Em um comércio internacional cada vez mais conectado e exigente, competir globalmente já não depende apenas de capacidade produtiva, qualidade e preço. O acesso a novos mercados passa também pela compreensão de diferentes consumidores, pelo atendimento a requisitos específicos e, sobretudo, pela capacidade de construir confiança entre empresas, países e culturas.
É nesse ambiente que a certificação Halal assume uma dimensão cada vez mais estratégica para o Brasil.
Historicamente associada à proteína animal, a conformidade Halal acompanha hoje uma economia muito mais ampla. Alimentos processados, ingredientes, açúcar, grãos, cosméticos, produtos farmacêuticos, químicos e outras cadeias produtivas integram um ecossistema que conecta indústrias a consumidores em diferentes partes do mundo.
Mais do que uma exigência religiosa ou documental, o Halal vem se consolidando como uma linguagem internacional de confiança e conformidade, capaz de aproximar mercados com diferentes características culturais, regulatórias e comerciais.
Da exigência à estratégia de internacionalização
O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma posição relevante no fornecimento de produtos para países árabes e mercados de maioria muçulmana. Essa trajetória resulta não apenas da capacidade produtiva brasileira, mas também da adaptação da indústria às exigências e expectativas dos mercados de destino.
Agora, uma nova etapa se apresenta.
Para empresas que desejam ampliar sua presença internacional, a pergunta não deveria ser apenas “preciso da certificação Halal?”, mas também “para quais mercados quero crescer e como devo preparar minha empresa para acessá-los?”
Quando incorporada ao planejamento de internacionalização, a conformidade Halal permite conhecer antecipadamente requisitos, avaliar matérias-primas, fornecedores, processos, armazenamento, logística e controles internos.
A certificação deixa, assim, de ser apenas uma resposta a uma demanda específica de um comprador e passa a integrar uma estratégia de competitividade, diversificação de destinos e expansão internacional.
Uma ponte de confiança
Existe ainda uma dimensão que ultrapassa os processos industriais.
Do outro lado de uma operação comercial existe um consumidor que precisa confiar não apenas no produto, mas também na cadeia que o colocou no mercado.
Para o consumidor muçulmano, essa confiança possui uma dimensão religiosa e cultural fundamental. Ao mesmo tempo, atributos associados à rastreabilidade, transparência, integridade e controle dos processos dialogam com expectativas cada vez mais presentes também entre consumidores não muçulmanos.
Atuar nesse universo exige, portanto, mais do que emitir certificados. Exige conhecimento técnico, compreensão cultural, relacionamento institucional e capacidade de interpretar diferentes ambientes regulatórios.
É nessa interseção que a certificação Halal desempenha um papel relevante: funcionar como uma ponte entre a capacidade produtiva brasileira, o mundo árabe e os demais mercados consumidores de produtos Halal.
E essa ponte precisa ser construída sobre credibilidade.
Uma certificação em transformação
O próprio setor Halal passa por uma profunda transformação.
A economia tornou-se mais internacional, profissionalizada e tecnicamente exigente. Países importadores vêm fortalecendo seus sistemas de reconhecimento, acreditação e supervisão, enquanto novas indústrias e categorias de produtos passam a enxergar oportunidades nesses mercados.
Essa evolução exige também uma nova geração de organismos de certificação.
Na CDIAL Halal, temos acompanhado esse movimento por meio de uma transformação corporativa baseada em governança, profissionalização, tecnologia, qualidade, reconhecimento internacional e desenvolvimento de novas competências.
Não se trata apenas de acompanhar o crescimento do mercado, mas de preparar a organização para as demandas que definirão os próximos anos da economia Halal.
Isso significa fortalecer relações com organismos e mercados internacionais, acompanhar continuamente a evolução das normas e dos sistemas de acreditação, ampliar competências para diferentes cadeias produtivas e oferecer às empresas brasileiras uma estrutura compatível com um ambiente global cada vez mais sofisticado.
Nossa visão é que uma certificadora moderna não deve representar apenas a etapa final de uma exportação. Ela deve compreender a jornada internacional das empresas e contribuir para que estejam preparadas para acessar mercados com segurança, previsibilidade e credibilidade.
O próximo capítulo do Halal brasileiro
No comércio exterior, confiança possui valor econômico.
O Brasil já possui escala produtiva, diversidade industrial e uma relação comercial histórica com o mundo árabe. O próximo passo é transformar essas fortalezas em uma presença ainda mais diversificada na economia Halal internacional, preparando novas empresas, produtos e setores para competir globalmente.
O futuro do Halal brasileiro, portanto, não será construído apenas pelo aumento dos volumes exportados. Será construído também pela capacidade de agregar confiança, conhecimento e inteligência às relações comerciais.
Nesse cenário, a certificação desempenha um papel que ultrapassa o produto: aproxima culturas, traduz requisitos, reduz distâncias e conecta empresas a novos mercados.
Para a CDIAL Halal, evoluir junto com esse mercado significa assumir a responsabilidade de contribuir para que a capacidade produtiva brasileira encontre, no mundo árabe e nos demais mercados Halal, não apenas compradores, mas parceiros que reconheçam no Brasil um fornecedor confiável, preparado e conectado às novas exigências da economia global.
É essa ponte que queremos continuar construindo.
* Walid Youssef El Orra é
diretor-executivo da CDIAL Halal
As opiniões emitidas nos artigos são de responsabilidade dos autores


