Por Mohamed Zoghbi*
Recentemente, o relatório “State of the Global Islamic Economy Report”, em sua versão 2025/2026, divulgou novos números do mercado Halal. São dados que merecem a nossa atenção porque ajudam a dimensionar não apenas o tamanho, mas também a diversificação da economia islâmica global.
Somados os seis principais setores de consumo, os gastos chegaram a US$ 2,60 trilhões em 2024 e devem alcançar US$ 3,56 trilhões até 2029, o equivalente a uma participação de 12,6% no mercado consumidor mundial relacionado a produtos Halal.
Os alimentos continuam ocupando posição central nesse universo. Em 2024, o segmento movimentou US$ 1,53 trilhão e a expectativa é que chegue a US$ 2,06 trilhões em 2029. A dimensão desse mercado traduz uma necessidade cotidiana de uma população muçulmana global que busca produtos compatíveis com seus princípios religiosos e, ao mesmo tempo, cada vez mais atenta à qualidade, à procedência e aos processos de produção.
É, porém, no turismo voltado ao público muçulmano que se encontra o ritmo mais acelerado de expansão. Os gastos, estimados em US$ 249 bilhões em 2024, poderão atingir US$ 424 bilhões até 2029. Além da retomada e consolidação das viagens no período pós-pandemia, esse avanço acompanha uma oferta cada vez mais estruturada de destinos, hotéis e serviços preparados para atender às necessidades e aos valores desse público.
Outros segmentos
O mercado Halal se estende hoje por praticamente todas as dimensões da vida do consumidor. A moda modesta deve avançar de US$ 347 bilhões para US$ 444 bilhões até 2029, enquanto mídia e entretenimento passam de US$ 276 bilhões para US$ 364 bilhões, refletindo o espaço crescente ocupado por conteúdos, narrativas e experiências digitais voltados ao público muçulmano.
A mesma tendência aparece nos setores ligados ao cuidado pessoal e à saúde. O mercado de produtos farmacêuticos Halal deverá crescer de US$ 112 bilhões para US$ 146 bilhões, enquanto o de cosméticos Halal deve passar de US$ 92 bilhões para US$ 124 bilhões no mesmo período. São avanços associados não apenas ao aumento dos gastos nessas categorias, mas também a um consumidor que busca produtos de maior valor agregado e critérios que aproximam os princípios Halal de atributos como ética, transparência e formulações clean-label.
Há ainda uma dimensão fundamental para compreender a força desse ecossistema. Para além dos setores de consumo, as finanças islâmicas movimentaram US$ 5,99 trilhões em 2024 e poderão chegar a US$ 9,72 trilhões em 2029. A escala desses ativos evidencia que estamos diante de uma economia que não se resume a categorias isoladas de produtos e serviços, mas de um sistema cada vez mais amplo, diversificado e integrado, capaz de gerar oportunidades em diferentes mercados e regiões do mundo.
A análise e o futuro
Segundo os editores do relatório, é preciso entender o que está por trás da força do mercado Halal: “A economia islâmica não cresce imitando outros modelos. Ela cresce ao se fundamentar em algo genuíno: uma visão de mundo que sempre considerou a gestão responsável dos recursos, a dignidade nas trocas e a prosperidade compartilhada como pilares fundamentais, e não meras aspirações”, disseram. Em um cenário de desgaste da confiança nas instituições convencionais, acrescentam, essa autenticidade se transforma em uma vantagem competitiva.
Por isso, o crescimento da economia Halal não deve ser compreendido apenas pelo aumento do consumo ou pela abertura de novos mercados. Estamos falando da consolidação de um ecossistema baseado em princípios que atravessam toda a cadeia econômica — da origem dos produtos às relações comerciais, do investimento ao consumo.
Para países como o Brasil, compreender esse movimento é fundamental. Nossa posição como o maior fornecedor de alimentos Halal nos oferece uma base extraordinária, mas o potencial é muito maior. Há espaço para avançarmos em produtos alimentícios industrializados, turismo e cosméticos, para dar alguns exemplos. Participar plenamente dessa nova etapa significa deixar de enxergar o Halal apenas como requisito para acessar determinados mercados e compreendê-lo como parte de uma economia global que se torna mais estruturada, sofisticada e estratégica.
Fica o alerta: os números apresentados neste relatório apontam para 2029. Mas as decisões que determinarão quem ocupará espaço nesse mercado precisam ser tomadas agora.
*Mohamed Zoghbi é graduado em Direito pela Universidade de Mogi das Cruzes, em 1983. Atualmente, é presidente do Grupo FAMBRAS e da FAMBRAS Halal Certificadora e vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil – FAMBRAS.


