São Paulo – Há 1,7 milhão de mulheres na direção e codireção de propriedades rurais no Brasil, segundo o IBGE, que administram cerca de 30 milhões de hectares em todo o País, mas quase não se fala delas. Pensando nessa invisibilidade, e nos problemas gerados por isso, a empresária, produtora e liderança rural Juliana Farah começou a se articular para criar ações para esse público. Há mais de três anos, criou o Semeadoras do Agro dentro da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), programa focado em três grandes pilares: capacitação em empreendedorismo e gestão profissional; cuidado com quem produz e fortalecimento da liderança feminina no campo.
“A criação da Comissão Semeadoras do Agro surgiu de uma conversa minha com o então presidente do sistema Faesp/Senar, Dr. Fábio de Salles Meirelles, que sempre foi um grande entusiasta e incentivador da presença feminina em cargos de liderança — tanto que, de forma pioneira, abriu espaço para mulheres na diretoria em sua gestão”, recorda Juliana, que também preside o Sindicato Rural de Mineiros do Tietê, cidade onde produz grãos, café e pecuária. “Na época, compartilhei com ele a minha inquietação ao testemunhar a vulnerabilidade de tantas mulheres no campo, que trabalhavam arduamente, mas permaneciam invisíveis para a sociedade”.
As ações da Comissão são pensadas e desenhadas para acolher a mulher do campo de forma integral porque, segundo sua idealizadora, entende-se que o sucesso no agronegócio vai muito além da porteira. “Nossa atuação busca identificar os desafios reais e propor soluções práticas”, diz. Isso acontece em encontros municipais, nos quais há capacitação em módulos de conhecimento elaborados pela Comissão, e em outros subprogramas como o “Semear é Cuidar”, que oferece, de forma gratuita, através da rede sindical, exames preventivos para o diagnóstico precoce dos cânceres de mama, colo do útero e de pele – frente que conta com o apoio das ONGs Orientavida e Pense Rosa.
O grande diferencial do programa é que ele não entrega apenas um exame, mas viabiliza a jornada completa: cuida da logística, levando as mulheres até os locais de exame/procedimentos, oferece alimentação e amparo emocional para quem recebe o diagnóstico. Para agilizar os diagnósticos, a maior parte dos procedimentos para identificação das doenças é realizada na rede particular. De 2023, quando foi criado, até o final de 2025, 11 mil mulheres haviam sido atendidas.
“Trabalhamos incansavelmente no fortalecimento da liderança feminina, estimulando o protagonismo e a criação de redes de apoio sólidas. Ao unir esses eixos, capacitação, saúde e rentabilidade, não estamos apenas mudando a vida de uma mulher, mas impulsionando o desenvolvimento econômico de regiões inteiras e inspirando as gerações que virão”, sintetiza Juliana.
Para ela, a situação da mulher no agro hoje é um movimento de ascensão absolutamente irreversível: saiu de uma posição de invisibilidade estatística para agentes fundamentais na gestão das propriedades e na segurança alimentar. E celebra que hoje existam 16 mulheres presidentes de sindicatos rurais do estado de São Paulo. Mas Juliana lembra que ainda há muito a ser feito.
“Lutamos diariamente contra o machismo estrutural, o preconceito e a violência que ainda tentam limitar nossas competências a estereótipos. A questão da desigualdade salarial e de direitos é uma pauta constante: precisamos garantir que as mulheres desenvolvam suas habilidades em igualdade de condições aos homens, com acesso real a crédito e voz ativa nas decisões. Também há muito a ser feito para aliviar a sobrecarga das tarefas de cuidado que, historicamente, recaem apenas sobre nós.”
“Coisa de homem”
Nascida em Bauru, crescida em Birigui, cidades do interior de São Paulo, Juliana viveu intensamente a vida do interior e teve que quebrar desde cedo os preconceitos contra a mulher no campo, em especial quando foi trabalhar no curtume do pai. “Meu primeiro contato com a força de trabalho foi com meu pai, ainda menina, processando couro cru e na fazenda que ele tinha em Goiás. Ali eu já rompia padrões, mostrando que não existia “coisa de homem” no trabalho. Mais tarde, me tornei produtora rural e empresária, lidando com soja e pecuária no Mato Grosso e, mais recentemente, com grãos, café e pecuária, em Mineiros do Tietê, Franca e Cristais Paulista (as três também no interior de São Paulo)”, diz.
Os avós maternos de seu pai vieram da Síria, encontraram-se no Brasil e casaram-se em Jaú, outra cidade do interior paulista. Seu bisavô foi um empresário de grande destaque na cidade, proprietário de uma concessionária de automóveis e figura central na sociedade local. Já o avô paterno do pai veio do Líbano aos 13 anos, viajando no porão de um navio até desembarcar em Santos. Estabeleceu-se em Bariri como mascate, mas retornou ao Líbano por volta dos 20 anos para um casamento arranjado com a bisavó de Juliana, que era síria.
“Casaram-se por procuração e o encontro aconteceu apenas no Brasil. Em Bariri, prosperaram com uma loja e, posteriormente, em uma fazenda, onde produziam café, feijão e milho. Meu bisavô era um homem de pulso firme que sustentou toda a família através do café até falecer, em 1958”, conta.
Da origem árabe ela acredita ter herdado o DNA do empreendedorismo e a coragem de se arriscar. “A história da minha família é de muita coragem e de ligação com a terra. Minhas raízes são uma mistura de resiliência e empreendedorismo que atravessou oceanos. Trago comigo valores muito fortes de respeito ao próximo, religiosidade e o cooperativismo. Aprendi que liderar é, acima de tudo, servir de referência e influenciar positivamente a vida das pessoas”, finaliza.
Leia também:
Retratos do Brasil de origem árabe


