Missão brasileira no Egito descobre poço em tumba de Tebas

Grupo de arqueólogos liderado por brasileiros retomou as atividades na Necrópote Tebana, em Luxor, em dezembro e deve ficar até o fim de janeiro nesta que é a quinta etapa do projeto. É possível acompanhar o trabalho pelas redes sociais.

Bruna Garcia Fonseca
bruna.garcia@anba.com.br

São Paulo – A quinta etapa da missão arqueológica brasileira no Egito liderada pelo doutor em Arqueologia Egípcia José Roberto Pellini, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), teve início em dezembro de 2019 e terminará em 25 de janeiro, e já fez uma nova descoberta na Tumba Tebana 123 (TT-123), na Necrópole Tebana, em Luxor.

Um poço inédito de cerca de 1,5 metro de profundidade foi descoberto dentro da tumba e provavelmente leva a uma câmara funerária com diversos materiais. “Esse ano a nossa proposta era trabalhar na escavação do que a gente chama de Sala das Estátuas, é o ponto mais interno da tumba e onde ficavam as estátuas do proprietário da tumba, Amenenhet, e de Enuit, que era a mulher dele. Ao começar a limpar essa sala, descobrimos a existência de um grande poço, começamos a escavar e acabamos encontrando uma nova câmara embaixo dele, então temos esse poço escavado na rocha, no chão da Sala das Estátuas. Ele já tem aproximadamente 1,5 metro e a gente encontrou uma sala escavada na rocha, que pode ser onde esteve o sarcófago de Amenenhet”, disse Pellini à ANBA, de Luxor.

Entre os objetos que estão sendo encontrados, há uma quantidade muito grande de pedaços de sarcófago, inclusive um com o nome do proprietário da tumba e diversos ushabts, que são estatuetas funerárias ou “os trabalhadores do morto no além-túmulo”, como explicou o professor. O período de Amenenhet foi o do faraó Tutmés III, o sexto faraó da 18ª dinastia egípcia, da época do chamado Império Novo, cerca de 1.200 anos antes de Cristo.

Pellini trabalhando no novo poço

“Temos encontrado muitos ushabts, material cerâmico, muitos ossos e partes de múmia, em sua maioria. Estamos encontrando também materiais dos séculos 19 e 20, que estão associados à ocupação Qurnawi, que é outra grande preocupação do projeto brasileiro, porque aqui praticamente ninguém trabalha com esse período de ocupação, que é quando as tumbas da Necrópole Tebana foram utilizadas como casas”, contou Pellini. A região é conhecida pela população local como Qurna e seus habitantes como qurnawis.

Entre os registros da ocupação Qurnawi estão embalagens de cigarro, utensílios de cozinha, pedaços de roupa e um sapato. “Temos registros de que uma família morou nessa tumba em 1908”, disse o arqueólogo.

A ideia para os próximos anos é terminar as escavações, e a expectativa é que isso dure cerca de três a quatro anos. “Depende muito do que a gente vai encontrar, mas no mínimo mais três etapas de campo, depois disso vai começar o processo de conservação e restauração da tumba, e aí nós temos mais uns cinco a dez anos, ou seja, é um projeto de longa duração e que visa futuramente abrir a tumba para o turismo aqui no Egito, bem como analisar os materiais para tentar entender um pouco quem foi Amenenhet, qual era o papel dele dentro do governo Tutmés III, já que ele foi um sacerdote e escriba do governo, e também entender como as famílias dos séculos 18, 19 e 20 habitaram e coabitaram a tumba”, explicou.

O projeto que era exclusivamente brasileiro, com início em 2016, hoje se tornou uma grande missão conjunta que envolve a Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, e o Ministério de Antiguidades do governo egípcio através do Centro de Documentação, mas a coordenação geral continua sendo da UFMG, sob a liderança de Pellini.

“Lembrando que existem arqueólogos brasileiros trabalhando no Egito em outras missões estrangeiras, mas nunca houve uma equipe liderada por brasileiros e por uma universidade brasileira no Egito, a nossa é a primeira”, pontuou Pellini.

O projeto Amenenhet faz parte do Programa Arqueológico Brasileiro no Egito (Bape, na sigla em inglês), criado por Pellini em 2015, então docente na Universidade Federal de Sergipe. “O Bape é um programa para desenvolver pesquisas aqui no Egito e dentro dele nós temos o projeto Amenenhet.

Mas o Amenenhet é apenas um dos projetos que o Bape lidera no Egito. Outros dois projetos estão ocorrendo em paralelo às escavações. Um projeto antropológico que tem como objetivo a tentativa de entendimento das ocupações humanas modernas na Necrópole Tebana e o projeto de criação de narrativas alternativas, que busca oferecer ao público em geral e ao público científico narrativas diferentes do discurso científico.

‘Ushabts’ descobertos na tumba TT-123

“Embora ele esteja indiretamente associado ao trabalho que a gente tem desenvolvido na tumba, um outro projeto que o Bape tem liderado aqui é justamente um projeto para a tentativa do entendimento de como as populações antigas habitavam essas tumbas, e ele não se refere única e exclusivamente à nossa tumba, mas à Necrópole Tebana como um todo”, disse Pellini.

De cunho fortemente antropológico, o projeto tenta entender como ocorreram as habitações e ocupações a partir do século 18, quais os elementos simbólicos associados, os discursos do estado, dos qurnawis, dos turistas e dos próprios arqueólogos sobre esse tipo de ocupação, e também como as relações se davam e como a ocupação ocorria. “Estamos tentando entender porque a nossa tumba não é a única que foi habitada, várias outras tumbas foram habitadas, então queremos entender um pouco como isso está ocorrendo”, disse Pellini.

Paralelamente, o Bape ainda mantém o projeto Narrativas Alternativas, liderado pelo professor do departamento de Antropologia e Arqueologia da UFMG, Rogerio Do Pateo, para tentar discutir as narrativas alternativas ao discurso científico. “A gente acredita que o discurso científico é só um dos discursos possíveis. Um dos trabalhos que tem sido feito aqui nos últimos dois anos é um registro fotográfico imagético não só dos trabalhos, mas uma tentativa de entender os discursos de imagem como discursos alternativos, entender, por exemplo, a reapropriação das imagens faraônicas e como o discurso faraônico aparece nos murais, nos grafites. Ao mesmo tempo, qual a percepção desses espaços pelos arqueólogos que aparecem aqui pela primeira vez, tentar entender um pouco através de imagens e criar através de imagens discursos que podem ser levados a outros públicos para o entendimento desse patrimônio, desses restos arqueológicos; acreditamos que essa também é uma maneira de construir conhecimento”, explicou Pellini.

A seleção da tumba TT-123 foi feita a partir do convite do governo egípcio que, segundo Pellini, ofereceu uma série de tumbas que nunca haviam sido pesquisadas e, dentre essas, eles escolherem a que melhor atendia aos interesses científicos, levando em consideração a potencialidade arqueológica da tumba. “É uma tumba que nunca tinha sido escavada nem pesquisada ou publicada, e mostrava e ainda mostra uma qualidade excepcional dos relevos das pinturas, assim como mostrava um potencial arqueológico, e esse potencial tem se confirmado. A gente já identificou várias cenas interessantes, tem identificado uma quantidade muito grande de materiais arqueológicos muito bem preservados, como os pedaços de sarcófago e as estatuetas ushabts, e esse interesse tem se confirmado ano após ano”, detalhou. É possível acompanhar o trabalho pelas redes sociais do Bape no Instagram e Facebook.

A missão em campo, segundo Pellini, ocorre só uma vez por ano por coincidir com as férias dos docentes da equipe. “Estou em meu habitat natural, é minha casa, me sinto muito à vontade aqui, e não só isso, é a realização de sonhos de infância. Une o útil ao agradável, estamos trabalhando num lugar que eu amo de paixão, talvez seja o único lugar que eu durma tranquilo no mundo. É um sonho que se realiza cotidianamente estar aqui trabalhando com o passado faraônico e com o passado presente, talvez por isso eu me sinta tão a vontade aqui, revelou Pellini.

A próxima etapa de escavações ocorrerá em março de 2021. A ANBA acompanha o trabalho da equipe desde 2016. Leia outras reportagens sobre o tema clicando aqui e aqui.

Na foto do alto, em pé, Lorrana Duari, estudante do depto. de Antropologia e Arqueologia da UFMG, que está fazendo seu TCC no projeto; e Marco Gastaldi, arqueólogo de Córdoba. Sentados, a arqueóloga da UFMG Mariana Petri e o líder da missão, Pellini.

Divulgação/Bape
Reprodução/Instagram
Divulgação/Bape

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