A primeira médica de uma família libanesa

O avô libanês de Hanah Mustapha Abou Arabi chegou ao Brasil com apenas 18 anos. A psiquiatra foi a primeira mulher a se formar em medicina em sua família, e hoje atende principalmente pacientes com transtorno de ansiedade.

Bruna Garcia Fonseca
bruna.garcia@anba.com.br

São Paulo – Meu nome é Hanah Mustapha Abou Arabi, sou médica psiquiatra e coordenadora de interconsultas psiquiátricas do Hospital HSANP, em São Paulo. Meu avô libanês, Faouzi Abou Arabi, chegou ao Brasil com 18 anos de idade e US$ 20 no bolso. Deixou no Vale do Bekaa, em Sultan Yacoub, no Líbano, minha avó e meu pai, então uma criança de apenas 9 meses, a fim de se estabilizar e trazê-los posteriormente. O tempo foi passando e, com dificuldade, pediu que a esposa viesse primeiro e deixasse o filho (meu pai), já com 6 anos, sob os cuidados de sua avó paterna. Assim, meu pai permaneceu no Líbano com minha bisavó até seus 17 anos, quando então veio para o Brasil se reunir à família, que agora estava composta por mais quatro irmãos. Aqui, ele aprendeu português, fez cursinho e entrou na faculdade de medicina!

A casa de meus bisavós, onde meu avô e meu pai nasceram, ainda existe em Sultan Yacoub e se mantém na construção original. Eu, meu irmão e meus primos sabemos do privilégio que é poder visitar a casa de nossa família e preservar a memória da nossa origem e da história de superação e de vitórias dos nossos antepassados, e do surgimento de uma grande, linda e abençoada família.

O meu pai foi o primeiro médico na minha família, em uma época em que isto era uma raridade e uma honra para uma família árabe. Ele teve dois filhos, Jihad e eu, Hanah, e nós dois nos tornamos médicos; meu irmão é radiologista e eu, psiquiatra – fui a primeira médica mulher da família. Tenho outros três primos que fizeram medicina logo em seguida. Com certeza o meu pai, Mustapha Abou Arabi, foi quem inspirou todos nós a seguirmos a profissão médica. Eu infelizmente não falo árabe, mas não abri mão de aprender o idioma.

Desde pequena sabia que queria ser médica. Na adolescência, sempre me interessei por psicologia, lia livros sobre inteligência emocional, comportamento, tipos de personalidade, etc. Mas eu nunca havia pensado em fazer psiquiatria de fato. Passei a faculdade pensando em outras especialidades, como dermatologia e endocrinologia.

Foi somente no internato, no 6º e último ano de curso, que eu passei pelo estágio de psiquiatria, tanto no hospital quanto no ambulatório, e tive contato real e na prática sobre essa especialidade médica, e então a ideia de fazer psiquiatria surgiu. Me apaixonei pela área e fui ficando cada vez mais curiosa em entender desde o funcionamento químico do cérebro, as emoções e comportamentos da mente, até os estudos e a clínica dos diversos transtornos mentais. Percebi que, naquele estágio (comparado aos estágios que fiz em outras especialidades), eu tinha uma vontade e disposição maior em estar presente, em entender e em ajudar aqueles pacientes. Uma vontade de buscar exatamente o significado que a palavra Psiquiatria tem, que quer dizer “a arte de curar a alma”.

Faltando poucos meses para eu terminar a faculdade de medicina, vivi um período de maior ansiedade, por ser uma fase de mudanças, com expectativas, preocupações, autocobrança e receio sobre o futuro. Nesse momento, eu frequentei algumas sessões de terapia com um médico e terapeuta que me auxiliou durante essa fase de decisão e novos caminhos. Lembro que terminado o estágio e a terapia, eu ainda estava apreensiva, porém, decidida a me especializar em psiquiatria, e meu colega e terapeuta me disse algo que me marcou: “Agora fora do consultório eu posso falar. Conhecendo você, eu não tenho ideia se você seria boa em alguma outra especialidade, mas na psiquiatria eu tenho certeza que você seria excelente”. E foi assim, com fascínio pela mente humana e um desejo de contribuir para a sociedade ajudando as pessoas a viver de forma mais plena e diminuindo os sofrimentos da alma, que eu escolhi a minha especialidade e hoje trabalho na área há 5 anos. Trabalho com psiquiatria geral do adulto. Trato com mais frequência casos de transtornos depressivos, transtornos ansiosos e pânico, compulsões alimentares e casos de insônia.

A ansiedade deve ser tratada quando passa a se tornar uma ansiedade patológica, disfuncional, ou seja, quando ela traz sofrimento significativo para o indivíduo e/ou prejuízo social e funcional em sua vida. O uso de medicamentos é importante no tratamento, principalmente quando há presença de sintomas graves, sintomas físicos significativos ou quando há as frequentes comorbidades com outros transtornos mentais, como a depressão.

Os tratamentos mais eficazes incluem a combinação de várias intervenções, como o uso de medicamentos de curto e longo prazo, que irão melhorar a qualidade de vida, insônia, humor e sintomas físicos, associado ao tratamento psicoterapêutico, que irá auxiliar em mudanças no comportamento ansioso e na correção de pensamentos descontrolados e catastróficos que pioram a ansiedade.

E por último, mudanças de hábitos podem trazer equilíbrio, maior qualidade de vida e melhorar muito esse quadro. Algumas medidas como diminuir ingestão de estimulantes (cafeína, energéticos, etc.), aumentar momentos de lazer em família e com amigos, a prática regular de exercícios físicos, dormir cerca de oito horas por noite, ter uma alimentação saudável, praticar yoga ou meditação.

Nota da Redação: o consultório da dra. Hanah fica na Av. Vereador José Diniz, 3457, cj. 1411, no Campo Belo, em São Paulo. O telefone para contato é o (11) 5531-1712, e o e-mail, hma.arabi@gmail.com.

Divulgação

Publicações relacionadas