São Paulo – Os brasileiros pouco conhecem a fouta tunisiana. Duas empreendedoras árabes, no entanto, estão dispostas a mudar isso e transformar a peça de moda em um elemento habitual dos guarda-roupas no Brasil. Lamia Hatira e Alia Mahmoud, ambas com origens tunisiana e estadunidense, fundaram a empresa Fouta Harrisa, na capital paulista, tendo essa como uma das suas missões.

Originalmente usada no hammam, banho árabe ou turco que lembra a sauna, a fouta é uma peça de tecido tradicional tunisiana de dois metros por um, que pode servir de canga, lenço, saia, tolha, manta e até mesmo como cobertor ou para decorar espaços. “Eu fui ao Rio um dia e levei a minha fouta, a nossa fouta da Tunísia, e as pessoas ficaram bem impressionadas. Eu entendi que não tinha ali apenas uma canga de uma qualidade melhor de algodão, mas um item muito essencial para a vida brasileira, mas que ainda não existia aqui”, contou Lamia para a reportagem da ANBA.
Como a maioria das peças de confecção, a fouta também virou artigo industrial com o passar dos anos e começou a ser feita com matérias-primas mais baratas, sintéticas, em vez do algodão. Não é essa peça, no entanto, que as duas sócias comercializam no Brasil, mas sim as artesanais, que carregam simbolismo. “Eu e a Alia temos em comum desde pequenas a paixão pelo artesanato tunisiano. O artesanato tunisiano é tão rico, representa cada elemento da cultura, conta muito a história da nossa cultura”, afirma Lamia.

As peças da Fouta Harissa são feitas por três artesãos parceiros na Tunísia, um que trabalha com a fouta 100% algodão, outro com fouta de linho e outro que confecciona lenços de seda, também vendidos pela empresa. “Há menos e menos artesãos hoje em dia. É muito fácil achar uma fábrica que faz foutas quaisquer, mas é bem difícil ter parceria com artesão menores”, explica Lamia, deixando claro, no entanto, que é com os fornecedores artesãos que elas trabalham.
As sócias chegaram a abrir a empresa de foutas no Brasil em 2018, mas a fecharam em 2020, com a pandemia de covid-19 e com a disparada da cotação do dólar em relação ao real. Em novembro do ano passado, elas reabriram o negócio. Atualmente, as peças são vendidas no Brasil por meio do site da empresa, na loja Noda Cozinha do bairro paulistano de Pinheiros e em alguns eventos. A empresa está em fase de reconstrução da rede de distribuição, que em 2018 era composta inclusive por hotéis.
Lamia afirma que atualmente o maior uso da peça no Brasil se dá como canga. Ela não quer, no entanto, nomear o artigo dessa maneira, em função da associação da canga a um acessório de menor valor econômico, dos múltiplos usos que a fouta pode ter além da praia e porque tomou para si a missão de divulgar a fouta com o nome original. “É uma oportunidade e um grande desafio comunicar o produto”, diz.
Lamia conta que a fouta já é muito conhecida na Europa. “É um símbolo do Mediterrâneo. Hoje em dia na França, Itália, Espanha, você tem a fouta – e a chamam de fouta – usada em todas as praias. Virou um objeto desejado globalmente, mas especialmente na Europa”, diz a empreendedora. Lamia aposta no sucesso da fouta no Brasil como peça de praia também. “No Brasil há muitos feriados, as pessoas viajam nos feriados e valorizam essas viagens. Se você vai viajar para a Bahia, para Floripa, para o Rio e já comprou seu maiô, lindinho, você vai querer também uma fouta chique para levar junto”, acredita ela.
Entre Tunísia, EUA e Brasil
Lamia mora em São Paulo. Alia vive nos Estados Unidos. As duas têm pai tunisiano e mãe estadunidense, e, com uma vida de idas e vindas entre esses dois países, elas se conheceram em atividades de empreendedorismo social e sustentabilidade, e acabaram identificando missões pessoais em comum. As duas integraram o Global Shapers Community, iniciativa do Fórum Econômico Mundial que reúne jovens líderes. “Lá atrás a gente pensou: quando a gente tiver uma empresa, podemos ser sócias”, conta Lamia.

Lamia esteve no Brasil pela primeira vez em 2012, em função do trabalho em uma consultoria de sustentabilidade, para a qual fez um estudo sobre a copaíba, planta da Amazônia. A tunisiana voltou ao Brasil em 2014 para uma conferência ambiental, mas foi mais adiante, ao fazer mestrado na Suécia, que conheceu o brasileiro com o qual se casou. O negócio das foutas surgiu a partir do interesse que Lamia percebeu entre seus conhecidos no Brasil por sua peça pessoal. “Eu comecei a comprar e trazer essas foutas da Tunísia para o Brasil”, relata, sobre os primórdios da comercialização.

A partir do convite para fornecer para uma loja em São Paulo veio a decisão de estruturar o negócio com a amiga Alia e fazer da Fouta Harissa uma iniciativa com impacto social positivo na Tunísia. Além do estabelecimento da empresa no Brasil em 2018, elas abriram o negócio nos Estados Unidos em 2019 e seguiram trabalhando nele quando fecharam a empresa no Brasil. “Sempre com a intenção de voltar para o Brasil de alguma forma”, explica sobre o que se deu, de fato, no final do ano passado.
A Fouta Harissa segue aberta nos Estados Unidos, mas o foco das empreendedoras é o Brasil. As sócias têm planos, inclusive, de começar a trazer outros produtos tradicionais tunisianos para o mercado brasileiro, um deles a harissa (o item está no nome da empresa). Trata-se de um molho ou pasta que leva ingredientes como pimenta, azeite e alho. Como parte da sua estratégia de expansão, a Fouta Harissa se tornou associada da Câmara de Comércio Árabe Brasileira no ano passado.
As sócias
Formada em Estudos de Desenvolvimento Internacional na Universidade George Washington, Alia tem mestrado em Desenvolvimento do Setor Privado Internacional pela New York University. Um dos cargos que ocupou no mercado de trabalho foi como gerente regional de Cidadania Corporativa para a região MENA na Microsoft. Lamia é bacharel em Estudos da Comunicação e Espanhol (minor em Filosofia) pela Seattle University, tem mestrado em Liderança Estratégica para a Sustentabilidade pelo Blekinge Institute of Technology e uma das suas posições na carreira foi como consultora em Desenvolvimento Sustentável na Coxswain Social Investment Plus.
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