que há uma grande expectativa e uma grande pressão sobre o futebol e, por consequência, sobre os árbitros. Também avalia que, nos países árabes, há mais disciplina dentro de campo.
“Nós temos um ápice dessa questão em que o árbitro tem que ser preparado não só técnica ou fisicamente, mas psicologicamente de tamanha importância que eu diria que se tornou um terceiro pilar de preocupação tão importante quanto o físico e o técnico”, afirma.
“A gente consegue detectar se um árbitro é bom não quando a temperatura e a pressão estão normais, mas, sim, quando foge um pouco da normalidade. Aí que nós vamos ver no imprevisto, em situações extremas, em pressão exacerbada, a qualidade do árbitro”, diz.
Também em entrevista à ANBA, o próprio Claus recorda que seu primeiro contato nos Emirados Árabes Unidos ocorreu ainda em 2021. Ele define como um “privilégio” apitar fora do Brasil. Claus será um dos três brasileiros na Copa do Mundo da Fifa, que começa na próxima quinta-feira (11) e será disputada no México, Canadá e Estados Unidos. Ao lado dele como árbitros estão, também, Ramon Abatti Abel e Wilton Pereira Sampaio. No total, o Brasil tem a maior comissão de árbitros e assistentes do torneio ao lado da Argentina, com nove profissionais.
“É um privilégio receber uma designação dessas. Uma troca de experiência muito boa da Comissão Nacional da CBF com eles. A federação local poderia analisar e escolher quem eles quisessem no mundo e foram olhar o trabalho realizado aqui no Brasil. É muito gratificante, ainda mais numa final tão importante que foi a Copa do Presidente dos Emirados Árabes Unidos”, afirma Claus, que recordou que desde 2021, os convites “para jogos importantes” se tornaram mais frequentes.
Na Copa, torcida pela seleção e pelos árbitros do Brasil
Agora Claus e Cintra estão com todas as atenções dedicadas à Copa. “A expectativa para a Copa do Mundo é a melhor. Não tem jeito. Realizamos um trabalho forte, com muitos seminários, aulas teóricas e práticas junto à FIFA e à CBF. Fazer o melhor a cada dia e chegar pronto para representar o Brasil neste mundial. Não escolhemos partida, pois toda partida tem uma história diferente. O importante é estar pronto, preparado. E estamos”, diz Claus.
“Eu torço pela seleção brasileira, claro. Minha primeira torcida é pela seleção, a minha segunda torcida é pela seleção e a terceira é pela seleção. Mas, em uma quarta possibilidade, acreditamos que de uma forma ou de outra nós teremos brasileiros na final da Copa”, diz Cintra. A seleção brasileira não chega a uma semifinal de Copa do Mundo desde 2014, mas os árbitros, sim. Sampaio apitou a partida em que a França derrotou a Inglaterra por 2 a 1 para ir à final da Copa do Catar, em 2022, contra a Argentina, que se tornou campeã.


