Apesar do jejum, Ramadã faz crescer demanda por alimentos

Ao longo do mês do Ramadã, muçulmanos jejuam durante o dia, mas à noite as refeições coletivas e as doações fazem crescer a procura por comida, o que tem forte impacto no calendário comercial dos países árabes.

Thais Sousa
tsousa@anba.com.br

São Paulo – Um mês de jejum durante o dia. E de encontros e refeições partilhadas após o pôr do sol. Para os muçulmanos, o calendário da religião aponta o ano de 1440 e a época é de Ramadã, mês que impacta também o calendário comercial dos países árabes. Neste período, as refeições noturnas começam com a quebra do jejum (Iftar). É costume iniciar a alimentação com tâmara e seguir com banquetes para reunir parentes e amigos.

São essas reuniões e a tradição de doar alimentos aos pobres que influenciam no comércio e importação de alimentos. “Logicamente, nos meses que antecedem o Ramadã as movimentações e compras aumentam. Há consumo maior na região e o estoque também cresce. As pessoas acabam estocando mais para atender a demanda, porque esses países recebem muitos turistas, além de pessoas de fora que retornam aos seus países de origem em função da celebração”, afirmou Mohamed Hussein El Zoghbi, presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), em entrevista à ANBA.

E quais os impactos no setor de alimentos do Brasil em decorrência do Ramadã? “Os contratos [com países árabes] são fechados com antecedência de pelo menos três meses, porque além da produção, há o embarque e a estocagem. E tudo que você compra leva um tempo para chegar ao seu destino. As compras começam a se normalizar no mês do Ramadã. As exportações, você vai ver [subirem] nos meses que antecedem, com certeza”, declarou Zoghbi.

Além do consumo noturno, o estoque se dá em decorrência da redução das atividades comerciais, feitas habitualmente durante o dia e que diminuem no Ramadã. Entre os produtos que têm maiores demandas estão alguns de grande produção no Brasil, frango, carne bovina e soja. Itens industrializados como sopas e sucos também têm vendas ampliadas pela época. Entre os árabes, agricultores de tâmara intensificam a produção.

Do Brasil para os árabes

Este ano o Ramadã teve início em 05 de maio, e o aumento nos embarques de alimentos do Brasil aos países árabes pode ser visto a partir de março. Foram 1,05 millhão de toneladas, frente a 963 mil toneladas em fevereiro. A tendência vem seguindo até o mês de abril, que antecede a celebração.

Um dos principais mercados para o setor produtivo de carne de frango do Brasil, o bloco de países árabes aumenta sua demanda no período. No comparativo entre abril de 2018 e abril de 2019, a venda de frango aos países árabes cresceu 34,9% em volume, para 338,9 mil toneladas, segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Acarne bovina e a soja também apresentaram maior movimentação. De acordo com dados da Inteligência de Mercado da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em abril de 2019 em relação ao mesmo mês de 2018, houve crescimento de 107% na exportação de carne bovina, chegando a 24,45 mil toneladas. Já as vendas de soja no mesmo comparativo subiram 58,34%, somando 116 mil toneladas do produto.

Ainda no comparativo dos meses de abril deste ano e do ano passado, os embarques totais de alimentos seguiram em variação positiva de 46,13%, atingindo 926,25 mil toneladas exportadas. Embora possam existir variações nesse crescimento em alguns anos, Zoghbi explica que elas não afetam a tendência natural de aumento. “O mercado é consistente. É um mercado muito importante para o Brasil. São sempre assim sazonais e nessa época dois meses antes sobem as vendas. Já no mês do Ramadã, caem um pouco por causa dos estoques”, apontou.

Dos árabes para os muçulmanos

Entre as empresas árabes, o Ramadã é data que norteia o calendário de negócios. A tunisiana Jardins de Carthage, por exemplo, aponta crescimento de suas vendas dois meses antes do Ramadã. “Vendemos mais, especialmente na Europa, que tem comunidades maiores de muçulmanos que são naturais de países como a Argélia e a própria Tunísia”, revelou Foued Gueddich, gerente geral do grupo que oferece produtos como conservas e molhos de pimentas e tomate.

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Também focada no mercado de produtos industrializados, a marca de enlatados Cortas Food, que tem sede no Líbano, reúne seu maior volume de vendas em três meses ligados à celebração religiosa. “Posso dizer que 70% das nossas vendas no ano se concentram nos dois meses que precedem e no mês seguinte ao Ramadã”, afirmou Jacques Hamati, chefe de logística da empresa. A Cortas comercializa feijão, calda de frutas e rosas, sementes de gergelim, azeites, óleos e picles e, segundo Hamati, o aumento da procura ocorre por todos os itens.

Já a empresa Huilerie Loued, da Tunísia, vê a demanda por sua linha de azeites de oliva crescendo a partir de três meses antes do Ramadã. “O mercado como um todo tem esse aumento, claro que depende do produto, mas em geral produtos como ovos, carne, peixes, frango, tâmaras e leite vendem mais”, destacou Abdessalem Loued, CEO da empresa. No setor em que trabalha, porém, o as vendas têm um aumento mais significativo – de 15% a 20% – cerca de 15 dias antes do período.

Também da Tunísia, a empresa Bra International Trade trabalha com tâmaras e vê no período um expressivo aumento de suas vendas. “Cerca de três meses antes, a demanda começa a subir e, até 45 dias antes, aumentamos em volume de 35% a 40% a nossa exportação”, explicou Ameur Bra, executivo da empresa. Segundo ele e a esposa, Manel Tayechi Bra, gerente executiva de vendas da marca, é em países muçulmanos que se concentra a maior parte da venda de tâmaras frescas, que não passam por processamento para chegar ao consumidor. Entre os mercados que demandam mais produto estão países com grande população muçulmana como Bangladesh e Índia. O movimento pré, durante e pós Ramadã influencia não apenas o período, mas todo o calendário comercial dos árabes. “Nos preparamos o ano todo para o Ramadã”, concluiu Ameur Bra.

Amer Hilabi/AFP
Thais Sousa / ANBA
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