São Paulo – Em 2018, o paranaense Gustavo Castro esteve na Palestina, fez filmagens e colheu relatos de moradores, em uma das primeiras ações para colocar em pé o documentário que ele tinha em mente, sobre uma Palestina diversa. No segundo semestre deste ano, o filme dirigido por Gustavo vai ganhar as salas comerciais de cinema no Brasil, mas não chegará ao público com a proposta inicial de abordagem e sim transformado pelos acontecimentos que assolaram a Palestina desde então.
“Notas Sobre um Desterro” é um documentário produzido a partir do olhar de um cineasta que colheu uma realidade in loco e acompanhou depois, em uma nova perspectiva, mas também sua, desde o Brasil, o período ainda mais sombrio que chegou àquela terra. “O que era para ser um filme sobre possibilidades virou uma reflexão brutal sobre o apartheid e a colonização da Palestina”, disse Castro.

Uma das bases do tom analítico do documentário, um longa-metragem de 80 minutos, é a narração em primeira pessoa do diretor. O filme traz três tempos: o da viagem, o histórico e o atual. O olhar do diretor conduz o espectador em todos esses períodos, da Cisjordânia de 2018 com dificuldades de deslocamento, ocupação israelense e a tentativa de resistência, também em arquivos históricos e vídeos compartilhados nas redes sociais pelas próprias vítimas palestinas dos ataques que ocorreram após outubro de 2023.
Cineasta documentarista com 20 anos na área, Gustavo já tinha trajetória no cinema quando se deparou com o tema da Palestina, há cerca de 14 anos, a partir da proximidade com o atual presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), Ualid Rabah, que mora no Paraná. “No mundo de hoje, onde o colonialismo se dá?”, questiona Gustavo. A Palestina era um caminho provável para quem abordava o colonialismo em seus trabalhos. Em 2017, o cineasta também havia filmado documentário sobre a imigração árabe no Brasil.
A viagem para a Palestina foi viabilizada por um convite de uma gência de viagens para a Terra Santa para que Gustavo acompanhasse um grupo e realizasse filmagens. E foi a família de Ualid Rabah que se dispôs a recebê-lo durante aquela viagem para falar sobre a experiência da Palestina ocupada. “O depoimento mais marcante é o da sogra da irmã do Ualid, uma refugiada de 1958, uma senhora que nos recebeu em sua casa e que contou como foi o exílio, quando eles foram mandados para o deserto da Jordânia”, diz.
O que era para ser um filme sobre possibilidades virou uma reflexão brutal sobre o apartheid e a colonização da Palestina.
Gustavo Castro
Esse tempo de exílio está no relato de vida dessa entrevistada e nos primeiros registros por imagens de palestinos refugiados no deserto, em 1948. “As imagens atuais, de alguma maneira, são muito parecidas também com o que aconteceu (naquele período), as imagens de pessoas saindo das suas casas, indo para outros lugares, morando em tendas”, explica o cineasta, evidenciando que essa é uma história que se repete ao longo da vida e das gerações de palestinos.
“Notas sobre um Desterro” ficou pronto no ano passado, estreou no Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, e desde então vem percorrendo festivais no Brasil e no exterior. No mundo árabe, o filme foi exibido na Jordânia, no Festival de Cinema de Direitos Humanos Karama. No 19º Festival Internacional de Documentários do Irã, a obra ganhou o Prêmio Especial do Júri de Melhor Documentário. Gustavo afirma que esse reconhecimento significa muito por causa da história do Irã no campo das artes, especialmente no cinema. Ele entende que ter sido selecionado para vários festivais também é uma chancela para o filme.
Com a seleção em um edital público de distribuição do Ministério da Cultura do Brasil, agora o próximo passo é que o filme seja distribuído no circuito comercial. Também estão sendo realizadas exibições em universidades, sindicatos e outros locais desse perfil no Brasil e no exterior. “O que a gente quer é exibir para a maior quantidade de público possível, que o filme encontre o seu público, independente se é dentro de uma sala de cinema ou não”, afirma Gustavo.
Gustavo Castro
“Notas sobre um Desterro” é o primeiro longa-metragem de Gustavo. O paranaense dirigiu 12 filmes, todos documentários curtas-metragens, e participou de vários projetos cinematográficos como diretor de fotografia, em um total de aproximadamente 30 obras, entre as suas e as de terceiros. Formado em Administração pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), ele se voltou para o cinema quando fez viagens pela América Latina durante o período da faculdade, se identificou com causas sociais e de direitos humanos e quis tratar delas, primeiro com a fotografia e depois com documentários próprios.
O filme sobre a Palestina tem roteiro de Gustavo Castro, Juliana Sanson e Ticiano Monteiro. A fotografia também é de Gustavo, assim como a produção junto com Juliana Sanson. A montagem é de Ticiano Monteiro, o desenho de som de Ulisses Galetto, a música de Grace Torres, a direção de arte de Jonas Sanson. O filme é produzido pela Fabulário Filmes, que tem como sócios Juliana e Gustavo.
Na última semana, Gustavo Castro foi recebido na Câmara de Comércio Árabe Brasileira, na sede da instituição na capital paulista, pela diretora de Marketing, Silvia Antibas, e pelo vice-presidente de Relações Internacionais e secretário-geral, Mohamad Orra Mourad.
Veja o trailer:
Leia também:
Cinco filmes sauditas para ver durante as férias


