São Paulo – Apresentar uma peça de teatro em um país onde se fala outra língua pode soar um tanto complicado – a não ser que se trate de um grupo de mímica. Para a companhia teatral Sabre de Luz Teatro, no entanto, foi um desafio superado e recebido com muito entusiasmo. Em novembro de 2025, o grupo participou de dois festivais no Marrocos: o Festival Internacional da Juventude, de Taza, e o Festival Internacional das Crianças, de Fez. Para apresentar a peça Cinco Semanas em um Balão, inspirada na obra de Júlio Verne, os atores até aprenderam a falar francês (a língua oficial do país é o árabe, mas o francês é amplamente usado e ensinado nas escolas).

“Sim, apresentamos em francês e não falávamos o idioma! Fizemos a adaptação do texto e o estudo especialmente para o festival durante um mês”, conta Joyce Salomão, atriz, diretora e dramaturga, quem adaptou o texto de Verne para a peça. “Foi um processo muito desafiador, porque exigiu um novo nível de precisão na atuação, principalmente no ritmo da comédia; o corpo e a fala construída no tempo cômico do idioma e na sonoridade das palavras, da imagem e da construção visual ganharam ainda mais importância.”

O processo reforçou algo que já era central no trabalho da trupe: a dramaturgia física e visual (com o uso da tecnologia). Toda vez que os obstáculos eram superados pelos personagens – como na queda do balão no deserto ou na luta com o tubarão mecânico gigante -, eles diziam em francês: “Suuuper!”. Ao final do espetáculo, no encontro com o público, as crianças repetiam de forma divertida: “suuuuper”! “Objetivo conquistado é encantar o público fazendo eles se sentirem dentro da jornada!”, diz Joyce.
Não foi a primeira vez que a Sabre de Luz Teatro esteve no país. Em 2019, a companhia esteve na Primavera Teatral para Crianças, de Nador. O convite aconteceu a partir de uma indicação. Joyce acredita que foi esse primeiro contato que os levou até os curadores do festival de Taza. Já o festival em Fez foi via indicação de uma artista da França que eles também conheceram em Nador.
No ano passado, o tour passou ainda por Portugal e Espanha. “Foi uma experiência extremamente rica, este é o ponto principal pelo nosso interesse na internacionalização, é poder ampliar o olhar artístico, filosófico e social. O mais interessante foi perceber como o teatro consegue romper barreiras mesmo com diferenças culturais e linguísticas, e criar conexões diretas com o público”, sintetiza a atriz e diretora.
Doze anos de balão
A peça estreou em 2014 e foram mais de 400 apresentações desde então, incluindo as internacionais. “E queremos alçar outros vôos! Nosso sonho é voar com este balão pelo mundo”, diz Joyce, que criou a companhia em 2013 já com o intuito de unir teatro e tecnologia – como linguagem e não como efeito, ela faz questão de frisar.
..seguimos sustentando o trabalho porque acreditamos no poder transformador do nosso teatro…
Joyce Salomão
Desde o início, a proposta foi desenvolver uma linguagem própria que unisse teatro e ficção científica, algo ainda pouco explorado no Brasil. A companhia desenvolve seus trabalhos principalmente por meio de editais públicos, leis de incentivo, circulação de espetáculos e parcerias institucionais. Ao longo de 13 anos, conseguiram viabilizar diversos projetos, consolidando um repertório com sete espetáculos e uma estrutura própria de criação, incluindo o ateliê. A empreitada já rendeu mais de dez prêmios.
“É um percurso de muita persistência. Trabalhar com pesquisa artística no Brasil ainda envolve desafios estruturais importantes, principalmente devido à limitação de recursos e à descontinuidade de políticas públicas. Ainda assim, seguimos sustentando o trabalho porque acreditamos no poder transformador do nosso teatro e na urgência de construir, no presente, os futuros que ainda não existem”, diz ela.
Palcos da vida
Joyce começou a vida artística como bailarina – seu primeiro festival de dança foi aos três anos. “Tenho uma memória muito viva desse dia: no meio da coreografia, eu parei e fiz xixi na meia-calça. Minha professora me pegou no colo, me levou correndo ao vestiário, trocou minha meia e me colocou de volta no palco, no meio da coreografia. E eu continuei como se nada tivesse acontecido, tenho a memória de como me senti feliz quando terminei a coreografia.”
Decidi ser um bom exemplo em vez de uma ‘boa mãe’ e isso incluía lutar pelos meus sonhos.
Joyce Salomão
Foram 16 anos dedicados à dança, com participação em mais de 20 festivais. Aos 12 anos ela iniciou no teatro e teve sua primeira montagem profissional aos 17. Depois disso, se afastou dos palcos por motivos familiares, período difícil no qual ela se sentia deslocada, “como um peixe fora d’água, como se a vida tivesse perdido o sentido”.
Aos 22 anos, quando seu filho nasceu, tomou uma decisão definitiva: “Entendi que a arte não era apenas uma escolha, mas parte de quem eu sou. Decidi ser um bom exemplo em vez de uma ‘boa mãe’ e isso incluía lutar pelos meus sonhos. Fiz uma promessa a mim mesma de que nunca mais deixaria de atuar e de dançar pelo resto da vida. E sigo cumprindo.”
Sorte da plateia, que em coro responde: Suuuuper!
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Reportagem de Débora Rubin, em colaboração com a ANBA


